Helloween: soando relevante sem remoer o passado

Resenha - Gambling With The Devil - Helloween

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Por Guilherme Vasconcelos Ferreira
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Nota: 8


Depois do mediano e picareta "Keeper of the Seven Keys - The Legacy", disco concebido para alavancar as vendas da abóbora alemã (o "Rabbits Don't Come Easy" foi mal comercialmente), o Helloween acertou o alvo. Sim, "Gambling With The Devil" é um disco muito bom, capaz até de rivalizar com o "The Time Of The Oath" e com o "Master Of The Rings" pelo posto de melhor álbum da era Andi Deris. É a prova de que o Helloween não precisa falsificar e remoer o passado para soar relevante.

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"Crack The Riddle" inicia o disco. É aquela introdução consagrada e saturada pelo próprio Helloween e que está presente em quase todos os álbuns de melódico, com a diferença de contar com a participação de Biff Byford do Saxon nos vocais pra lá de demoníacos. "Kill it" é quase uma nova edição mais pesada, agressiva e empolgante da já pesada, agressiva e nem tão empolgante assim "Push" do "Better Than Raw". Nela, o destaque positivo é a atuação demolidora e intrincada do baterista Dani Löble, que utiliza muito bem o pedal duplo, principalmente no refrão. O destaque negativo é Andi Deris e seus vocais artificiais e repletos de efeitos que não satisfazem. Sou daqueles que preferem vocais mais limpos e sem efeitos. A música dessa forma, além de soar mais natural e menos confusa, emana muito mais feeling.

"The Saints" é uma faixa que segue fielmente todos os passos do velho Power Metal. É a melhor música do disco e a melhor do Helloween em muitos anos. É levada num bumbo duplo na velocidade da luz. A linha vocal é extremamente criativa e megalomaníaca (no bom sentido) e acaba desembocando num refrão marcante e delicioso, daqueles que você sai cantarolando por aí involuntariamente. Além desses atributos, a canção é temperada com os velozes e orgásticos duetos de guitarra que notabilizaram a banda alemã e que há algum tempo ela não praticava de forma tão escancarada e esplêndida. Há de se mencionar ainda o ótimo bridge que valoriza bastante o refrão.

"As Long As I Fall" foi o primeiro single e é uma daquelas músicas com a cara e a assinatura de Andi Deris. É uma power ballad agradável, ainda que um tanto quanto confusa. O refrão é legalzinho e há alguns pequenos brilhos instrumentais aqui e acolá. É a típica canção radiofônica, feita sob medida para satisfazer os interesses comerciais da banda e da gravadora. É, você sabe, toda banda tem que vender para sobreviver, mesmo que essa banda esteja na estrada há mais de duas décadas e que seja um dos principais expoentes do Heavy Metal. Será que com o dinheiro ganho por esses caras durante suas carreiras não seria possível sustentar confortavelmente pelo menos uma três gerações de suas famílias?

"Paint a New World" é outro petardo. Combina de forma assaz satisfatória um peso descomunal (em se tratando de Helloween) com belíssimas passagens melódicas. Aqui Andi Deris mostra toda a sua experiência ao não tentar forçar a sua voz para alcançar agudos que só Michael Kiske alcançaria. Para compensar esse aspecto técnico, Deris aposta na criatividade e na versatilidade. Suas linhas vocais são bastante inovadoras. Isso não significa que são necessariamente boas (em "Kill it", por exemplo, ele pisa na bola), mas que são necessariamente ousadas. É a maior prova de que cantar bem não é sinônimo de soltar agudos estridentes a cada dez segundos.

"Final Fortune" é uma música muito bem acabada. Desde o bem encaixado teclado atmosférico - que dá um toque especial à canção -, passando pelo pesado riff, pela agressiva interpretação de Andi Deris até o empolgante refrão, tudo soa harmonicamente. Aliás, o refrão é, apesar de grande, bastante dinâmico. Compor refrões pequenos e empolgantes é fácil. Difícil é não deixar que refrões grandes se tornem modorrentos.

