Jornalismo musical: um papo com Bento Araújo
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collectors Room
Postado em 24 de junho de 2019
Quando o assunto é o jornalismo musical, Bento Araújo é uma das maiores referências. Por mais de dez anos o Bento esteve à frente da Poeira Zine, uma das melhores revistas sobre música já produzidas aqui no Brasil. Esse trabalho influenciou toda uma geração de leitores que sonhavam em escrever sobre rock, blues, jazz e afins. É claro que eu também fui muito impactado pela forma e o estilo de escrita do Bento, e tive a alegria de colaborar com a Poeira por um longo período.
Dando um passo além em sua carreira, Bento mergulhou no projeto de escrever um livro sobre a psicodelia brasileira, objetivo esse que acabou gerando duas obras obrigatórias: Lindo Sonho Delirante 1 e 2.
É por esses e por inúmeros outros motivos que uma série que fala sobre o jornalismo musical feito aqui no Brasil não estaria completa sem um bate-papo com o Bento. Conversa essa que você lerá a seguir.
Pra começar, fale um pouco sobre a sua trajetória profissional. Onde começou, em quais lugares já trabalhou e onde podemos encontrar os seus textos hoje em dia.
Eu comecei escrevendo basicamente no meu fanzine, a Poeira Zine. Aí comecei a receber convites para escrever em revistas como Bizz, Rolling Stone, Rock Brigade, Roadie Crew e em jornais como Estadão e Folha de São Paulo. Meus textos mais recentes estão nos dois volumes do meu livro, o Lindo Sonho Delirante.
Quando você começou a escrever sobre música?
Na adolescência, por volta de 1990, no fundo da classe, no meio da aula de química. Eu achava um saco ir para a escola, então eu ficava bolando resenhas imaginárias para os discos que eu gostava. Profissionalmente eu comecei em 2003.
O que o motivou a escrever sobre música?
O fato de poder viver de música, além do ofício de músico. Quando percebi que a minha banda não iria dar certo, eu parti para o jornalismo. Queria estar perto dos ídolos, viajar pelo mundo cobrindo shows e festivais, ganhar discos para resenhar, fazer entrevistas com as bandas que curtia, etc. Eu queria que a música me levasse a lugares inusitados, me levasse a vivenciar situações que não seriam possíveis de outra forma.
Sobre quais gêneros musicais você escreve?
Sobre qualquer um que estiver envolvido no momento.
Quais foram as suas principais influências no jornalismo musical?
No Brasil: Luiz Carlos Maciel, Torquato Neto, Julio Barroso, Ezequiel Neves, Joel Macedo, Kid Vinil, Leopoldo Rey, Gastão Moreira, Fabio Massari e Berrah de Alencar. No exterior: Barry Miles, Greg Shaw, Nick Kent, Julian Cope, Patrick Lundborg, Lester Bangs, Geoff Barton, Paul Williams, Max Stefani, David Cavanagh e Daniel Ripoll.
O que você mais gosta de produzir dentro do jornalismo musical?
Biografias, entrevistas e coberturas de shows/eventos. Curto também uma arqueologia musical, investigando o que não parece possível investigar. Gosto também de salpicar algo de filosofia, sociologia e antropologia nos textos.
Na hora de analisar um disco, quais aspectos da obra você costuma avaliar e dar mais peso para chegar a uma conclusão sobre o álbum?
A qualidade das composições e a relevância no momento do lançamento.
Como é o seu método de escrita? Como é a sua rotina na hora de analisar um disco ou produzir uma matéria? Sai tudo de uma vez ou esse processo leva alguns dias?
Depende. Como na época da pZ as matérias eram bem extensas, geralmente demorava bastante tempo. Mesmo quando preciso entregar algo com alguma rapidez, tento me preparar para o texto pesquisando no mundo real, fugindo do virtual e da internet. Entrevistando alguém, conversando com os amigos, lendo um livro ou assistindo um filme ou show.
Quais veículos sobre música você indica não apenas pra quem quer se informar sobre o assunto, mas também para quem deseja encontrar matérias de qualidade e que podem ser úteis para iniciar no jornalismo rocker?
Sugiro as revistas britânicas: Uncut, Mojo, Record Collector, Electronic Sound, Shindig!, etc.
Em uma época onde as opiniões são instantâneas, a crítica musical ainda importa e segue sendo relevante?
Creio que sim, mas desde que seja isenta e realizada com propriedade. No Brasil, infelizmente, o "jabá" e os interesses comerciais ainda vem norteando boa parte da crítica musical. Eu deixei de escrever para uma grande publicação de música porque alteraram a minha cotação na maior cara de pau, sem sequer me avisar. Só tomei conhecimento depois, com o artigo publicado. Fiquei furioso e cortei relações imediatamente com essa publicação.
O quanto o hábito da leitura é importante na construção de um estilo própria, de uma voz, dentro da crítica musical?
Acho que, nesse caso, o hábito da leitura é tão importante quanto o hábito da audição. Não adianta querer realizar uma resenha convincente escutando um álbum, ou uma música, apenas de "raspão", na correria do mundo atual. É necessário vivenciar um pouco daquilo que está se escrevendo. É também necessário ir derrubando os preconceitos.
O quanto consumir não apenas outros estilos musicais, mas também outras formas de arte, é importante para o trabalho de um jornalista de música?
É fundamental, essa "arejada" influencia, e muito, o resultado final.
O que é ser um crítico de música hoje em dia?
Difícil dizer, pois nunca me considerei um crítico de música. Me considero um apaixonado, um fã de música acima de qualquer outra coisa. Meu lance é divulgar e compartilhar música, não criticá-la.
Jornalismo musical
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