"Nunca fomos tão felizes como agora", diz Lars Ulrich, baterista do Metallica
Por Rubens Lessa
Fonte: Blabbermouth
Postado em 05 de janeiro de 2007
Mike Portnoy, baterista do DREAM THEATER, entrevistou, por telefone, o baterista Lars Ulrich, do METALLICA (entrevista realizada em 08/11/2006) para a edição de janeiro de 2007 da revista (capa ao lado), na qual Portnoy participa como editor convidado. Alguns trechos da conversa seguem abaixo:
Mike Portnoy: Como estão os trabalhos quanto ao novo disco?
Lars Ulrich: "Até aqui foi um ano divertido (2006). Não há equipes de filmagens, nem psiquiatras, nem produtores. Apenas nós quatro (Lars, Rob, James e Kirk) nos sentamos, escrevemos, tocamos, suamos e nos divertimos. O (produtor) Rick Rubin (Nota: renomado produtor que já trabalhou, dentre outros, com SLAYER, BEASTIE BOYS, SYSTEM OF A DOWN, e alguns artistas pop) aparece vez ou outra, ouvindo e dando algumas sugestões. Nós carregamos esse sistema ProTools por aí e fizemos jams na sala de ensaios todo dia antes do show, logo registramos todas as idéias. Temos por volta de 25 novas canções e Rick estará vindo depois de amanhã (Nota: no caso, seria no dia 10/11/2006). Basicamente, lhe dissemos que já terminamos de compor. Agora é tempo de escolher algumas delas e gravá-las".

Mike Portnoy: Como é trabalhar com um novo produtor após 15 anos (até então, Bob Rock havia sido responsável por toda a produção do METALLICA, desde o ‘Black Album’, de 1991)?
Lars Ulrich: "É uma energia completamente diferente, uma vibração toda nova, após cinco discos (Nota: ‘Black Album‘, de 1991; "Load’, de 1996 e ‘Reload, de 1997; ‘Garage Inc.‘, de 1998 e ‘St. Anger’, de 2003) e 15 anos incríveis com Bob (Rock). O cara é e sempre será um membro da família METALLICA, mas nós tivemos que tentar algo diferente. Rick vê a coisa de forma mais ampla. Ele não é tão chegado a vocais dobrados ou em adicionar mais quatro canais. Ele é mais do tipo: 'Desliguem o ProTools, vão tocar e façam os arranjos sozinhos.' Até aqui, ele nos tem forçado a trabalhar e a suar um pouquinho mais".

Mike Portnoy: Então, todo esse tempo foi para o processo de composição. Vocês ainda não gravaram nenhuma parte de bateria ainda?
Lars Ulrich: "Fizemos aproximadamente 30 a 40 horas de material bruto, de riffs, idéias e jams, e juramos para nós mesmos que utilizaríamos um pouco de tudo isso. Temos 25 canções até agora, então vamos começar a arrumar isso, mas você tem que lembrar que fizemos o (show, evento) do Rock and Roll Hall of Fame, aí fomos para a África do Sul por três semanas, daí fomos para a Europa por seis semanas, então, Rob (Trujillo, baixista) teve um filho e ficamos algumas semanas parados".
Mike Portnoy: Isso é ser old-school. O LED ZEPPELIN gravava um pouco, fazia uma turnê, depois voltavam.
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Mike Portnoy: Estamos no mesmo barco, porque ficamos trancados em estúdio (Nota: no caso, o DREAM THEATER) por alguns meses e ainda há trabalho até o início do ano que vem (2007). Damos algumas paradas – eu e o guitarrista (do DREAM THEATER, John Petrucci) excursionamos com o G3 (Nota: projeto dos guitarristas JOE SATRIANI e STEVE VAI, sempre com outro guitarrista convidado, já passando pelo G3 nomes como Robert Fripp, do KING CRIMSON, YNGWIE MAMLSTEEN, dentre outros), e faremos mais alguns shows na Austrália no próximo mês (Nota: em dezembro/2006), então ficamos nessa de ir e vir e trabalhar ao redor de nossas vidas.

