Thrash Metal: a estagnação criativa do gênero

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Por Ricardo Seelig, Fonte: Collector´s Room
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Poucos gêneros da música pesada são tão ligados aos anos 1980 como o thrash metal. Foi naquela década que o estilo surgiu e se popularizou, principalmente através da cena da Bay Area de San Francisco, na Califórnia, de onde vieram bandas como Metallica, Slayer, Megadeth, Exodus, Testament e tantas outras que fizeram história. Porém, nos últimos anos, o estilo parece estar estagnado criativamente, com uma grande maioria de grupos alimentando o revival do gênero com trabalhos que, na sua maioria, apenas reciclam ideias surgidas há um quarto de século atrás. É esse o futuro do thrash metal? E de quem é a culpa por tudo isso? Das bandas, dos fãs, da imprensa especializada? Do cenário como um todo?

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Quando nasceu, na primeira metade da década de oitenta, o thrash aproximou o heavy metal de seus fãs. Vestindo calças jeans e camisetas de bandas, os nomes do gênero se transformaram em porta-vozes dos headbangers, indo na contramão e surgindo como opção para uma considerável parcela do público que não digeria muito bem os excessos tão presentes no metal, de maneira geral. Aliada a essa estética, a música era muito mais pesada e agressiva do que o metal havia sido até então, e trazia elementos punk não apenas no aspecto musical, mas, principalmente, na filosofia "do it yourself". Foi o thrash metal que alimentou e gerou a cultura da troca de fitas durante os anos 1980, revelando, na base do boca a boca, centenas de bandas em todo o planeta. Resumindo: o thrash devolveu o metal para o povo, para o seu público. Ele era a música das ruas, verdadeiro, autêntico e cheio de vida.

A segunda metade da década viu nascer os principais clássicos do estilo, discos que até hoje ditam as regras no gênero. Exemplos não faltam: os três primeiros do Metallica, "Reign in Blood" do Slayer, "Beneath the Remains" do Sepultura, "Peace Sells" do Megadeth, "Bonded by Blood" do Exodus, "The Legacy" do Testament, "Among the Living" do Anthrax - a lista é enorme. Porém, com o desenvolvimento de suas carreiras, os principais nomes do estilo foram se afastando das raízes do thrash e trilhando caminhos distintos. O Metallica simplificou o seu som e se transformou em uma das maiores bandas da história do rock com o "Black Album". O Slayer intensificou a agressividade e a violência de sua música e virou a principal bandeira do gênero. O Anthrax acentuou a presença de rap e outros estilos em suas composições. O Sepultura inovou até dizer chega e mostrou que era possível fazer tudo diferente, mas implodiu e nunca mais foi o mesmo.

Após um período onde o thrash metal se viu meio sem direção durante a década de 90, principalmente devido ao surgimento do grunge e à revolução que as bandas vindas de Seattle fizeram na música pesada, nos anos 2000 assistimos um revival do gênero. Tendo o Metallica à frente - sempre eles -, que identificou uma tendência do público e primeiro investiu pesado em turnês focadas em clássicos para depois lançar o álbum "Death Magnetic" explorando um som mais retrô em 2008, o thrash ressurgiu para a grande massa através de de diversos outros discos que mostraram os músicos voltando os seus esforços criativos para o passado. O Slayer lançou "Christ Illusion" e "World Painted Blood". O Megadeth gravou "United Abominations" e "Endgame". O Anthrax voltou à ordem do dia em 2011 com "Worship Music". O ápice disso tudo foi a turnê Big Four, que uniu as quatro principais bandas do gênero em shows antológicos ao redor do planeta.

Mas não existe outro caminho para o thrash metal que não seja o saudosismo puro e simples? Não é possível executar um thrash moderno e atual? Claro que é. As principais bandas que demonstraram isso foram o Sepultura, com os fenomenais "Chaos A.D." e "Roots", e o saudoso Pantera, com "Cowboys From Hell" e "Vulgar Display of Power". Apostando em riffs mais diretos e em muito groove, esses dois grupos levaram o gênero para outro caminho, influenciando milhares de bandas. Entretanto, os problemas internos acabaram os desestabilizando e levaram ambos à separação.

