Um Nobel para Bob Dylan: Um exagero?
Por Franco Santos Alves da Silva
Fonte: A Balada de Bob Dylan
Postado em 24 de outubro de 2016
Recebi com grande estranhamento o Nobel de literatura para Bob Dylan. Busquei diversas opiniões, escutei novamente as músicas, li as letras e compreendi o necessário frenesi do debate, mas não consegui mudar, ainda, minha opinião: o prêmio para Dylan foi um exagero. E isto pode parecer ainda mais estranho para alguém que se propôs a estudar a história social do rock, em especial o Pink Floyd, com uma abordagem interdisciplinar. Esqueçam o frenesi de fãs e vamos ver alguns argumentos.
As justificativas dadas na quinta-feira, 13 de outubro, pela crítica literária, membro e secretária da Academia Sueca, Sara Danius, podem ajudar à esclarecer a controvérsia. Segundo Danius, Dylan foi escolhido por "por criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana". E que "sua influência na música contemporânea é profunda". Este primeiro, e principal argumento, funciona como uma hipótese, que precisa ser comprovada em comparação com outros músicos que usaram tamanha sagacidade na poesia lírica. Apenas uma breve passada por grandes compositores do jazz, blues ou country, encontramos grandes letristas. Já dentro de uma geração mais próxima a Dylan tem-se os nomes de grandes compositores John Lennon, Paul McCartney, Leonard Cohen, Neil Youg, Chico Buarque, Caetano Veloso, Bruce Springsteen e David Bowie. A academia não concede prêmios póstumos, mesmo que o fizesse, não seria este o caso: a questão não é abrir precedentes, mas flexibilizar o critério. Neste sentido, nenhum nome acima mereceria o Nobel de Literatura.
Em seguida Sara Danius comparou o cantor estadunidense com poetas clássicos: "Eles escreveram textos poéticos que foram feitos para serem ouvidos, declamados, muitas vezes com instrumentos, do mesmo jeito que Bob Dylan. Nós ainda lemos Homero e Safo, e nós apreciamos". Ora, esta comparação é fora do contexto, mais de 2800 anos separam o laureado cancioneiro dos autores clássicos. E isto muda muita coisa, desde o próprio conceito de poesia, à cultura oral na antiguidade clássica, o acompanhamento e o arranjo clássico pouco se compara com uma produção da música popular contemporânea. No mais, o que sobreviveu da poesia clássica, foi, para nós, a escrita, enquanto que Dylan tem a estrutura da indústria cultural e fonográfica a seu favor.
Mas o principal motivo é simples: Bob Dylan não é um literato e existem diversos outros autores engajados que estão na fila. Não se trata aqui de uma visão conservadora, é claro que as diferentes formas de expressão artísticas convergem entre si, e às vezes se confundem, mas chega a soar irônico e desrespeitoso o esquecimento de nomes como Ngugi wa Thiong’o, do Quênia, Mia Couto do Moçambique, Lobo Antunes de Portugal, Amoz Oz de Israel, Haruki Murakami do Japão, Philip Roth e Tomas Pynchon, ambos dos EUA, Margaret Atwood do Canadá, Salman Rushdie da Índia, Ian McEwan da Inglaterra e Adonis, da Síria. O prêmio para este último nome, o poeta sírio, provavelmente teria uma importância muito maior em uma Europa em guerra e no meio da maior crise migratória desde a Segunda Guerra Mundial.
Contestar o Nobel não significa negar a grandeza de Bob Dylan, ele está além desta necessidade, de modo que nenhum rótulo lhe cabe mais, cantor de protesto, blues, country, revolucionário do rock, a voz da contracultura e pacifista. Na minha opinião as algumas das melhores músicas de Bob Dylan são "Like a Rolling Stone" (1965), "Just Like a Woman" (1966), "All Along the Watchtower" (1967), "Tangled Up in Blue" (1975), "Knockin on Heaven´s Door" (1965), "Hurricane" (1976), "It´s alright Ma" (1965), "A hard rain´s a-gonna fall" (1963), "Rainy Day Women No12 & 35" (1966) e "Chimes of Freedom" (1964), mas isolar as letras de seu contexto e ver somente a poesia, não é o suficiente, e premiar um músico por sua escrita, não faz dele um literato. Alías, Dylan está pouco se lixando para o Nobel.
Li por aí que o Bob Dylan não precisa do Nobel, mas o Nobel precisa de Bob Dylan. É uma frase curiosa que guarda um verdade: não cabe ao rock buscar reconhecimento, pois estamos falando do único estilo musical hegemônico em qualquer parte do mundo. Enquanto que o Nobel busca a polêmica, o debate - ainda que necessário – mas, talvez, de uma forma exagerada.
Franco Santos Alves da Silva é doutorando em História Cultural, e estuda o Pink Floyd.
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