Em "The Bells Of The Seven Hells", com exceção do refrão, nada salta aos ouvidos. É a faixa concebida para encher lingüiça. Sem uniformidade porque atira para todos os lados, ela fica no quase. O tempo e a qualidade das outras composições irão ofuscá-la. Isso se o Helloween não seguir os passos do Iron Maiden e, ao vivo, tocar aquilo que ninguém quer ouvir. De "Gambling With The Devil", "The Bells Of The Seven Hells" é talvez aquilo que ninguém quererá ouvir ao vivo.

"Fallen To Pieces" é uma semi-balada agradável. Nela, há arranjos bem criativos e até insólitos, além de ótimas dobradinhas de guitarra. Não obstante o correto uso do teclado, ele não é suficiente para salvar o refrão mais chato e genérico do álbum. "Fallen To Pieces", portanto, não chega a agradar plenamente e nem é uma completa decepção. É mediana.

"I.M.E." e "Can Do It" são as canções mais divertidas, descontraídas e dançantes do disco. A primeira é um hard rock bem acessível, daqueles que a banda acrescentou em seu estilo a partir da entrada de Andi Deris. A segunda é totalmente pop. Sua letra positiva, otimista e com um quê de auto-ajuda e sua melodia deveras palatável nos remetem aos velhos tempos do "happy, happy Helloween". Elas são demonstrações de que é possível resgatar a alegria e a infantilidade, no sentido mais puro da palavra, num meio que tem se tornado demasiadamente sério. O Heavy Metal não tem como destinatário apenas pessoas aborrecidas e macambúzias.
"Dreambound" é mais uma música admirável de "Gambling With The Devil". Seu andamento rápido realça um elogiável trabalho de guitarras. Por falar em guitarras, Michael Weikath e Sascha Gerstner beberam de fontes neoclássicas para compor o aprazível dueto que dá as caras lá pela metade da música. A semelhança das notas aqui tocadas com a escola malsmteeniana é impressionante. Bela sacada para escapar um pouco dos clichês do melódico.

"Heaven Tells No Lies" encerra um dos melhores CDs da discografia do Helloween de forma inspirada. Mais uma vez temos uma composição forte, vibrante, dinâmica e que em nada lembra o Helloween preguiçoso e desleixado de anos atrás. Não há buracos ou forçadas de barra na música. Todas as suas partes dialogam fluentemente, naturalmente e coesamente. Tecnicamente, Andi Deris, outra vez, chama atenção pela poderosa melódica vocal. As guitarras cantáveis também contribuem para legitimar a sensação de se estar ouvindo outra ótima canção.

Se é verdade que quanto maior a expectativa, maior é a decepção - a última parte do "Keeper of the Seven Keys" está aí para corroborar essa tese -, é também verdade que quanto menor é a expectativa, maior é a satisfação. E "Gambling With the Devil", sem alarde e sem estardalhaço, está aí para comprovar isso.


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Sobre Guilherme Vasconcelos Ferreira

Ano 2000. Então com 12 anos, entrei na secção de CDs de um supermercado para gastar o dinheiro da mesada que meu pai dera dias antes. Sem o mínimo de discernimento, deixei-me fascinar pela bela capa do Brave New World, do Iron Maiden. Não me decepcionei. Aqueles vocais operísticos e as guitarras melodiosas foram a porta de entrada para o heavy metal, estilo que muito contribuiu para a formação dos meus valores e da minha personalidade. Hoje, aos 21 anos, estou no último ano do curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e trabalho com assessoria política. A música pesada, porém, nunca me abandonou. Além da Donzela, nutro sincera paixão por Black Sabbath, Deep Purple, Dio, Metallica, AC/DC, Rush, Pink Floyd, Dream Theater, Judas Priest, Yes e Motörhead. As bandas emo, indie ou qualquer uma que tire onda de moderninha e bem comportadinha me exasperam profundamente. Odeio instrumentais paupérrimos e rebeldia de boutique. Rock n' roll existe para questionar noções consagradas de normalidade e tensionar padrões morais e estéticos dominantes. Para cultivar a estupidez e exaltar o artificialismo, já existe a música pop. Sim, sou um old school empedernido.

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