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Helloween: soando relevante sem remoer o passado

Resenha - Gambling With The Devil - Helloween

Por Guilherme Vasconcelos Ferreira
Em 25/02/08

Nota: 8

Depois do mediano e picareta "Keeper of the Seven Keys – The Legacy", disco concebido para alavancar as vendas da abóbora alemã (o "Rabbits Don’t Come Easy" foi mal comercialmente), o Helloween acertou o alvo. Sim, "Gambling With The Devil" é um disco muito bom, capaz até de rivalizar com o "The Time Of The Oath" e com o "Master Of The Rings" pelo posto de melhor álbum da era Andi Deris. É a prova de que o Helloween não precisa falsificar e remoer o passado para soar relevante.

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"Crack The Riddle" inicia o disco. É aquela introdução consagrada e saturada pelo próprio Helloween e que está presente em quase todos os álbuns de melódico, com a diferença de contar com a participação de Biff Byford do Saxon nos vocais pra lá de demoníacos. "Kill it" é quase uma nova edição mais pesada, agressiva e empolgante da já pesada, agressiva e nem tão empolgante assim "Push" do "Better Than Raw". Nela, o destaque positivo é a atuação demolidora e intrincada do baterista Dani Löble, que utiliza muito bem o pedal duplo, principalmente no refrão. O destaque negativo é Andi Deris e seus vocais artificiais e repletos de efeitos que não satisfazem. Sou daqueles que preferem vocais mais limpos e sem efeitos. A música dessa forma, além de soar mais natural e menos confusa, emana muito mais feeling.

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"The Saints" é uma faixa que segue fielmente todos os passos do velho Power Metal. É a melhor música do disco e a melhor do Helloween em muitos anos. É levada num bumbo duplo na velocidade da luz. A linha vocal é extremamente criativa e megalomaníaca (no bom sentido) e acaba desembocando num refrão marcante e delicioso, daqueles que você sai cantarolando por aí involuntariamente. Além desses atributos, a canção é temperada com os velozes e orgásticos duetos de guitarra que notabilizaram a banda alemã e que há algum tempo ela não praticava de forma tão escancarada e esplêndida. Há de se mencionar ainda o ótimo bridge que valoriza bastante o refrão.

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"As Long As I Fall" foi o primeiro single e é uma daquelas músicas com a cara e a assinatura de Andi Deris. É uma power ballad agradável, ainda que um tanto quanto confusa. O refrão é legalzinho e há alguns pequenos brilhos instrumentais aqui e acolá. É a típica canção radiofônica, feita sob medida para satisfazer os interesses comerciais da banda e da gravadora. É, você sabe, toda banda tem que vender para sobreviver, mesmo que essa banda esteja na estrada há mais de duas décadas e que seja um dos principais expoentes do Heavy Metal. Será que com o dinheiro ganho por esses caras durante suas carreiras não seria possível sustentar confortavelmente pelo menos uma três gerações de suas famílias?

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"Paint a New World" é outro petardo. Combina de forma assaz satisfatória um peso descomunal (em se tratando de Helloween) com belíssimas passagens melódicas. Aqui Andi Deris mostra toda a sua experiência ao não tentar forçar a sua voz para alcançar agudos que só Michael Kiske alcançaria. Para compensar esse aspecto técnico, Deris aposta na criatividade e na versatilidade. Suas linhas vocais são bastante inovadoras. Isso não significa que são necessariamente boas (em "Kill it", por exemplo, ele pisa na bola), mas que são necessariamente ousadas. É a maior prova de que cantar bem não é sinônimo de soltar agudos estridentes a cada dez segundos.

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"Final Fortune" é uma música muito bem acabada. Desde o bem encaixado teclado atmosférico – que dá um toque especial à canção -, passando pelo pesado riff, pela agressiva interpretação de Andi Deris até o empolgante refrão, tudo soa harmonicamente. Aliás, o refrão é, apesar de grande, bastante dinâmico. Compor refrões pequenos e empolgantes é fácil. Difícil é não deixar que refrões grandes se tornem modorrentos.

