Aerosmith: o retorno de outra dimensão.

Resenha - Music From Another Dimension! - Aerosmith

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Henrique Santiago
Enviar correções  |  Ver Acessos

Nota: 9

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Os últimos anos para o Aerosmith serviram como capa de tabloides que noticiavam incansavelmente as rixas entre o quinteto, principalmente Steven Tyler e Joe Perry, que culminaram no provável fim do grupo. Após brigas escancaradas na imprensa, queda do palco do frontman, provável substituição do vocalista e roupa lavada publicamente, o Aerosmith lançou seu primeiro álbum de inéditas após um hiato de 11 anos.

Sons Of Apollo: banda toca "Dream On" , do Aerosmith, com orquestra; assistaBlender: as letras mais repulsivas do Heavy Metal

Depois do lançamento do megacriticado Just Push Play (2001) e o álbum de covers de blues Honkin' On Bobo (2004), o Aerosmith se manteve com um pé dentro e o outro fora do estúdio. O longo processo de preparação de Music From Another Dimension! envolveu promessas, produtores fantasmas e recentemente a prorrogação da data de lançamento do álbum em incansáveis meses de espera. Enfim, um registro histórico que agonizou os fãs do quinteto de Boston que roeram as unhas incansavelmente para saciar a vontade de Aerosmith. E nada mais conveniente do que lançar o álbum em um ano em que dinossauros do rock do quilate de UFO, KISS, LYNYRD SKYNYRD, VAN HALEN, entre outros retornaram em grande estilo.

Antes de tudo, Music From Another Dimension! é um álbum com a marca registrada do Aerosmith. É claro que ainda há colaboradores de fora que compõem uma ou outra música, como Desmond Child e Marti Frederiksen, mas a presença do quinteto de Boston nas letras e músicas faz-se mais que presente. Eis uma ótima oportunidade para conhecer um pouco mais o que Brad Whitford, Tom Hamilton e Joey Kramer têm a oferecer.

Os sessentões Steven Tyler (voz), Joe Perry (guitarra), Brad Whitford (guitarra), Tom Hamilton (baixo) e Joey Kramer (bateria) se reuniram com Jack Douglas, produtor responsável pelos clássicos Toys in the Attic (1975) e Rocks (1976). A promessa de um álbum com o retorno à época áurea do Aerosmith empolgou os fãs. Ao longo da produção de Music From Another Dimension!, o produtor e colaborador Marti Frederiksen, responsável pelo já citado Just Push Play, abocanhou uma pequena fatia com três faixas do álbum.

O álbum tem início com uma voz tão misteriosa quanto a de Vincent Price em The Black Widow, de ALICE COOPER, que introduz "uma viagem da qual você provavelmente não voltará". A jornada rumo à outra dimensão está inaugurada. Eis que começa LUV XXX (leia-se Love Three Times a Day). A explosão de riffs das guitarras de Joe Perry e Brad Whitford ganha força com a voz de Steven Tyler que aos poucos alcança notas poderosas. A música seguinte é um retorno aos anos 70. Oh Yeah é um típico Aerosmith: direto, cru, poderoso. Os backing vocals femininos trazem atmosfera clássica do soul que lembra o som dos ROLLING STONES.

Beautiful é a terceira faixa do álbum. O poderoso riff de guitarra remete claramente aos clássicos dos anos 70 da banda. Contudo, os vocais "rappeados" de Steven Tyler entram em contraste com o peso das cordas e transformam a faixa em uma ótima música pop cujo refrão pegajoso fica impregnado na mente. Já Tell Me é a primeira balada do álbum. Engana-se quem pensa que se trata de um som comercial. A faixa, composta por Tom Hamilton, traz um ar sessentista com toda a pompa das guitarras acústicas.

