Resenha - Let It Be... Naked - Beatles
Por Marcos A. M. Cruz
Postado em 23 de novembro de 2003
Nota: 10 ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Confesso que estava com uma certa ansiedade em resenhar um álbum "novo" dos BEATLES, e vez por outra me pegava imaginando estar no final dos anos sessenta, vivenciando todo aquele mundo em transformação, em que haviam bandas que, se não mudaram o mundo, nos faziam crer que isto seria possível.
Mas hoje os tempos são outros; naquela época as músicas não "vazavam" nos file-sharing da vida, a indústria dos bootlegs estava começando a engatinhar e a informação era bem mais difícil de ser obtida, o que aumentava ainda mais a ansiedade sobre um novo lançamento do quarteto formado por Lennon, McCartney, Harrison e Starr.
Por outro lado, o que temos aqui na realidade não se trata de material novo e fresquinho, mas sim de uma "remontagem" do "Let It Be", lançado originalmente em maio de 1970, e que de certa forma representou o canto-de-cisne da banda, apesar de ter sido gravado antes do "Abbey Road", que foi editado alguns meses antes.
A concepção original do projeto, realizado no início de 1969, seria uma espécie de "volta às raízes", e consistiria num álbum de Rock'N'Roll gravado ao vivo no estúdio, sem truques de mixagens ou overdubs, e um documentário sobre o processo de gravação, projeto este batizado na época de "Get Back", mas que seria abandonado logo no início devido às divergências cada vez maiores entre os quatro, que desembocaram no encerramento das atividades da banda, em abril de 1970.
Neste ínterim, decidiu-se que este material seria reaproveitado, e para isto foi chamado o produtor Phil Spector, que remixou e incluiu arranjos com orquestra em algumas faixas, resultando num trabalho que desagradou aos integrantes da banda, principalmente Paul, que tentou barrar o lançamento, mas não conseguiu, graças ao então empresário da banda, Allan Klein.
Com isto, fomentou-se no passar dos anos um grande mito em torno do que teria sido o resultado final do "Get Back", cujas sessões, por sinal, se tornariam uma das maiores fontes de material "pirata" do grupo.
Ao que tudo indicava inicialmente, o "Let It Be... Naked" mostraria ao mundo, pela primeira vez, qual era a intenção original, e para isto contribuiram declarações como as de Paul, que dizia que "tudo está exatamente como estava na sala de gravação".
Entretanto, a coisa não é bem assim, pois existem inúmeras edições, que em pouco tempo serão esmiuçadas pelos experts - com certeza já devem estar pipocando nos fóruns dedicados ao Fab Four mundo afora análises detalhadíssimas do material deste CD, coisas como quais overdubs foram feitos, qual instrumento foi extraído do take X e sobreposto no take Y para compor tal canção, etc.
Um bom exemplo é "Let It Be", cuja versão aqui presente foi claramente composta de mais de um take, assim como "Get Back", onde além de terem sido limados mais de 30 segundos, suspeita-se que tenham havido alguns pequenos "overdubs" feitos recentemente por Paul.
Na realidade, excetuando-se "The Long And Winding Road", "Let It Be" e "Across The Universe", que tiveram todas as "intervenções" de Spector suprimidas, as demais faixas, numa primeira audição, soam bastante similares às editadas no álbum original.
Inegável que a qualidade sonora esteja realmente superior ao original, inclusive em suas reedições posteriores em CD; porém, há momentos em que o som parece muito "moderno", e carece de uma certa naturalidade - seria mais ou menos como alguém recriando a Mona Lisa de Leonardo da Vinci no computador: ficará mais perfeito, tecnicamente falando, mas não trará o mesmo "clima".
Mas basta lembrar que nem Paul nem Ringo, tampouco George Martin, produtor original do grupo, trabalharam efetivamente neste projeto, que ficou a cargo dos engenheiros Allan Rouse, Paul Hicks e Guy Massey, dos estúdios Abbey Road, que tiveram liberdade total para mexer no que quisessem, logicamente tendo depois o resultado final aprovado por Paul & Cia.
Há algum tempo, um dos engenheiros afirmou numa entrevista que foram limados "todos os ruídos que normalmente acompanham as gravações de estúdio, os feitos pela própria equipe de filmagem, e até o som do vento nas gravações feitas na cobertura do estúdio da Apple".
Ou seja: de "Naked" o CD não traz nada, muito pelo contrário...
