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Flavio Maranhao

Helloween: determinados a ser relevantes

Resenha - Gambling with the Devil - Helloween

Por Igor Natusch
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Não é de agora que os alemães do Helloween andavam dando motivos de preocupação para os seus fãs. Em uma análise rigorosa, pode-se dizer que desde "Better Than Raw" (1998) o grupo vinha dando algumas escorregadas – que, felizmente, eram amplamente suplantadas pelos acertos no disco em questão. No entanto, a espiral da abóbora passou a ser descendente, e acabamos presenteados com álbuns ora confusos ("The Dark Ride"), ora quase inúteis (como o disco de covers "Metal Jukebox"), quando não carentes mesmo de inspiração ("Rabbit Don’t Come Easy").

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Por fim, veio a muito infeliz idéia de gravar um CD duplo e chamá-lo "Keeper of the Seven Keys – The Legacy". Além de gerar imediatamente uma comparação severa com os dois maiores clássicos do Helloween, deixou ainda mais escancarada a falta de regularidade das composições em um disco apenas mediano. Depois de tudo isso, não surpreende que "Gambling with the Devil" seja recebido com considerável desconfiança por imprensa e público. E não é que o disco é uma pedrada, um trabalho de alto nível que chega a lembrar até os já um tanto velhos tempos de "Master of the Rings" e "Time of the Oath"?

Após a intro "Crack the Riddle" (que conta com a ilustre participação de Biff Byford, do Saxon, e lembra o início de "The Dark Ride", a música), temos "Kill It", uma faixa absolutamente demolidora. Andi Deris dá um show em diferentes entonações de voz, Dani Löble destruindo tudo na bateria e um clima que lembra "Push" do "Better than Raw", mas em uma música que consegue ser bem mais efetiva e empolgante. É uma faixa surpreendente, que cria uma alta expectativa para o que virá a seguir. E a seguir vem "The Saints", que deve ser uma composição de Michael Weikath, a julgar pelas características: bumbo duplo no talo, melodias aos montes e uma linha vocal marcante e grandiosa. Lembra "The Tune" (para mim, a melhor canção de "Rabbit Don’t Come Easy") e tem uma seção instrumental inspiradíssima, com duelos de guitarras empolgantes de Weikath e do já não tão novato Sascha Gerstner. Um ótimo começo, acreditem.

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"As Long As I Fall" é o primeiro single, e essa com certeza é música de Andi Deris – um ar hard rock conduz a música, que tem um refrão marcante e mais uma ótima seção instrumental. Aqui já fica claro qual é a do novo Helloween: fazer basicamente o mesmo que tem feito nos últimos anos, mas com uma qualidade muito superior ao que seu passado recente poderia dar a supor. Já "Paint A New World" é pesadíssima, com um timbre de guitarras saturado ao extremo e mais um grande desempenho de Deris. Parece que ele resolveu calar a boca da oposição de vez, e durante todo o disco sua convicção e versatilidade impressionam qualquer um que ouça sem idéias pré-concebidas. E na seqüência, "Final Fortune", uma pérola. Dizem que é uma composição de Markus Grosskopf, que nunca foi muito de escrever músicas para a banda, e se for mesmo eu bato palmas de pé para o homem – afinal, que música foda! Tudo nela é inspirado, bem construído e executado, um show de musicalidade e bom gosto. No momento, é minha música favorita, e vou agitar como um louco se tocarem esse petardo ao vivo!

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"The Bells of the Seven Hells" é uma música menos impactante, mas conta com um refrão simples e grudento, além de mais uma vez escancarar a qualidade de Dani Löble na bateria. O cara é um cavalo, capaz de arranjos criativos e variados mesmo nas partes mais velozes e complicadas, e acaba sendo um dos destaques do CD. Emendada com os sinos dos sete infernos, vem "Fallen to Pieces", uma semi-balada até interessante, que consegue superar o refrão chatinho (o mais fraco do CD, com certeza) com arranjos dinâmicos e mais um grande desempenho da cozinha – e eu digo desde sempre que Markus é um dos melhores baixistas que o Heavy Metal conhece, mas não reconhece. Uma seção instrumental bem pesada é inserida no meio, e acaba dando um pouco mais vibração para a música. Mais uma emenda entre faixas, e "I.M.E." surge, com mais um trabalho excepcional de guitarras a serviço de uma composição forte e marcante. Fugindo dos clichês estruturais do Metal melódico, temos riffs quebrados, bateria variada e um andamento não muito veloz, mas que conduz a música com perfeição. Essa deve ser daquelas que crescem no ouvinte à medida que vamos nos acostumando com ela.

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"Can Do It" é quase pop, mas mesmo assim é sensacional. Como parâmetro mais próximo de comparação, me ocorre "Living Ain’t No Crime", obscuro lado B que aparece apenas em coletâneas da banda. Ambas são grudentas, com linhas vocais que são inteiras um grande refrão (se é que me faço entender) e que são realçadas pelo peso do instrumental e pela inventividade dos solos de guitarra. Soa despretensioso, contagiante e sumamente divertido. "Dreambound" começa climática e evolui para mais uma canção de andamento veloz e grandes melodias vocais. Não chega a ser um som memorável, mas mantém alto o nível de um disco já muito bem cotado. Por fim, "Heaven Tells No Lies", uma música de bons arranjos (em especial na entrada da seção instrumental, de fato inspiradíssima) e com uma energia bastante positiva, ao contrário da maioria dos últimos encerramentos de disco do Helloween, que eram mais "down". Um bom encerramento para um trabalho de alto nível.

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De modo geral, o que surpreende positivamente no Helloween 2007 é a volta da empolgação. Era inevitável ouvir os últimos discos e ficar com um sentimento esquisito, como se as músicas fossem escritas por obrigação e o disco fosse apenas o cumprimento de um dever contratual. Aqui, definitivamente, não é o caso – e temos diante de nós uma banda determinada a ser relevante, a escrever boas músicas, a acrescentar algo nesses tempos tão confusos para o Heavy Metal e para a música em geral. "Gambling with the Devil" é um CD forte, vindo de uma banda que demonstra querer superar todas as dificuldades do passado recente e que ainda pode oferecer muito aos fãs de Metal.

Altamente recomendável.

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Sobre Igor Natusch

Igor Natusch é gaúcho, gremista, profissional de vídeo, jornalista, baixista e fã de Heavy Metal desde que se conhece por gente. Viciado no Metal oitentista, em especial NWOBHM, gasta boa parte do seu tempo livre pesquisando sobre bandas da época, tentando ao mesmo tempo não se desligar dos sons e novidades do presente. Apegado ao passado, ainda não tomou coragem para jogar fora suas fitas K7, embora já tenha substituído todas elas por arquivos mp3 há muito tempo. E nunca pintou a barba em toda a sua vida.

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