Neil Peart: "Deus" voltou pro céu...
Por Doctor Robert
Postado em 12 de janeiro de 2020
"Suddenly, you were gone
From all the lives you left your mark upon"
Antes de começar o texto em homenagem a um de meus maiores heróis na história da música, uma breve explicação para o título, para evitar qualquer mal entendido: trata-se de uma brincadeira pessoal, sempre comentava desde adolescente que se um dia Deus viesse à Terra e montasse uma banda de rock, ela seria o Rush e Ele seria Neil Peart.
E através desta breve explicação você leitor já deve perceber o quanto esse cara significava para quem está lhe escrevendo agora: longe de ser apenas mais um baterista, a perfeição e complexidade dos arranjos percussivos do Professor (como foi chamado diversas vezes por Geddy Lee), aliado ao seu perfil culto e sua vida pessoal e personalidade reservada criaram esta aura de um ser fora do comum habitando entre nós - embora ele mesmo sempre fosse humilde o bastante para jamais se deixar levar para os caminhos sem volta do ego inflado.
A humildade era tanta que o cara que já era considerado perfeito (quem nunca ouviu a história de que ele conseguia segurar uma moeda na parede batendo com as baquetas nela?) achou que precisava de aulas e podia melhorar quando a banda retornou no começo deste século, após superar as tragédias pessoais inenarráveis de perder a filha e a esposa em um curto espaço de tempo:
- "O que é um mestre senão um estudante? É preciso aprimorar e explorar as possibilidades em sua profissão. Estou nessa posição e certamente não a subestimo. Consegui ser um baterista profissional. Consequentemente, há a responsabilidade de me dedicar a isso o tempo todo, mesmo quando não estou em turnê. Preciso me manter em forma. É uma alegria e sou grato por isso"
Apelidade de "novato" pelos colegas de banda por ter entrado quando o trio formado pelos amigos de infância Geddy Lee e Alex Lifeson já existia, Neil Ellwood Peart era o famoso ponto fora da curva: mal sabiam eles, mas o baterista mudou os rumos do Rush. Não apenas tocando, mas também escrevendo. E escrevendo letras maravilhosas, que versavam sobre o que você imaginar: ficção científica, carros, personagens literários, história, filosofia, a fama, o tempo... Era apaixonado por livros e sua inspiração parecia sem fim, não apenas para elaborar arranjos inimitáveis nas baquetas, mas também para escrever o que o amigo Lee cantaria. Alguns exemplos:
"Ao crescer, vemos que tudo é parcial
As opiniões, todas prontas
O futuro, pré-decidido
Avulso e subdividido
Na zona de produção em massa
Não há lugar para o sonhador
Ou para o deslocado, tão solitário"
("Subdivisions", 1982, do álbum "Signals")
"Rápidos para julgar
Rápidos para se irritar
Lentos para entender
Ignorância e preconceito e medo
Caminham de mãos dadas"
("Witch Hunt", 1981, do álbum "Moving Pictures")
"Se você escolher não se decidir
Você também fez uma escolha"
("Freewill", 1980, do álbum "Permanent Waves")
"Não, sua mente não está para alugar
Para nenhum deus ou governo
Sempre esperançoso, embora descontente
Ele sabe que as mudanças não são permanentes
Mas a mudança sim"
("Tom Sawyer", 1981, do álbum "Moving Pictures")
Introspectivo, tinha tiradas geniais sobre o assédio dos fãs: costumava dizer para quem quisesse ouvir que se sentia desconfortável tocando em casa (Toronto, no Canadá), pois sempre surgiam do nada os famosos aproveitadores se dizendo "amigos de velha data" querendo favores como ingresso ou acesso ao backstage. Falava também que não sabia lidar com fãs, afinal eram pessoas que não conhecia e não achava certo alguém vir tirar sua liberdade num jantar em um restaurante para tirar uma foto junto a ele - para quem não sabe, "Limelight", uma das mais famosas canções do Rush, fala justamente sobre essa aversão ao mundo midiático da fama.
Tive o imenso prazer de ver o Rush ao vivo nas duas vezes em que visitaram nosso país. E inúmeras vezes de ver e rever minha coleção de shows e ouvir nos álbunsas maravilhas que o trio mais perfeito da história do rock gravou. Assim, mesmo que o reservado Neil pudesse achar estranho, ele fez sim parte do cotidiano de milhões de pessoas que na sexta-feira dia 10 de janeiro choraram juntos como se tivessem perdido um familiar ou um amigo íntimo. Desculpa cara, mas você mudou a vida de muita gente. E muito obrigado não só por isso, mas por todos estes anos de excelência, integridade, bom gosto e tudo mais que você nos proporcionou... A Jam Session aí no outro plano ganhou um reforço de peso...
Vai em paz, Professor! E, mais uma vez, MUITO OBRIGADO!
Morte de Neil Peart
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