Jon Lord: música clássica e rock na Av. São João

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Por Vitor Bemvindo, Fonte: MOFODEU
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O MOFODEU é um programa assumidamente amador. Não temos objetivos comerciais e não ganhamos nada por fazer o nosso podcast. Toda nossa dedicação é por amor à música, em especial, o Rock and Roll. Por isso, não espere de nós atitudes imparciais ou "jornalísticas". Somos fãs de Rock trazendo informação para outros fãs de Rock.

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E foi esse espírito que nos moveu mais de 400 km do Rio de Janeiro para São Paulo para cobrir a Virada Cultural. Tudo feito de maneira amadora: nada de avião, hotel 5 estrelas ou qualquer tipo de postura profissional. Pegamos o carro e nos jogamos Dutra acima com o objetivo de curtir os shows e, de quebra, trazer informações para os nossos ouvintes. Tudo pago do nosso bolso, sem ajuda de nenhum meio de comunicação.

A Virada Cultura é um evento organizado em parceria entre os governos da cidade e do estado de São Paulo que tem o objetivo de popularizar as manifestações culturais. Durante mais de 24 horas, a maior cidade do país esteve envolvida em um sem-número de eventos culturais que incluíram entrada franca em museus, peças de teatro, filmes e muitos shows em diversos palcos espalhados pela capital paulista, tudo de graça.

No sábado, antes da abertura oficial do evento, aproveitamos para conhecer alguns museus como o da Língua Portuguesa (na Estação da Luz) e o do Futebol (no Estádio do Pacaembu), este último imperdível para quem curte o velho esporte bretão balípodo.

Mas estávamos lá para assistir o show de abertura da Virada: a apresentação de JON LORD, o lendário organista/tecladista do DEEP PURPLE, que apresentaria, junto com a Orquestra Municipal de São Paulo - regida por Rodrigo de Carvalho - e banda, o Concerto para Grupo e Orquestra.

Tal concerto, composto pelo próprio Lord, em 1969, foi executado originalmente pelo Deep Purple e a Royal Philharmonic Orchestra - conduzida pelo maestro Malcom Arnold - no mitológico Royal Albert Hall. O resultado, segundo a opinião do próprio compositor, ficou muito longe do esperado e, em 1999, o Deep Purple voltou ao Albert Hall - desta vez sem seu guitarrista original, Ritchie Blackmore, substituído anos antes pelo não menos talentoso Steve Morse - para executar novamente o Concerto, desta vez acompanhado da London Symphony Orchestra, regida por Paul Mann.

O resultado da versão de 1999 do Concerto para Grupo e Orquestra agradou tanto a Jon Lord que, além do lançamento do CD e DVD "Live at Royal Albert Hall", o Deep Purple saiu em turnê, no ano seguinte, para divulgar o novo álbum e celebrar os 30 anos do Concerto. A turnê contou com a participação de Ronnie James Dio (ELF, RAINBOW, BLACK SABBATH, DIO) e rodou o mundo sempre unindo o Deep Purple a uma orquestra local, inclusive no Brasil.

Pois bem, 10 anos depois, o Concerto celebra o seu 40º aniversário, e Jon Lord não poderia deixar a data passar em branco. Apesar de ter deixado o Deep Purple, em 2002, resolveu voltar a apresentar sua obra-prima. Esse ano ele já havia executado o Concerto, em duas apresentações com a Slovak Radio Symphony Orchestra em Bratislava, na Eslováquia, com a mesma banda que trouxe a São Paulo.

O show começou por volta das 18:25, quando Jon Lord subiu ao palco principal da Virada Cultura, na Avenida São João, e se dirigiu à platéia pedindo perdão por não falar português, mas dizendo que iria se juntar àqueles músicos para fazer música do fundo do coração. A simpatia de Lord com o público para mim não era novidade já que, minutos antes da apresentação, tinha tido a oportunidade de encontrá-lo nos bastidores, quando ele me recebeu com muita boa vontade. Nesse momento, mais uma vez o lado amador prevaleceu: diante de um mito da história do Rock, foi impossível ser profissional. As únicas coisas que consegui fazer foram tremer de nervosismo e pedir um autógrafo. Lord brincou com o meu nervosismo de fã, e tirou uma foto pedindo um sorriso. Só consegui pensar uma coisa: "Profissionalismo uma ova! O que eu faço com o MOFODEU é uma ode a personagens como esse cara!". Deixo as entrevistas e o bom senso para os profissionais, eu serei um eterno amador.