A quinta faixa merece destaque por se tratar de um dos melhores momentos do álbum. Out Go the Lights é estrondosa. O riff, retirado da instrumental Guilty Kilt, das sobras de Pump (1989), casa perfeitamente com a cozinha de Tom Hamilton e Joey Kramer. Os quase sete minutos de duração mostram que o quinteto se divertiu na criação dessa faixa. Out Go the Lights é rocker, dançante tem um groove à la Mother Popcorn e tem os toques de soul com os backing vocals femininos. Se tudo o que foi citado não é o bastante para te convencer desse clássico instantâneo, então ouça atentamente Steven e sua incansável gaita acrescentarem ainda mais qualidade à faixa. Legendary Child é a faixa mais conhecida do álbum. O primeiro single que ressurgiu das gravações de Get a Grip (1993) mostrou que a banda voltou como um trem descarrilhado a toda força para o rock. Os vocais de Steven Tyler mostram que mesmo aos 64 anos o bocudo é referência no gênero.

O álbum segue com What Could Have Been Love, o segundo registro baladeiro. O single posterior à pesada Legendary Child é claramente o "carro-chefe" que impulsionará as vendas do álbum. É uma típica balada noventista da banda: gruda, cativa e mexe com os sentimentos. Diferentemente de Cryin', Crazy, Hole in My Soul e cia., não há solo de guitarra, mas isso não importa muito quando se tem Steven Tyler cantando com perfeição. Quando o assunto é amor e suas desventuras, não há quem represente melhor em suas músicas que o Aerosmith.

A oitava faixa é Street Jesus. O momento mais hard rock do álbum poderia facilmente entrar em qualquer álbum dos anos 70 do quinteto. Aos fãs saudosistas, há uma relação de faixas matadoras como Toys in the Attic, Rats in the Cellar e até a obscura Jailbailt. Essa obra-prima de Tyler/Whitford, responsável por pérolas setentistas como Last Child, Nobody's Fault e Round and Round, só deixa ainda mais evidente que a dupla tem rock 'n' roll nas veias. Já Can't Stop Lovin' You, um dueto feito com a Carrie Underwood, apresenta novamente o apelo comercial de Music From Another Dimension!. Os fãs cabeludos e barbudos da banda podem torcer o nariz, mas essa faixa, que será o próximo single do álbum, exprime perfeitamente a junção de pop e rádio.

Lover Alot foi lançada como single no mesmo dia em que What Could Have Been Love. Eis aqui um som demencial que merece destaque à cozinha de Tom Hamilton e Joey Kramer que acrescenta peso na medida certa ao vocal ágil de Steven Tyler. O solo insano e atípico de Joe Perry remete ao de Think About It, do álbum Night in the Ruts. Infelizmente Lover Alot não tem alcançado o mesmo sucesso comercial que sua "irmã" radiofônica.

Após a paulada Lover Alot, We All Fall Down vem em seguida para acalmar os tímpanos. Trata-se de uma faixa da "cota Diane Warren", a mesma compositora do tão amado e odiado megahit I Don't Want to Miss a Thing. Porém não espere uma balada açucarada em que o som das guitarras praticamente passa despercebido. A letra retrata o amor com alta carga dramática, sim, mas é compensador ouvir Steven Tyler assumir o piano enquanto solta sua poderosa voz.

Freedom Fighter marca o primeiro registro de Joe Perry nos vocais do álbum e marca a volta do peso que We All Fall Down quebrou. O "Admiral", como é conhecido pelos fãs, tem ganhado destaque desde o álbum Get a Grip com pelo menos uma faixa em que assume os vocais. Perry canta com autenticidade e sem se preocupar se sua voz é a melhor do mundo. Seu vocal é tão sujo quanto o de Rob Tyner, do MC5, e Iggy Pop nos STOOGES e faz de Freedom Fighter um rock 'n' roll básico e direto de primeira. Os vocais de apoio de Johnny Depp são apenas um mero detalhe.

Já Closer é uma faixa em que a bateria de Joey Kramer harmoniza perfeitamente com os vocais de Steven Tyler. É uma música que soa como o Aerosmith atual com guitarras viajantes de Joe Perry. Something é o segundo momento de Joe Perry em Music From Another Dimension! A introdução de órgão levará os fãs old school a uma viagem que relembrará do URIAH HEEP ou até mesmo DEEP PURPLE. Outro ponto "classe" da faixa é Steven Tyler preciso na bateria, como no longínquo começo da tempestuosa irmandade da dupla.

