Helloween: querem que Deris cante como Kiske?
Resenha - Gambling With The Devil - Helloween
Por Thiago El Cid Cardim
Postado em 11 de março de 2008
Nota: 7 ![]()
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Tenho pena do Andi Deris. Juro. O camarada está à frente dos microfones do Helloween há quase quinze anos e, até hoje, as pessoas se referem a ele como "o novo vocalista da banda", tamanha foi a marca deixada por Michael Kiske em discos lendários como foram os "Keepers", verdadeiros definidores do que seria toda uma escola de heavy metal europeu. Mas não vamos nos enganar: não é apenas uma parcela insatisfeita de fãs que traça insistentes paralelos de Deris com Kiske, mas sim a própria banda – ou, no caso, um certo Michael Weikath, guitarrista e remanescente da formação original ao lado do baixista Markus Grosskopf.

Em sua maioria, as composições às quais Deris vinha sendo submetido nesta última década não privilegiam o seu estilo de voz, bem diferente dos límpidos agudos de Kiske: Deris canta mais agressivamente, mais rasgado, menos heavy metal melódico e bem mais hard rock, daquele hardão mais clássico tipo Deep Purple. Weikath parece querer que Deris cante músicas feitas para o Kiske. E o resultado acaba sendo catastrófico, com uma interpretação deslocada e sem personalidade. No fundo, chego a concordar com o colega Corrales, do Delfos, quando ele diz que o Deris é o cara certo na banda errada: tem um baita vozeirão, mas deram um monte de músicas equivocadas para que ele colocasse a voz.
"Master of Rings" (1994) e "The Time of The Oath" (1996) são bons discos, não nego. Gosto especialmente do segundo, power metal de altissima qualidade. E Deris entrega performances especialmente inspiradas. Mas me incomoda sentir o esforço que ele tem que fazer para se enquadrar num estilo que não é o seu. Isso tira boa parte da personalidade do grupo, faz com que fique no ar uma incômoda sensação de que algo ali é forçado, anti-natural, talvez tentando emular o que outrora foram os "Keepers". Seria a mesma coisa que presenciar o Iron Maiden tentando, em vão, gravar um novo "The Number of The Beast" ou "Powerslave". É hora de seguir em frente. Não quero dizer que seja necessário revolucionar, transformar-se em algo radicalmente diferente, virar uma banda punk ou um combo de música latina. Tampouco quero que eles se tornem o Blind Guardian ou o Edguy. Mas dá para manter suas raízes sem precisar soar um cover de si mesmo.
De seus últimos trabalhos, me agrada o marcante passo dado em "Rabbit Don’t Come Easy" (2003), que é notadamente um Helloween em busca de uma expressão mais própria, rumo ao futuro e desapegando-se de um passado que gerou tantas e tantas bandas similares e que, hoje em dia, parecem soar mais relevantes do que o próprio Helloween. "Dark Ride" (2000) é uma tentativa embaraçosa de fazê-los parecer mais sombrios e macabros, com resultado risível. E "Keeper of The Seven Keys: The Legacy" (2005) é uma pomposa e pretensiosa tentativa progressiva de, novamente, cutucar o passado. Não há necessidade de uma bobagem destas, como bem prova o interessante "Gambling With The Devil", lançamento do Helloween que poderia muito bem nortear os futuros rumos criativos do grupo. E me perdoem se só cheguei ao assunto de fato muitos parágrafos depois, mas a introdução se fazia necessária para explicar, por A + B, as minhas razões para enxergar este recente disco com tão bons olhos – concordem você ou não. O fórum está aí para isso! :-)
Depois da curtinha e divertida introdução narrada por Biff Byford, vocalista do Saxon (mas, afinal, por que diabos não convidaram o cara para cantar de fato em nenhuma música?), vem "Kill It". Não, não, não. Uma canção desnecessária, na qual Deris força um agudo de maneira que chega a ser cômica, lembrando os melhores momentos paródia-metálica do Detonator. Tentando parecer mais pesados do que de costume, meio thrash até, eles soam perdidos, sem eira e nem beira numa faixa que caberia muito melhor nas mãos dos conterrâneos do Primal Fear. Se a idéia era essa, a resposta do que funcionaria está algumas músicas à frente, em "I.M.E.", metal de ótimo gosto, quase tradicional mas com pitadas daquele tipo de hardão setentista no qual nosso simpático cantor fica mais à vontade. Bingo.
"Paint A New World", "Final Fortune" e "Fallen to Pieces" são outros exemplos de canções com excelente potencial, em parte desperdiçado por tentar adequar Deris ao jeito Kiske de ser – cuja voz mais limpa e de maior alcance agudo daria uma outra cara no frigir dos ovos. Não chegam a ser faixas que podem ser consideradas ruins, mas é nítida a necessidade, em determinados momentos, de muitas camadas de vozes ao lado da do frontman para disfarçar suas limitações pós-Keepers. Melhor ficar, então, com "The Saints", "Dreambounds" ou "The Bells Of The 7 Hells". Esta trinca forma o que costumo chamar de "power metal germânico genérico". Mas estão com tudo na medida certa, sem sobras, evitando maiores floreios progressivos e indo direto ao ponto, com força e intensidade para conquistar os bangers.
O segredo deste "Gambling With The Devil", no entanto, está em dois momentos-chave. O primeiro deles é a climática power ballad "As Long As I Fall" – que, para alguns, pode soar um tanto modernosa por fazer uso de determinadas nuances eletrônicas. Não comece a torcer as orelhas, porque é apenas uma salpicada mais do que adequada, engrossando o caldo quase hard rock que, aliado a um pianinho espertíssimo, prepara o terreno para um refrão pra lá de cativante. O mesmo tipo de refrão delicioso e provocante pode ser ouvido em "Can Do It". Você pode achar a letra até meio bobinha, mas é um tipo de canção positiva e alto-astral, happy happy helloween-style, que pouquíssimo se ouve nos dias de hoje em bolachas de heavy metal: "You can do it / There's nothing to it / If the whole damn world abandoned you / You´re the only one worth listening to". E vem o trechinho que promete incendiar os shows: "So, come one come on come on...come on come on…get on!". Ouvi a primeira vez e…bingo! Saí cantarolando imediatamente.
Apesar de ser fã declarado do Kiske, dentro ou fora do Helloween, tenho uma boa dose de simpatia pelo Deris desde o material que pude ouvir do Pink Cream 69. Nunca me pareceu justo vê-lo na posição de "substituto de luxo". Com este "Gambling With The Devil", a situação parece começar a se corrigir. Um brinde a isso – de preferência, com a melhor cerveja alemã possível.
Line up:
Andi Deris - Vocal
Michael Weikath - Guitarra
Sascha Gerstner - Guitarra
Markus Grosskopf - Baixo
Dani Löble – Bateria
Tracklist:
1. Crack The Riddle (Intro)
2. Kill It
3. The Saints
4. As Long As I Fall
5. Paint A New World
6. Final Fortune
7. The Bells Of The 7 Hells
8. Fallen To Pieces
9. I.M.E.
10. Can Do It
11. Dreambound
12. Heaven Tells No Lies
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