Resenha - Let It Be - Naked - Beatles

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Por Márcio Ribeiro
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Nota: 6

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Este novo lançamento da Apple Records é, em essência, um projeto de Paul McCartney, e como tal, tem como objetivo principal consertar o erro feito no Let it Be original, lançando as canções “Let It Be” e “The Long And Winding Road” com coro e orquestração. Na época, ao ouvir o resultado final entregue por Phil Spector, McCartney imediatamente barrou o projeto. Allan Klein, então empresário da banda, ignorou solenemente os protestos de Paul e autorizou o disco. Este foi o ato derradeiro que acabou encerrando os Beatles como um grupo e como uma empresa. Como disse o próprio McCartney, “Os ternos (os executivos) até então, mesmo que nos roubando, pelo menos não se metiam com a música.” Uma vez que esta linha foi cruzado, Paul se viu sem outra alternativa senão se desligar da orgainização Beatles como forma de proteger o material da banda das garras de Klein.
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O que isto tem a ver com este novo lançamento, o CD Let It Be – Naked? Segundo Paul, este é o disco que deveria ter sido lançado. O que este disco tem de diferente do Let It Be original? Muito pouco. E com rara excessão, as faixas são mais memoráveis no original. Se Naked deveria mostrar os Beatles como o projeto inicial intencionava, falhou miseravelmente, sem sequer chegar perto.

A grande queixa contra Phil Spector era que o projeto original ditava que os Beatles se apresentassem gravando ao vivo no estúdio, sem trucagens. De fato Phil, que pegou o projeto pelo meio, abandonou esta visão inteiramente. O resultado disto são por um lado as orquestrações e coro. Mas também são o acabamento em faixas como “I Me Mine” e “Across The Universe”, que nesta edição de Naked, permanecem. Sim, as orquestrações foram retiradas, mas continua não sendo os Beatles ao vivo no estúdio, “Across The Universe” tendo sido gravado em 1968, de forma tradicional, e “I Me Mine” sendo gravado sem a presença dos quatro Beatles no estúdio. John Lennon inclusive nem participa da faixa.

As demais faixas do álbum estão praticamente idênticas ao que consta no álbum Let It Be lançado em 1970. No entanto, todas aquelas falas entre as faixas, que davam certa graça, e que em si, eram uma novidade, pois desafiavam uma regra de procedimento em gravações, foram retiradas. “Get Back” perde aquele adendo final, tanto do compacto quando Paul fala sobre Jo-Jo, quanto a do disco, onde John agradece brincando pela audição. “Dig A Pony”, “I Got A Feeling”, e “One After 909” complementam o set tirado do telhado.

Deles, apenas “I Got A Feeling,” com vocais mais vivos do que a do álbum de 70, ganhou uma verdadeira melhora. “The Long And Winding Road” apesar da preferência do autor, não ganhou com a ausência da orquestra e coro. Paul McCartney no piano e Billy Preston no órgão não seguram a faixa, que agora nua, como o titulo do disco sugere, está mais para vazia. A versão ficou então ruim? Não! Em absoluto. A canção é linda e continua sendo. Mas é da minha opinião que a versão perdeu mais do que ganhou.

A orquestra realmente fez falta, se por nada, porque continuamos ouvindo sua ausência durante toda a canção, um mal sinal. Junto com o coro, está embuída no nosso consciente, a versão do álbum Let It Be de 1970, e não esta versão, que nos remete ao passado. Curiosamente, o mesmo problema não acontece com a faixa “Let It Be.” A canção se mostra ainda mais magnânima, o corinho de John e George ouvidos com ainda maior claridade.

O material vem ainda acompanhado de um segundo CD que contem um poupourri de ensaios, cortados em pedaços mínimos, a maioria com menos de dez segundos. Neles, os únicos que atraem algum interesse maior são “Because I Know You Love Me So”, uma composição de Lennon-McCartney ainda inédita, que figura em poquíssimos piratas. Ela também é a maior faixa incluida com 1:32, que não compreende a canção do começo ao fim. Outra perolazinha é “Can You Dig It?” com apenas 30 segundos disponíveis. Esta é a versão de “Dig It” gravada no dia anterior a aquela longa versão vista no filme e que tem alguns segundos aparecendo no álbum Let It Be de 1970. Esta versão é sensivelmente diferente, porém contém o adendo final aproveitado no disco original (“That’s ‘Can You Dig It?’ by Georgie Wood. And know, ‘Hark All The Angels Come.’”).

Como curiosidade para Beatlemaniacos, o álbum é mais um adendo para sua vasta coleção. Como um disco para ser ouvido pelas gerações futuras ou símbolo de versão verdadeira destas faixas, esqueça este disco, não perca seu tempo, é um embuche. Estas canções serão sempre lembrados pelas versões incluidas no álbum Let It Be, lançado em 1970. Como já se podia verificar na época do Anthology, as melhores versões são mesmo aquelas que foram parar nos discos. Nada mudou.

Let It Be - Naked

Get Back (2:34)
Dig A Pony (3:38)
For You Blue (2:28)
The Long And Winding Road (3:34)
Two Of Us (3:21)
I’ve Got A Feeling (3:31)
One After 909 (2:44)
Don’t Let Me Down (3:19)
I Me Mine (2:21)
Across The Universe (3:38)
Let It Be (3:54)

Fly On The Wall

Sun King (0:17)
Don't Let Me Down (0:39)
One After 909 (0:09)
Because I Know You Love Me So (1:32)
Don't Pass Me By (0:03)
Taking A Trip To Carolina (0:19)
John's Piano Piece (0:18)
Child Of Nature (0:24)
Back In The USSR (0:09)
Every Little Thing (0:09)
Don't Let Me Down (1:01)
All Things Must Pass (0:21)
She Came In Through The Bathroom Window (0:05)
Paul's Piano Piece (1:01)
Get Back (0:15)
Two Of Us (0:22)
Maggie Mae (0:22)
Fancy My Chances With You (0:27)
Can You Dig It? (0:31)
Get Back (0:32)

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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