Em "The Bells Of The Seven Hells", com exceção do refrão, nada salta aos ouvidos. É a faixa concebida para encher lingüiça. Sem uniformidade porque atira para todos os lados, ela fica no quase. O tempo e a qualidade das outras composições irão ofuscá-la. Isso se o Helloween não seguir os passos do Iron Maiden e, ao vivo, tocar aquilo que ninguém quer ouvir. De "Gambling With The Devil", "The Bells Of The Seven Hells" é talvez aquilo que ninguém quererá ouvir ao vivo.

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"Fallen To Pieces" é uma semi-balada agradável. Nela, há arranjos bem criativos e até insólitos, além de ótimas dobradinhas de guitarra. Não obstante o correto uso do teclado, ele não é suficiente para salvar o refrão mais chato e genérico do álbum. "Fallen To Pieces", portanto, não chega a agradar plenamente e nem é uma completa decepção. É mediana.

"I.M.E." e "Can Do It" são as canções mais divertidas, descontraídas e dançantes do disco. A primeira é um hard rock bem acessível, daqueles que a banda acrescentou em seu estilo a partir da entrada de Andi Deris. A segunda é totalmente pop. Sua letra positiva, otimista e com um quê de auto-ajuda e sua melodia deveras palatável nos remetem aos velhos tempos do "happy, happy Helloween". Elas são demonstrações de que é possível resgatar a alegria e a infantilidade, no sentido mais puro da palavra, num meio que tem se tornado demasiadamente sério. O Heavy Metal não tem como destinatário apenas pessoas aborrecidas e macambúzias.
"Dreambound" é mais uma música admirável de "Gambling With The Devil". Seu andamento rápido realça um elogiável trabalho de guitarras. Por falar em guitarras, Michael Weikath e Sascha Gerstner beberam de fontes neoclássicas para compor o aprazível dueto que dá as caras lá pela metade da música. A semelhança das notas aqui tocadas com a escola malsmteeniana é impressionante. Bela sacada para escapar um pouco dos clichês do melódico.

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"Heaven Tells No Lies" encerra um dos melhores CDs da discografia do Helloween de forma inspirada. Mais uma vez temos uma composição forte, vibrante, dinâmica e que em nada lembra o Helloween preguiçoso e desleixado de anos atrás. Não há buracos ou forçadas de barra na música. Todas as suas partes dialogam fluentemente, naturalmente e coesamente. Tecnicamente, Andi Deris, outra vez, chama atenção pela poderosa melódica vocal. As guitarras cantáveis também contribuem para legitimar a sensação de se estar ouvindo outra ótima canção.

Se é verdade que quanto maior a expectativa, maior é a decepção – a última parte do "Keeper of the Seven Keys" está aí para corroborar essa tese -, é também verdade que quanto menor é a expectativa, maior é a satisfação. E "Gambling With the Devil", sem alarde e sem estardalhaço, está aí para comprovar isso.

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Sobre Guilherme Vasconcelos Ferreira

Ano 2000. Então com 12 anos, entrei na secção de CDs de um supermercado para gastar o dinheiro da mesada que meu pai dera dias antes. Sem o mínimo de discernimento, deixei-me fascinar pela bela capa do Brave New World, do Iron Maiden. Não me decepcionei. Aqueles vocais operísticos e as guitarras melodiosas foram a porta de entrada para o heavy metal, estilo que muito contribuiu para a formação dos meus valores e da minha personalidade. Hoje, aos 21 anos, estou no último ano do curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e trabalho com assessoria política. A música pesada, porém, nunca me abandonou. Além da Donzela, nutro sincera paixão por Black Sabbath, Deep Purple, Dio, Metallica, AC/DC, Rush, Pink Floyd, Dream Theater, Judas Priest, Yes e Motörhead. As bandas emo, indie ou qualquer uma que tire onda de moderninha e bem comportadinha me exasperam profundamente. Odeio instrumentais paupérrimos e rebeldia de boutique. Rock n' roll existe para questionar noções consagradas de normalidade e tensionar padrões morais e estéticos dominantes. Para cultivar a estupidez e exaltar o artificialismo, já existe a música pop. Sim, sou um old school empedernido.

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