O Concerto começou com o seu Primeiro Movimento, chamado originalmente de "Moderato-Allegro". Nele a Orquestra Municipal mostrou incrível competência, executando com muita fidelidade a peça. Senti uma incrível semelhança com a versão de 1999 do Concerto, com diferenças evidentes na parte do grupo, no qual se pôde notar algumas improvisações de Lord com o seu simbólico órgão Hammond e na parte da guitarra com algumas pequenas alterações.

A banda que acompanhou Lord era formada por Chester Kamen (guitarra), Guy Pratt (baixo) e Steve White (bateria). Apesar de não comprometer, é impossível não notar um abismo de diferença entre esses músicos e os do Deep Purple, responsáveis pelo Concerto original. No Primeiro Movimento, por exemplo, Kamen se arriscou pouco fazendo o famoso feijão-com-arroz. Talvez eu fizesse o mesmo, se tivesse o peso de nome como os de Blackmore e Morse sob minhas costas.

No Segundo Movimento, a diferença entre as duas bandas ficou mais evidente. Em "Andante", a peça mais sentimental do Concerto, a Orquestra esteve, uma vez mais, irrepreensível, tocando com fidelidade impressionante. A parte do grupo foi sustentada pelo mestre Lord que improvisou de maneira impressionante. Mas para ouvidos mais atentos houve uma grande diferença no que se refere à bateria. Enquanto nas outras versões (em especial na de 1999), o incrível Ian Paice deu uma levada meio jazzística à parte do grupo, com muitas quebradas e viradas, o baterista atual da banda de Lord, Steve White, foi incrivelmente burocrático e tocou com se estivesse em uma banda marcial.

Mas a atuação de White não comprometeu o Movimento, principalmente por conta das atuações dos cantores trazidos por Lord: Steve Balsamo e Kasia Laska. Balsamo tem acompanhado Lord em suas apresentações na Europa e ficou conhecido pelo seu desempenho recente em uma nova versão da ópera "Jesus Christ Superstar". A atuação do cantor não deixou nada a desejar se comparada a de Ian Gillan nas duas versões do Concerto, especialmente nesse Movimento, quando ele ainda teve a ajuda da ótima cantora Kasia Laska que fez um ótimo backing vocal. Me arrisco a dizer que os dois foram até melhores que o mestre Gillan, mas também a concorrência é desleal: 2 contra 1.

O Terceiro Movimento, "Vivace-Presto", foi o mais modificado na versão executada na Avenida São João. Repleto de improvisações, o Movimento contou com um frenético solo de Hammond lá pelo quarto minuto de execução. Além do desempenho fantástico do mestre Lord, Kamen fez um solo honesto e White se recuperou fazendo um competente solo de bateria.

O Concerto se encerrou com aplausos calorosos do público (que compareceu em grande número). Em alguns momentos da peça, problemas de áudio foram apresentados, principalmente nos PA's que levavam o som para a platéia. Como fiquei muito próximo ao palco não senti tanto os problemas, mas parte da equipe do MOFODEU que esteve junto ao "povão" sentiu a frustração de parte da platéia.

Outro problema foi o comportamento do público, e não vai aqui nenhum comentário preconceituoso. Mas é fato que o público brasileiro não está acostumado a apreciar um Concerto com Orquestra, no qual o silêncio é fundamental para que se possa ouvir todas as nuances dos vários instrumentos. Mas isso é bastante compreensível se entendermos que o acesso a esse tipo de espetáculo no Brasil, para o grande público, é quase inexistente.

O que é incompreensível é o comportamento dos ditos "profissionais" de imprensa, que deveriam ter o mínimo de respeito ao espetáculo. Na área destinada aos "jornalistas", não houve silêncio em nenhum momento da apresentação. Muitos conversaram o tempo todo e falavam em altos brados em seus telefones celulares. Esse comportamento é ainda mais inexplicável por vir de pessoas que, teoricamente, têm preparo para entender o evento. Por estarem muito próximo ao palco, o mínimo que se esperava daqueles ditos profissionais era respeito aos verdadeiros profissionais que estavam no palco.