Por fim, Another Last Goodbye encerra o álbum com maestria. O destaque da faixa vai única e exclusivamente para Steven Tyler que faz sua melhor performance no álbum em uma balada com ares obscuros, dolorosa, que toca profundamente a alma do mais insensível dos homens. Acompanhado por piano e violino, o vocalista mostra porque é conhecido como "Demon of Screamin'" ao fazer com que sua voz alcance tons que deixam qualquer um boquiaberto. É a provável melhor balada desde Mia, de Night in the Ruts.

Eis que a misteriosa voz do começo do álbum regressa com a mensagem "e agora retornamos sua percepção de realidade para você... Até a próxima vez" e traz o ouvinte de volta à realidade. Tais palavras deixam um ar de esperança que talvez o Aerosmith grave outro álbum, mas que não demore longos 11 anos.

Music From Another Dimension! é o retorno triunfal dos sessentões do Aerosmith, que aos 42 anos de carreira mostram versatilidade ao fazer um álbum que retorna às gloriosas raízes, mas sem deixar de lado os recentes sucessos que coroaram a banda com uma legião de fãs desde os anos 90. E tal como a capa sci-fi sugere, a vinda do "monstro" Aerosmith causa espanto e ao mesmo tempo frisson ao destruir tudo o que vê pela frente e depois levar o ouvinte a uma dimensão a ser descoberta.

Tracklist:

01. LUV XXX
02. Oh Yeah
03. Beautiful
04. Tell Me
05. Out Go The Lights
06. Legendary Child
07. What Could Have Been Love
08. Street Jesus
09. Can't Stop Loving You (feat. Carrie Underwood)
10. Lover Alot
11. We All Fall Down
12. Freedom Fighter
13. Closer
14. Something
15. Another Last Goodbye


Outras resenhas de Music From Another Dimension! - Aerosmith

Aerosmith: Algumas boas músicas, porém, não foi desta vezAerosmith: novo álbum, velha receita!Aerosmith: uma bolacha que dá para chamar de medianaAerosmith: novo álbum traz mais de um terço de baladasAerosmith: toques novos em uma estrutura velha




GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Todas as matérias da seção Resenhas de CDs e DVDsTodas as matérias sobre "Aerosmith"


Sons Of Apollo: banda toca "Dream On" , do Aerosmith, com orquestra; assista

Oooops: Steven Tyler cai no palco durante show; assistaOooops
Steven Tyler cai no palco durante show; assista

Os anos do Heavy Metal: A decadência e a renovação do estiloAerosmith: o "bis secreto" dos shows da banda, segundo Steven Tyler

Aerosmith: Perry diz que Simmons tem um pouco de razão sobre o rock estar mortoAerosmith
Perry diz que Simmons tem um pouco de razão sobre o rock estar morto

Aerosmith: Michael Schenker lembra do teste para a banda em 1979Aerosmith
Michael Schenker lembra do teste para a banda em 1979

Top 20: os discos e singles mais odiados do rock, segundo o UCRTop 20
Os discos e singles mais odiados do rock, segundo o UCR


Blender: as letras mais repulsivas do Heavy MetalBlender
As letras mais repulsivas do Heavy Metal

Porta dos Fundos: Andreas Kisser e a cobrança dos metaleirosPorta dos Fundos
Andreas Kisser e a cobrança dos metaleiros

As regras do New Metal/Nu-metalAs regras do New Metal/Nu-metal
As regras do New Metal/Nu-metal

Jethro Tull: a fúria de Ian Anderson pra cima do Led ZeppelinSlipknot: Corey Taylor não tem a cara limpa por baixo da máscaraMarty Friedman: "Sim, você pode dizer que sou um hipócrita."Guns N' Roses: por que Axl não mudou nome após Slash e Duff saírem

Sobre Henrique Santiago

Autor sem foto e/ou descrição cadastrados. Caso seja o autor e tenha dez ou mais matérias publicadas no Whiplash.Net, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.