Neil Peart: Entrevista com a tradutora de "The Masked Rider"

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Por Vagner Cruz, Fonte: Rush Fã-Clube Brasil
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Há alguns anos, se alguém nos afirmasse que vários livros de Neil Peart seriam publicados no país, a história pareceria no mínimo duvidosa - soando apenas como mais um daqueles grandes boatos do mundo da música. Porém, em 2013, tivemos de fato a ótima notícia de que uma editora brasileira havia adquirido os direitos para Ghost Rider: Travels on a Healing Road. Desde então, a Belas-Letras já lançou quatro livros do baterista em português: A Estrada da Cura (Ghost Rider), Os Anjos do Tempo (Clockwork Angels - publicação em parceria com o autor de ficção científica Kevin J. Anderson), Longe e Distante (Far and Away: A Prize Every Time) e agora O Ciclista Mascarado (The Masked Rider: Cycling in West Africa), que acaba de chegar nas livrarias.

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Antes de Ghost Rider, obra que se tornou referência após o músico ter perdido a filha e a esposa em um curto intervalo de um ano, o compositor e baterista ingressou no mundo da literatura com The Masked Rider. Originalmente publicado em 1996 (chega no Brasil após exatos vinte anos do lançamento original), o livro narra suas aventuras em duas rodas (mas desta vez de bicicleta) pedalando pela África. Fixado na literatura On the Road, Peart encontra na escrita o seu escapismo, vivendo uma extraordinária jornada por estradas de chão batido, enfrentando milícias armadas e crises estomacais.

Conversamos novamente com a tradutora Candice Soldatelli, gaúcha da cidade serrana de São Marcos, amante de filmes, séries e esportes que não recusa um bom chimarrão e partidas de tênis. Ela ficou com a grande responsabilidade sobre três dos quatro títulos já lançados, e avisa que mais trabalhos do lendário baterista e letrista do Rush estão chegando para os fãs brasileiros.

Candice, após três livros de Neil Peart traduzidos e publicados no Brasil, qual tem sido o seu maior ganho profissional e pessoal?

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Candice: Tem sido uma experiência muito gratificante, pois acredito que me tornei uma profissional mais qualificada justamente por causa do desafio de traduzir um escritor genial como Neil Peart. Além disso, cada livro é uma lição e tanto: assim como as letras do Rush versam sobre temas profundos, os livros também tratam de questões universais e filosóficas que nos levam a refletir sobre nossa própria vida. Posso dizer que o maior ganho foi amadurecer na marra, pois é impossível ficar indiferente a uma obra de Peart.

The Masked Rider: Cycling in West Africa foi o primeiro livro lançado por Neil Peart. Você ficou surpreendida com a riqueza das palavras e detalhes?

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Candice: O livro foi lançado em 1996, oito anos depois da sua excursão de bicicleta por Camarões. Ele é baseado nas anotações que Neil fazia em seu diário, e também em pesquisas realizadas antes e depois da viagem. Ele sempre foi um leitor ávido, desde criança - por isso a riqueza de vocabulário e o conhecimento amplo que tem sobre tantas coisas não surpreende quem conhece sua biografia. Claro que isso resulta num desafio extra para mim, porque busco manter o mesmo nível de vocabulário e de estilo do escritor.

Como foi traduzir O Ciclista Mascarado? Quais as maiores dificuldades que enfrentou nesse trabalho?

Candice: Tanto Ghost Rider - A Estrada da Cura, quanto Far and Away - Longe e Distante já eram conhecidos, ou seja, eu já tinha lido antes de traduzir. Assim, a tradução foi mais profissional, deixando de lado o papel de leitora. Já com The Masked Rider, a experiência foi bem diferente: fui leitora e tradutora ao mesmo tempo - chegava a traduzir num ritmo mais intenso só para saber o que iria acontecer no capítulo seguinte. Como o estilo do autor agora já é familiar, não foi difícil traduzir O Ciclista Mascarado: houve as mesmas exigências de pesquisa sobre geografia e biologia (nomes de plantas e de animais) dos outros dois livros. Talvez o mais difícil tenha sido traduzir os trechos em que ele descreve algumas estradas complicadas pelo nível de detalhamento do cenário, e descrição de espaço é uma das minhas grandes dificuldades.

Quais detalhes ou passagens você considerou mais marcantes no livro?

Candice: Há um capítulo em que Neil e os outros membros da excursão de ciclistas passam a noite num vilarejo bem humilde na zona rural de Camarões. Apesar da simplicidade das casas e das acomodações rústicas, a forma como ele relata a generosidade daquelas pessoas ao receberem os forasteiros faz qualquer um ter vontade de pegar uma bicicleta e fazer o mesmo roteiro. Também acho incrível como as observações de Peart sobre a política na África - isso em 1988 - ajudam a compreender as guerras civis que acontecem hoje naquele continente. Mas o que mais me impressiona é como ele já era extremamente culto, inteligente e sábio aos trinta e poucos anos.

