Modismos musicais: de Gretchen a Luan Santana
Por Paulo Faria
Fonte: Revista VITRINE
Postado em 17 de janeiro de 2013
A internet talvez seja a ultima pá de cal na disseminação cultural, artística e de informação; principalmente entre os jovens e adolescentes que passam grande parte de seus tempos plugados. Em tempos de youtube e myspace, temos assistido a um sem-número de artistas ou "artistas" que acabam virando febre juvenil e criando novas tendências entre seus seguidores. O cabelinho "capacete" de JUSTIN BIEBER e as indumentárias coloridas da banda RESTART que o digam.
A questão do modismo é um tema muito amplo, porém, é um terreno arenoso, o qual devemos caminhar com certo cuidado para não flertarmos com o preconceito. Além do mais, esse fenômeno não é novo. O que é novo é a velocidade com que as tendências se reciclam, se renovam, se transformam.
Mas como a arte, mais especificamente a música, é tratada diante desses modismos? Para tentar responder a essa pergunta, valho-me da afirmação de MARCELO HAYENA da banda UNS E OUTROS, segundo o qual "Verdadeiro artista é aquele que reconhece seu verdadeiro público (…)". Ponto.
A resposta do músico, um tanto quanto elucidativa, toca no "x" da questão. O que seria um "verdadeiro artista" e um "verdadeiro público"? Verdadeiro artista seria aquele comprometido apenas com sua arte e que reconhece dentre o público, aqueles igualmente comprometidos. Assim sendo, estabelece-se uma relação de fidelidade que muitas vezes pode ser até possessiva. Mas, contrapondo-se a isso, temos um outro tipo de comprometimento: o comprometimento massificador ou cultista que envolve o artista/público.
Pegando o último grande fenômeno pop do show business, o mato-grossense LUAN SANTANA, temos uma síntese de como funciona o mecanismo do sucesso (pelo menos nestes tempos). No caso do músico, a fórmula é apenas uma questão matemática: beleza + um bom empresário + disponibilidade em gastar com jabá + investimento em marketing + músicas de fácil assimilação + um público com pouca ou nenhuma exigência = SUCESSO.
O público, nesse caso, é paciente e está sujeito a definhar na mesma velocidade de suas espinhas, ou, no caso do artista, tão logo apareçam as primeiras rugas. O mesmo pode-se afirmar de gente do naipe de CINE e FIUK, este último com uma peculiaridade a mais: ser filho de pai famoso. Portanto, são artistas que amparados sob uma imagem pré-fabricada, têm seus prazos de validade teoricamente determinados, uma vez que seus públicos estão inseridos dentro de um nicho o qual consome a moda do verão vigente.
Para ilustrar melhor o que está sendo dito, é importante se ater a exemplos não muito distantes. No começo dos anos 2000 despontava no país um trio pop teen que causou certo frenesi e que não difere muito do que ocorre hoje com certos grupos. Com musiquinhas meladas e muita pose, o KLB arrancava suspiros histéricos das meninas que gostariam de estar a todo custo com eles, e, numa outra ponta, os meninos que queriam ser eles. Logo no terceiro disco, ninguém mais falava dos irmãos KIKO, LEANDRO e BRUNO.
Mais atrás, nos anos 90, tivemos todo aquele tsunami do axé/pagode com seus 2.348.937 grupos que seguiam sempre o mesmo roteiro: uma letra idiota, geralmente fazendo uma ode ao sexismo, e a música usada apenas como pano de fundo para a coreografia sensual (erótica?) das esbeltas dançarinas. O público também era o mesmo: marmanjões que só estavam interessados nos rebolados feitos sob medida nos programas dominicais e meninas que desejavam coreografar e ser tão esbeltas e sensuais quanto suas musas inspiradoras. Não demorou muito – para a alegria dos nossos ouvidos, mas não de nossos olhos -, 99, 9% desses grupos foram varridos para o limbo do esquecimento…
Mas o que não dá pra esquecer é de falar sobre ela, que, graças à intensa campanha midiática, foi a grande matriarca de todo o "bundismo" já comentado nas linhas acima. Considerada a "rainha" do rebolado, GRETCHEN fora um ícone dos anos 80 entre aqueles que não estavam nem aí para seu "piripipi" e sim para seu "poropompom"…
Pois bem, estes são apenas alguns exemplos de certas tendências que se renovam de tempo em tempo. Para uma obra de arte ou movimento artístico ganharem a alcunha de "clássico", deve conter os elementos necessários para tal, e, com toda certeza, não será esquecido na próxima estação. A questão primordial aqui não é discutir o gosto alheio, pois, sensibilidade para apreciar qualquer manifestação artística é algo puramente individual e não cabe discussão. Mas o fenômeno das "modas de verão" sim.
E desse fenômeno dá ainda pra tirar uma lição que talvez seja tão mais reflexiva do que discutir o modismo: a de que no Brasil, um ex-artista ou "ex-artista" em franca decadência, na melhor das hipóteses estrela em algum filme pornô. Na pior, se candidata a algum cargo político.
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