David Bowie abriu o jogo sobre sua sexualidade em entrevista reveladora em 1976
Por André Garcia
Postado em 14 de março de 2022
O personagem Ziggy Stardust foi introduzido ao mundo na edição de janeiro de 1972 do jornal Melody Maker, onde David Bowie iniciou sua nova direção artística. E, para tal, ele fez a Inglaterra tremer ao declarar na primeira página: "Eu sou gay e sempre fui" — e isso anos antes de Freddie Mercury e Elton John saírem do armário.
Entretanto, ele não se estendeu no assunto, certamente sabia que aquilo já bastaria para causar a repercussão que causou. Foi apenas em 1976 que o versátil cantor falou, de forma direta e sincera, sobre o assunto, em entrevista à Playboy feita por Cameron Crowe — que um quarto de século depois dirigiria Vanilla Sky e Quase Famosos.
Os trechos da entrevista em que David Bowie fala sobre sua sexualidade, e sobre como ele a explorou, você confere abaixo.
PLAYBOY: Vamos começar pela pergunta da qual você sempre se esquiva: o quanto de sua sexualidade é uma farsa?
BOWIE: É verdade — eu sou bissexual. Mas eu não posso negar que me aproveitei disso muito bem. Acho que foi a melhor coisa que me aconteceu; mais divertida também.
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PLAYBOY: Por que foi a melhor coisa que te aconteceu?
BOWIE: Um motivo é que as meninas sempre presumiam que eu era heterossexualmente virgem, não sei por quê. Então tinha todas aquelas garotas querendo me puxar para o canto: "Vamos lá, David, não é tão mal assim... deixa eu te mostrar!" Eu sempre me fazia de bobo.
Por outro lado — estou certo que você quer ouvir sobre o outro lado também — aos 14 anos, de repente, sexo se tornou a coisa mais importante para mim. Não importava com quem ou como fosse, bastava ser uma experiência sexual. Então tinha um garoto bem bonito de alguma escola que eu levei para casa e comportadamente metemos no quarto de cima.
PLAYBOY: Mesmo assim você nunca foi visto ficando com um homem. Por quê?
BOWIE: Ó céus, eu já passei dessa fase faz tempo. Por um tempo foi meio a meio, atualmente só fiquei tentado quando fui para o Japão. Tem tantos novinhos bonitinhos por lá. Novinhos? Não tão novinhos, de 18, 19 anos. Eles têm uma mentalidade ótima: são gays até os 25, depois viram samurais, se casam e tem um monte de filhos. Eu adoro.
PLAYBOY: Por que, numa época em que ninguém no rock falava sobre o assunto, você ousou explorar sua bissexualidade?
BOWIE: Eu diria que os Estados Unidos me obrigaram a isso. Alguém me perguntou numa entrevista, acho que em 71, se eu era gay. Eu disse: "Não, eu sou bissexual". O entrevistador não sabia o que aquilo significava, então eu expliquei para ele e aquilo foi tudo publicado. E aí começou.
É tão nostálgico agora, né? Aquele foi um bom ano americano - sexo ainda era chocante e todo mundo queria ver o exótico. Mas eles eram tão ignorantes em relação ao que eu fazia. Havia muito pouco diálogo sobre bissexualidade ou orgulho gay antes de eu aparecer. Sem dúvida, eu coloquei aquela coisa toda em pauta. Eu não vi uma única vez a palavra gay quando fui para a América pela primeira vez.
Bastou um pouco de exposição e alguns boatos pesados sobre mim para os gays dizerem: "Nós descomungamos David Bowie." E de fato fizeram, com certeza. Eles sabiam que eu não era aquilo pelo qual eles estavam lutando. Ninguém entendia a perspectiva europeia de adotar o assexual, a androgenia. As pessoas ficavam gritando: "Ele está passando maquiagem e usando coisas que parecem vestidos!"
Leia a entrevista na íntegra em inglês em:
https://www.theuncool.com/journalism/david-bowie-playboy-magazine/
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