Você estabeleceu algum contato com Neil Peart durante o trabalho em O Ciclista Mascarado, como ocorreu nos títulos anteriores?

Candice: Durante o processo de tradução, sempre vou anotando as dúvidas que só o autor mesmo pode me esclarecer. Reúno tudo num único e-mail e envio para a editora canadense, que repassa para Peart. Ele geralmente me responde em dois ou três dias no máximo. Desta vez até me surpreendi com a rapidez, pois ele estava de férias. Ele sempre faz muita questão de esclarecer qualquer dúvida sobre os livros e sempre elogia a minha "nerdice", digamos assim [risos]. Nossa relação é bem profissional e se resume a tratar dos livros. Nunca falei sobre o Rush com ele, porque entendo que foge da relação profissional. Uma coisa que admiro muito no autor é a disposição em me ajudar a passar suas ideias com a maior clareza possível aos leitores brasileiros.

Algum álbum do Rush te ajudou nessa viagem em O Ciclista Mascarado?

Candice: Foram vários álbuns na verdade. Pela data (1988), Peart foi para a viagem relatada após a turnê do álbum Hold Your Fire (que faz parte do ao vivo A Show of Hands), e antes das gravações de Presto. Assim, ouvi muito esses três álbuns durante a tradução. Há ainda um fator relevante: o livro foi escrito entre 1995 e 1996, ou seja, depois da turnê Counterparts e antes das gravações de Test for Echo. E mais: há um capítulo inteirinho chamado The Larger Bowl, uma das canções mais impactantes de Snakes & Arrows. Fiquei intrigada por que Peart só incluiu essa canção num álbum do Rush tantos anos depois de sonhar com ela, como ele conta no livro. Não tive coragem de perguntar pra ele o motivo [risos]. Dessa forma, ouvi muito todos esses álbuns durante a tradução, tentando perceber como a viagem de 1988 e trechos do livro sobre essa aventura escrito anos depois surgem aqui e ali nas letras. Há várias referências, tanto nas letras quanto nos arranjos. Os fãs vão perceber isso facilmente.

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Você poderia traçar um paralelo entre A Estrada da Cura, Longe e Distante e O Ciclista Mascarado?

Candice: Sem dúvidas, o que une os três livros é essa questão de estar em movimento - da viagem como um momento de crescimento pessoal, uma oportunidade de refletir sobre si mesmo e sobre a realidade em que vivemos. Enquanto em A Estrada da Cura e Longe e Distante Neil percorre o mundo em grande estilo com sua motocicleta BMW, em O Ciclista Mascarado ele parece mais um cara comum, como ele mesmo diz, "viajando na velocidade das pessoas" - sem grandes luxos, sem conforto e vivenciando a cultura do povo africano. Na verdade, creio que The Masked Rider - O Ciclista Mascarado é um livro que vai chamar a atenção de vários públicos, não só dos fãs da banda. Os ciclistas, particularmente, vão se identificar demais com a filosofia do livro - e também aqueles que se interessam por antropologia e história.

A Belas-Letras conseguiu adquirir os direitos para lançar todos os livros do baterista no Brasil, exceto Roadshow: Landscape With Drums: A Concert Tour by Motorcycle de 2006, que saiu pela editora Rounder Books, e não pela ECW como os demais. Há alguma chance de termos esse título também?

Candice: Boa pergunta. Os fãs do Rush e os leitores de Neil Peart já estão enviando mensagens perguntando sobre Roadshow (que virou uma espécie de Santo Graal da literatura de Peart no Brasil). Mas, se o resultado das vendas dos demais títulos for positivo, não tenho dúvidas de que a Belas-Letras vai adquirir os direitos desse também, pois tem preferência para publicar as obras de Peart em língua portuguesa.

Além dos livros de Neil Peart, quais trabalhos você considera destacados em seu currículo como tradutora?

Candice: Um trabalho do qual me orgulho muito é a tradução (juntamente com Carlos Irineu da Costa) do livro Monalisa Overdrive, de William Gibson (um gênio do cyberpunk) publicado pela editora Aleph. É um livro sensacional, que faz parte de uma trilogia que começa com Neuromancer. Recomendo demais. Recentemente, venho trabalhando quase que com exclusividade para a Belas-Letras, traduzindo os livros de Neil Peart. Também pela Belas-Letras, traduzi um livro excelente sobre liderança: Os Campeões, do jornalista britânico Mike Carson, que fala das experiências dos técnicos de futebol da Premier League (Mourinho, Sir Alex Ferguson, Carlo Ancelotti, entre outros). É um livro excelente não só para quem se interessa por futebol, mas principalmente para qualquer profissional precisa liderar uma equipe - seja no mundo empresarial, seja no mundo esportivo.