Lars Ulrich: "Exatamente, eu não tenho mais resistência para ficar nove meses dentro de um estúdio e depois 18 meses na estrada - esse tipo de coisa te leva até o seu limite".
Mike Portnoy: Eu adorei a direção tomada em seu último disco ("St. Anger", de 2003) com as canções cumpridas, mais pesadas e com os arranjos não-ortodoxos. Me lembrou muito o antigo material (do METALLICA). O novo trabalho será uma continuidade disso?
Lars Ulrich: "Quando olho para o 'St. Anger' o encaro como um experimento, uma reação aos 20 anos em que agimos de uma mesma forma, e foi algo como, 'ok, vamos sentar, os quatro, e mostrarmos algumas idéias do momento e gravá-las'. Penso que houve uma grande energia lá. O que há por trás disso é que acabamos usando ProTools pra caramba. As novas canções são definitivamente um pouco maiores e mais intrincadas. É mais orgânico, todos tocando juntos, Kirk está fazendo solos novamente, não são tantos 'gravar oito pistas e depois colocá-las no computador'. A caixa está de volta à bateria. Me lembrei daquele tempo! Nos anos 90 ficávamos assustados com nosso material que parecia ficar tão estéril e perdendo a pegada ao vivo. Queíamos ver se conseguiríamos achá-la com o 'St. Anger'. Assim, nós gravamos todos esses momentos, mas aí acabamos por colocá-los dentro do computador, então resultou em algo artificial. Agora definitivamente iremos gravar mais como estávamos acostumados. Então vamos ver no que vai dar."

Mike Portnoy: Como era seu relacionamento com Cliff (Burton, ex-baixista, morto por acidente de carro em 1986), Jason (Newsted, ex-baixista, que saiu da banda em 2000) e Rob (Trujillo, atual baixista)? Quais são as diferenças entre eles como baixistas em termos de relacionamento musical com você?
Lars Ulrich: "Cliff foi único. James (Hetfield, guitarra, voz), Kirk e eu sempre sentimos que Cliff estava muito adiante do que o resto de nós. Ele estudara música clássica, tinha muito mais talento que a gente, e era alguém com o qual mantínhamos um relacionamento incrível".
Mike Portnoy: Eu acho que quando alguém morre muito cedo (Nota: Cliff morreu aos 23 anos de idade), você imagina como seria – como seria se JIMI HENDRIX ainda estivesse vivo? O que Randy Rhoads (guitarrista do OZZY OSBOURNE que morreu em acidente aéreo em 1981. Também tocou no QUIET RIOT) estaria fazendo, assim como Cliff.

Lars Ulrich: Exatamente, ele era tão ligado ao seu próprio mundo. Jason era demais, era incrivelmente motivado, atento, às vezes sentíamos que ele era atento demais. Ele era sempre o cara que dizia, 'vamos lá, andemos'. Ele era mais não-tradicional, era mais ligado a guitarras do que à bateria. havia momentos em 'Enter Sandman' e em algumas das músicas com mais groove no 'Load' (1996) e 'Reload' (1997), como 'Ronnie' (do 'Load') em que a bateria e o baixo estão realmente coesos, mas era algo que Bob (Rock) nos forçou a fazer. Rob é muito detalhista. Ele tende a dar mais preferência à bateria do que para a guitarra do James, e penso que isso que estamos fazendo agora - Rob e eu - é mais empolgante e quando as pessoas ouvirem, vão se amarrar. Ele está sempre acompanhando a bateria, preso a isso. Ao vivo, ele apenas mantém tudo junto. Rob é perfeito. Não penso que o METALLICA tinha ficado tão feliz ou avançado melhor, e não diminui o crédito do que Cliff e Jason trouxeram, mas há uma serenidade na banda (agora) sem soar fora de moda. Todo mundo está evoluindo e se divertindo. Parece tudo balanceado".
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