Quanto ao propalado bônus, uma das atrações seria uma versão de "Imagine" tocada por toda a banda, que não passa de um trecho isolado de menos de vinte segundos, que muito vagamente lembra o clássico de Lennon, perdido numa colagem de 22 minutos de duração com conversas e ensaios realizados durante as sessões de estúdio, que somente os fãs mais ardorosos vão poder apreciar, haja visto nenhuma música estar completa!
Em suma: um produto que vai vender, todos beatlemaníacos e boa parte do público em geral vão adquirir sua cópia. Mas se o disco de 1970 já se tratava de um desrespeito ao projeto original, este agora, além de não corrigir esta falha histórica, ao mesmo tempo faz crer que dificilmente o "Get Back", tal qual foi concebido, estará um dia disponível oficialmente.
Só ganhou dez pois a música continua sendo dos Beatles, e isto faz toda diferença...
Faixas:
Get Back (2:34)
Dig A Pony (3:38)
For You Blue (2:28)
The Long And Winding Road (3:34)
Two Of Us (3:21)
I've Got A Feeling (3:31)
One After 909 (2:44)
Don't Let Me Down (3:19)
I Me Mine (2:21)
Across The Universe (3:38)
Let It Be (3:54)
Total Time: 35:06
"Fly On The Wall" (CD bônus)
[todas as faixas são apenas "trechos"]
Sun King (0:17)
Don't Let Me Down (0:39)
One After 909 (0:09)
Because I Know You Love Me So (1:32)
Don't Pass Me By (0:03)
Taking A Trip To Carolina (0:19)
John's Piano Piece (0:18)
Child Of Nature (0:24)
Back In The USSR (0:09)
Every Little Thing (0:09)
Don't Let Me Down (1:01)
All Things Must Pass (0:21)
She Came In Through The Bathroom Window (0:05)
Paul's Piano Piece (1:01)
Get Back (0:15)
Two Of Us (0:22)
Maggie Mae (0:22)
Fancy My Chances With You (0:27)
Can You Dig It? (0:31)
Get Back (0:32)
Formação:
John Lennon (baixo, guitarra, piano, vocal)
Paul McCartney (baixo, piano, guitarra, vocal)
George Harrison (guitarra, vocal)
Ringo Starr (percussão, bateria)
Billy Preston (teclados)
Website oficial: www.thebeatles.com.
Outras resenhas de Let It Be... Naked - Beatles
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O subgênero essencial do rock que Phil Collins rejeita: "nunca gostei dessa música"
A conversa franca entre Angra e Fabio Lione que levou à saída do italiano, segundo Barbosa
A banda grunge de quem Kurt Cobain queria distância, e que acabou superando o Nirvana
O álbum que Regis Tadeu considera forte candidato a um dos melhores de 2026
O disco "odiado por 99,999% dos roquistas do metal" que Regis Tadeu adora
O álbum do U2 que para Bono não tem nenhuma música fraca, mas também é difícil de ouvir
O motivo que levou Fabio Lione a quase sair do Angra em 2023, segundo Marcelo Barbosa
A respeitosa opinião de Dave Mustaine sobre Ritchie Blackmore
A música surpreendente que "peitou" o sucesso do grunge no início dos anos 90
Blaze Bayley anuncia que não fará mais meet & greets e sessões de autógrafos gratuitas
Grammy omite Brent Hinds (Mastodon) da homenagem aos falecidos
Novo disco do Megadeth alcança o topo das paradas da Billboard
Andreas Kisser participa de novo álbum do Bruce Dickinson - sem tocar guitarra
A era do metal que Dave Mustaine odeia; "ainda bem que passou"
As bandas "pesadas" dos anos 80 que James Hetfield não suportava ouvir


A melhor música que Paul McCartney escreveu em todos os tempos, segundo John Lennon
A canção dos Beatles que foi inspirada pela música negra dos EUA, segundo John Lennon
As cinco bandas de rock favoritas de Jimi Hendrix; "Esse é o melhor grupo do mundo"
O álbum dos Beatles que não agradou George Martin nem Paul McCartney
John Lennon criou a primeira linha de baixo heavy metal da história?
O artista que The Edge colocou ao lado dos Beatles; "mudou o rumo da música"
O hit dos Beatles que é exemplo perfeito da diferença de estilos entre Lennon e McCartney
O baixista que, para Geddy Lee, está acima de Paul McCartney - e que o próprio Paul não nega
O álbum dos Beatles que George Martin dizia não fazer sentido
O clássico dos Beatles que marcou o início da trajetória de Bruce Dickinson como vocalista
Clássicos imortais: os 30 anos de Rust In Peace, uma das poucas unanimidades do metal


