Jimmy Page: o último reduto de um mito
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 16 de julho de 2012
Recentemente li a biografia do LED segundo MICK WALL. Essa coisa toda de biografia, autorizada ou não, ainda que seja fundamental para o acréscimo aos parcos conhecimentos que temos da indústria da música e da essência de seus personagens, nos mostra a visão do autor, absolutamente parcial, sobre o processo. Entretanto, romanceada ou não, a obra é ok para os neófitos em anos 70 e escancara legal a sutileza digna de um trator sem freios típica do "way of life" da época.
Mas, mais do que isso, o livro me fez pensar fundamentalmente em uma figura, aquela que parece ser não só o catalisador e fundador da banda - mas, além de tudo, um signo representativo da insanidade do rock n´roll - e a primeira imagem que me vem na cabeça quando penso em um guitarrista. Como JIMMY PAGE se tornou essa figura icônica, essa referência futura em visual, postura e sonoridade para tudo o que veio depois?
Antes de PAGE, o rock n´roll, claro, já tinha suas alegorias: do topete de LITTLE RICHARD à guitarra que HENDRIX solava com os olhos semicerrados e metade da língua para fora – mas PAGE parecia ter mais a oferecer. Da imagem nerd completamente apagada quando cursava Artes até o "visual de heroína" dos shows de 79, PAGE encarnou o cramulhão da garrafa, o espírito desavisado, o vadio bêbado perambulando pelo palco com uma Les Paul na altura dos joelhos.
Se tivesse seguido uma carreira exclusiva como produtor, PAGE estaria em seu habitat natural. Fato incontroverso é a qualidade de discos como "Led Zeppelin IV" e "Houses of The Holy" no quesito "construção de muralhas". PAGE nunca foi o mais rápido, nem o mais técnico dos guitarristas – seguramente foi o que mais conheceu de gravação de guitarras em estúdio. O requinte de "The Battle of Evermore", o doce/amargo de "Over The Hills and Far Away", o estado neurótico de "Kashmir", a barreira de "Achilles Last Stand" jamais conseguiram a proeza de serem reproduzidas ao vivo com a mesma densidade e força de seus registros em estúdio.
Ao assistir, pela primeira vez há dez anos a compilação dos shows de Earl´s Court em 1975 pode-se notar duas coisas: se ao vivo, o LED não tinha metade da técnica que o PURPLE possuía - no quesito carisma eram imbatíveis. Nessa configuração, PAGE paira como um anjo caído, um serviçal do instrumento pronto para ceder aos próprios joelhos ao caminhar toscamente pelo palco. Em segundo, fica clara a constatação de que o admirador de ALEISTER CROWLEY era o epicentro da banda, a referência de BONHAM para improvisar, o contraponto de JONES, o contra canto de PLANT.
Se HANK MARVIN foi uma de suas influências, SLASH e JOE PERRY jamais teriam aparecido - não nesse formato! - se não fosse ele. O casaco de dragão com as costelas magras a mostra, a cabeleira escondendo o rosto, o solo despojado e a guitarra "egoísta". PAGE foi além de todo o misticismo ligado a seu nome, às acusações de bruxaria, à crítica dura e ácida sobre seus trabalhos em estúdio, ao excesso. Foi o último reduto de um mito.
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