Como é sua rotina de trabalho quando está traduzindo um livro?

Candice: Já virei motivo de piada entre os meus amigos, pois vou dormir muito cedo por causa dos meus horários: sempre acordo antes das seis da manhã, prefiro traduzir durante o dia tomando meu chimarrão. Geralmente, traduzo 4500 palavras por dia - isso quando não preciso parar tudo para fazer alguma pesquisa mais extensiva ou entrar em contato com meus informantes (músicos, biólogos, geólogos, geógrafos, engenheiros, motociclistas, ciclistas, entre outros). As vezes, é necessário entender uma única frase para poder traduzir corretamente várias páginas.

Candice: Depois de traduzir uns quatro capítulos, faço o cotejo e a revisão, ou seja, reescrevo algumas frases para aperfeiçoar o texto, a fim de deixá-lo mais claro e menos com cara de texto traduzido (já ajustando o vocabulário com as informações reunidas nas pesquisas). É importante tentar deixar o texto como se o próprio Neil tivesse escrito em português. Resumindo, é uma enorme responsabilidade. Essa é a parte mais demorada. Quando termino o livro, reúno as dúvidas restantes para enviar para o autor. Quando ele responde, envio o livro para a editora para as etapas seguintes. Geralmente, há um contato direto e constante com a equipe de revisão e de edição para resolver algumas dúvidas, trocar ideias. Tudo é feito com muito critério e cuidado, pode ter certeza disso. O melhor de tudo é manter esse contato direto também com os próprios leitores, porque sempre nos trazem algumas dicas sobre algum errinho que passou ou sugestões para futuras edições. Mas a maior satisfação é quando um leitor exigente elogia nosso trabalho - dá uma sensação de dever cumprido.

Sabemos que os fãs do Rush estão entre os mais dedicados e apaixonados no mundo do rock, e a tarefa de traduzir os livros de Neil Peart no Brasil lhe trouxe, inevitavelmente, muitos contatos com outras pessoas admiram a banda. Como foi isso para você?

Candice: Logo após a primeira entrevista para o Rush Fã-Clube Brasil, comecei a receber pedidos de amizade no Facebook de fãs do Rush do Brasil inteiro. O pessoal da editora também me encaminhava e-mails dos fãs com dúvidas sobre a tradução (muitos questionavam quem eu era, se eu era fã da banda, se eu tinha "cacife" para encarar a empreitada). Antes de participar do lançamento de Ghost Rider - A Estrada da Cura em São Paulo em 2014 [veja como foi aqui], conhecia pessoalmente apenas uns quatro ou cinco fãs de Rush que moram aqui na serra gaúcha (entre eles, ex-colegas de colégio).

Candice: No dia do lançamento, fiz amizade com alguns fãs e com o pessoal da Rush Project (banda tributo de São Paulo), com os quais mantenho contato até hoje pelo Facebook e também pelo WhatsApp - incluindo esse cara que está me entrevistando e sua esposa [risos]. Mais tarde, tive o prazer de assistir a Rush Cover Rio (do Rio de Janeiro) e a Totem Rush (de Porto Alegre). Gosto demais de assistir às bandas tributo - os músicos sempre são excelentes. Em Toronto, durante a R40, fiz amizade com gente do mundo todo, incluindo membros de fã-clubes bem conhecidos no Facebook (como o Clockwork Angels Rush Fans United).

Candice: Eu me sinto como alguém que encontrou sua turma depois de se sentir deslocado por muito tempo, pois os fãs de Rush parecem ter outros interesses em comum além da banda. Assim, se torna fácil fazer amizades por causa deles.

Para encerrarmos, revele para nós: qual o próximo livro da lista de lançamento?

A foto que te enviei responde a pergunta. Estou fazendo uma playlist no Spotify com as músicas, bandas e cantores citados pelo mestre em Traveling Music. Já são mais de 50! Logo vou torná-la pública e divulgar o link para vocês. A previsão é de que este saia em outubro. Provavelmente, no começo de 2017, vai ser a vez de Far and Near.




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Sobre Vagner Cruz

Vagner Cruz é de Niterói, Rio de Janeiro, e atualmente reside na cidade litorânea de Maricá. Amante do rock and roll e de suas várias vertentes, acabou conhecendo o power-trio canadense Rush em 1997, se tornando desde então um grande fã. Atualmente mantém o site Rush Fã-Clube Brasil, o mais acessado no país dedicado ao grupo, onde se dedica a traduzir entrevistas, informações de músicas e álbuns buscando grande interação com os fãs brasileiros. Colabora cominformações sobre a banda no Whiplash.Net desde 2009.

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