Durante os anos 2000, nomes como Nevermore, Lamb of God, Trivium e Machine Head lançaram discos que brindaram o público com uma nova maneira de se tocar thrash metal. Álbuns modernos, corajosos e repletos de inovação, que mostraram existir outro caminho além do saudosismo puro e simples. Porém, os fãs nunca aceitaram muito bem a inserção de novos elementos na sonoridade clássica do estilo, e essas bandas até hoje são vistas com desconfiança e preconceito por uma parcela do público - o mesmo que, passados mais de 15 anos, ainda não assimilou a experimentação e a ousadia de um trabalho como "Roots", por exemplo.

Porque isso acontece? O thrash só é viável, comercialmente falando, se tiver uma sonoridade totalmente oitentista? E mais: porque essa sonoridade oitentista é vista de forma tão imaculada pelo público, como se fosse um sacrilégio partir dela e chegar a outros pontos muito mais alinhados com a realidade atual?

É difícil apontar um culpado para essa situação. Ao mesmo tempo que grande parte das bandas do estilo fica acomodada na zona de conforto do chamado “thrash clássico”, alguns grupos se aventuram e experimentam. É o caso do Vektor, responsável por um dos melhores trabalhos da história do gênero, o fenomenal "Outer Isolation", de 2011. E outras bandas também, como Evile, Stam1na, Artillery e Soulfly - além dos já citados Nevermore, Lamb of God, Trivium e Machine Head -, que tem lançado discos excelentes e desafiadores nos últimos anos, que apresentam novas propostas sonoras para o thrash. Ao mesmo tempo, uma outra parcela de bandas aproximou o gênero do death e do black metal, alcançando resultados muito interessantes. É o caso de grupos como Witchery, Deceased, Ravencult e Destroyer 666 - só para ficar em alguns -, que acentuaram ainda mais a agressividade do gênero e o estão renovando com uma dose extra de violência.

Mas, apesar disso tudo, o thrash metal ainda é percebido, pelo grande público, como um estilo focado no passado. Os fãs, de maneira geral, dão mais atenção e preferem as bandas que executam um som calcado no passado. Porque isso? Porque se fechar ao novo? Não me digam que não existe qualidade na música atual, porque ele é excelente. E, é claro, cada um tem as suas percepções pessoais e gostos próprios, porém essa preferência pelo antigo pode gerar dois fatores: a falta de mercado para as bandas mais ousadas, desencorajando a inovação e a ousadia criativa e, em um segundo momento, a estagnação do próprio estilo, que pode se esgotar por escolher ficar apenas dando voltas ao redor do próprio rabo. Hoje já existe um mercado muito forte totalmente dedicado ao thrash retrô, onde bandas como Toxic Holocaust, Municipal Waste, Skeletonwitch e Violator são os principais nomes. Mas o que esses grupos oferecem para o gênero além da visão saudosista pura e simples? Eles estão levando o thrash para algum lugar, para um caminho novo, ou estão apenas ocupando o espaço de outros ícones e se preparando para apagar a luz quando o estilo não tiver mais para onde ir?

A solução para essa situação está, ao meu ver, em duas possibilidades que precisam andar juntas. Uma é o crescimento de mercado para grupos que estão ousando e experimentando, e que já possuem uma sólida base de fãs. Nesse quadro estão o Machine Head, o Trivium, o Lamb of God e outros. E a outra possibilidade é que, como em qualquer estilo musical, os pioneiros sempre parecem ter o comando da realidade, as rédeas da situação. Se o Metallica, o Slayer, o Overkill, o Kreator, apostarem em uma direção e levarem a sua música para um caminho diferente e distante do saudosismo puro e simples, a maioria das outras bandas irá atrás. O Testament, ao lado do Exodus, tem alcançado ótimos resultados nos últimos anos, porém, para que essa mudança de curso seja realmente efetiva, é preciso que um nome do porte do Metallica ou do Slayer assuma o controle e decida que é preciso mudar a ordem do jogo.

Está tudo muito bom, as principais bandas estão ganhando dinheiro, os fãs estão satisfeitos. Mas até quando? A música, como qualquer forma de arte, se alimenta da criatividade, da ousadia, de novas ideias. Sem esses fatores, qualquer expressão artística abrevia o seu ciclo de vida. O thrash metal é um estilo apaixonante, mas precisa se renovar com urgência. Se isso não acontecer, ficará cada vez mais restrito a um público específico e cada vez menor. E, antes que você diga que tem que ser assim mesmo. “quem gosta de thrash curte até morrer”, lembre-se de uma coisa: pensar assim não é ser true, mas sim decretar o fim do estilo.

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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