Apesar desses problemas o show seguiu e Jon Lord deixou o seu órgão Hammond e assumiu o piano para tocar canção "Wait a While", composta por ele e pela cantora Sam Brown para o disco solo do organista, chamado "Pictured Within", de 1999. A mesma canção havia sido executada com orquestra na apresentação de 1999 no Royal Albert Hall, e durante a turnê dos 40 anos do Concerto, com vocais da própria Brown. Em São Paulo, os vocais ficaram por conta de Kasia Laska que demonstrou muita sensibilidade e talento em sua interpretação que, na minha opinião, superou as versões originais. Além da bela voz, Laska imprimiu muita emoção à triste canção e foi muito amigável com o público.

Em seguida, veio um grande clássico do Deep Purple, "Pictures of Home", do álbum "Machine Head", de 1972. O arranjo para orquestra foi idêntico ao executado em 1999, com uma bela e calma introdução irrompida pelo peso da bateria e dos riffs entoados pela guitarra e pelo Hammond de Lord. Se é que pode haver crítica a peça, mais uma vez Steve White escorregou na entrada de bateria, que certamente deixaria o seu mentor, Ian Paice, decepcionado. Porém, a interpretação de Balsamo nos vocais deu a canção um vigor vindo direto do túnel do tempo. O cantor deu agudos que lembraram os áureos tempos do mestre Gillan. Mesmo sem ter muita familiaridade com a música, Balsamo, mais uma vez surpreendeu o público presente.

A surpresa da noite ficou por conta da execução de "Soldier of Fortune", composição de Ritchie Blackmore e David Coverdale para o disco Stormbringer, de 1974, do Deep Purple. A canção não costumava ser executada ao vivo com freqüência nem na época de seu lançamento, nem durante toda a carreira do Purple. Quem costuma tocá-la é Coverdale, em suas apresentações com o Whitesnake. Mas o próprio Lord não devia tocá-la há muitos anos. Isso ficou um pouco evidente no desentrosamento dos cantores com o organista e a orquestra de show. Pareceu que aquilo veio de um improviso de ensaio de véspera. Mas foi uma surpresa agradabilíssima pois trata-se uma bela balada e emocionou todos os presentes que tem algum apresso pelo Deep Purple. Uma oportunidade única de ouvi-la com um membro original da banda.

O gran finale ficou por conta de "Child in Time", do disco "Deep Purple in Rock", de 1969. O arranjo orquestrado deu um toque emocional ainda maior para a canção, que foi tocada um com um delicadeza bem distante da agressividade dos gritos rasgados originais de Gillan. Apesar dessa diferença fundamental, a canção não perdeu em nada. As interpretações diferentes longe de serem conflitantes, são uma forma de mostrar a versatilidade dos grandes músicos. Mais uma vez Laska e Balsamo se destacaram e o mestre Lord mostrou porque é um dos maiores nomes da história do Rock and Roll com um solo enérgico e impressionante.

Por fim, uma apresentação digna da história de um dos sustentáculos da tríade sagrada do Rock dos anos 70. Todo o talento e versatilidade de Jon Lord ficaram evidentes naqueles pouco mais de 80 minutos em que privilegiados puderam ouvir de perto um dos sons mais característicos da história do Rock: o som do órgão Hammond de Lord.

Ficou evidente ali o quanto a simbiose entre um grande músico e um instrumento musical único pode fazer uma revolução musical. Rock? Clássico? Não importa! O que Jon Lord sabe fazer como poucos é música de alta qualidade carregada não só de técnica e talento, mas essencialmente de emoção, que não sai dos dedos, mas sim do coração, assim como o próprio anunciou assim que pisou no palco.

Parabéns aos paulistanos pelo ótimo evento e, espero que outras cidades possam seguir o exemplo e promover a cultura de fácil acesso.

Clique aqui para ver fotos da apresentação.




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Sobre Vitor Bemvindo

Historiador de formação, tem verdadeira adoração pelo Rock and Roll desde sua infância. Seu instinto de pesquisador fez com que "se especializasse" em bandas velhas, especificamente as das décadas de 1960 e 1970. Produz e apresenta o MOFODEU (www.mofodeu.com), o Programa que tira o MOFO do ROCK, juntamente com seu parceiro Luiz Felipe Freitas (a Enciclopédia do Rock). O Programa está no ar desde 2007, tocando só bandas sessentista e setentistas sempre com muita informação e bom humor.

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