Resenha - Live At Leeds - Who

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Por Guilherme Rodrigues
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03 de maio de 1970. Esta foi a data em que uma gravadora perpetrou uma das maiores safadezas contra uma Banda e seus fãs. Foi a data de lançamento do LP (alguém ainda lembra o que é isso?) “Live at Leeds”, que continha seis faixas, todas trazendo estalos dignos do chicote de um gaúcho com síndrome de latin lover ou de um ovo fritando naquela banha porca que vinha em tijolos brancos (mas que diabos é isso, Yer)... a própria Banda avisava na contracapa da bolacha que o disco era estalado mesmo; que não se tratava de defeito das “agulhas” (Deus meu!) ou dos aparelhos de som dos consumidores; que era um projeto meio “pirata”... por isso o layout da capa, a mixagem ruim, o som pior ainda... enfim, o disco era uma joça! Alguns alucinados, sobretudo da imprensa, começaram uma estória de que aquele era “o melhor álbum ao vivo da história do rock” até então... você sabe como é, o público sempre vai atrás desses blá-blá-blás, afinal o que está no jornal é verdade absoluta, senão não estaria no jornal... de maneiras que “Live at Leeds” alcançou o status de clássico instantâneo... quem viveu, comprou... e saiu repetindo a estória...
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Mas, peraí... anos depois eu também comprei... e saí repetindo a estória... “eu vi o futuro repetir o passado”... é que em meio aos coriscos que estalavam no céu preto do vinil e aos ovos chafurdando na banha de Leeds, num transe auditivo, eu (ou) vi dois narigudos; um, vestindo um macacão daqueles de frentista do manicômio, destruía cem guitarras por minuto na minha cabeça; o outro implodindo cada pedaço de razão que ainda pudesse restar num sub-desenvolvido crânio sul-americano com uma bateria que mais parecia uma máquina dos infernos... ah, sim... tinha ainda um contrabaixista que fazia com “seu instrumento” o que a gente poderia chamar de “justiça com as próprias mãos” e também um vocalista trajando uma camisa de braços cheios de franjinhas e que, quando não estava urrando no meus ouvidos, pensava que seu microfone era algum protótipo de helicóptero... como uma engrenagem bem azeitada, esse amálgama de feiúra, insanidade, suor, barulho, fúria e rock & roll jogava a pá de cal definitiva sobre os 60s, sepultando os Burt Bacharahs, Jose Felicianos e Sonny & Cher da vida pop e mandando a mainstream hippie e o tal de paz & amor pro diabo e para o LSD que lhes carregassem... eles se chamavam The Who, ou esse tal de rock & roll, como queira, e estavam ali em Leeds, cientes de que tinham uma (ir)responsabilidade para com aquela audiência... no palco, encarnavam uma outra História defronte de um público majoritariamente universitário que só conhecia as fábulas oficiais; aquelas vestidinhas de roupas de Domingo e que diziam ser o homem um animal pensante e necessariamente responsável para com seu futuro e o de seu próximo... do you think it s alright?... sheet, no!!! O futuro era daqui a um minuto e pensar demais lembrava Nixon, De Gaulle, Carrasco Azul, Vietnã, Praga, Paris e o “Brazil” sufocando sob bombas, tanques e escombros de “teorismos” de esquerda e “diretos” de direita... we re not gonna take it!!!... o narigudo pára e diz que um momento é suficiente pra durar uma eternidade, desde que seja bem alto! Volume, fúria e potência, é disso que se compõe a matéria do nosso momento imortal... a gente vai tatuar isso no seu cérebro... welcome to my life tatoo...

Depois de “Live at Leeds”, nada foi mais o mesmo, nem as bandas, nem os discos ao vivo, nem as platéias do rock, nem eu... o fato é que “Live at Leeds” foi o show parâmetro que todas as grandes bandas da mesma época tentaram alcançar, mas que permaneceu inatingível até 1995, quando as gravadoras lançaram um novo disco do Who, chamado... “Live at Leeds”!

Pois é, 25 anos depois do grande happening, os “guardiões da verdade” (nominalmente, a Polydor inglesa e a MCA americana), juntamente com Pete Townshend, resolveram que era hora de liberar um testemunho mais fiel do que foi aquela noite em “Leeds”, e dessa vez deixando que a fera mostrasse mais alguns dentes e mais incisivamente, para que eles ganhassem mais dinheiro. “Live at Leeds” foi remixado e remasterizado; os estalos “genuínos” foram mandados para Andrômeda (graças aos modernos artefatos da tecnologia); a versão foi solta com mais do dobro do tempo da versão original, contendo várias performances inéditas até então; e estamparam em todas revistas especializadas: “nova versão de Live at Leeds o transforma no maior disco ao vivo não só de sua era, mas de todos os tempos”. Faturaram novamente milhões em cima dos consumidores... right behind you, i see the millions... (só de vingança, a gente ganhou novamente milhões de alucinações ouvindo o “novo” Leeds), mas ainda não era o ponto final da saga do disco.

2001, novo milênio, nova oportunidade para uma odisséia no som e na fúria de Leeds, nova oportunidade para faturar uns milhõezinhos (novamente com a participação de Pete, que devia ouvir a letra de “Como nossos pais”, sobre aquela estória do vil metal...). Por que não lançaram essa versão em 1995?

Sempre disseram que o grande legado do Who foi “Tommy” - John Entwistle contava que antes de “Leeds”, grande parte do público achava que o nome da Banda era “Tommy” e o disco é que se chamava The Who -, e disso sempre discordei... lembro até que numa rodinha de rockers quase saiu porrada numa discussão sobre qual disco era melhor ou mais importante... “uma heresia isso, Yer, “Leeds” nem pode ser comparado com “Tommy””... doces tempos do far niente... como que presentes na quase porradaria entre mim, “Leedsmaníaco”, e Nelson, meu amigo “Tommysta”, as gravadoras resolveram soltar o show na íntegra, todas as performances que rolaram naquela noite do pretérito mais que perfeito, incluindo “Tommy” quase na íntegra (as faixas “Cousin Kevin”, “Underture” e “Welcome” não constam desta versão ao vivo, pelo menos não na forma em que aparecem em “Tommy”). “Leeds” e “Tommy”, juntos... Gosh... será possível?

E lá ia eu me preparando psicologicamente para gastar umas 90 pilas comprando - de novo! - a “nova” versão importada de “Live At Leeds”, quando, andando a esmo pelas lojas de cd desta Capital da Minas paralela e litorânea, ou seja, Vitória, me deparei, assim sem mais, com o novo testamento... “Live at Leeds, Deluxe Edition”... listening to you I get the music... e era como se ele, o cd, estivesse ali, a olhar para mim, a injetar novas cores na tatuagem dentro, a me convidar para a “Amazing Journey”, a me apresentar às novas “Acid Queen” e “Sally Simpson”, enfim, a me apresentar um novo “Tommy”, o Tommy de “Leeds”, louco, irado, brutal, maravilhoso... carne, ossos e rock & roll... (apesar de minha passageira raiva dele, é hilariante a introdução que Pete faz para “Thomas”, a proto-ópera, pop ópera, rock toper... roqueteer... wathever)... tudo isso em versão nacional!!! Minha indignação de consumidor não resistiu... saquei do cartão e tomei o Magic Bus... No caminho, passei na casa do velho “Tommysta” e, juntos, fomos novamente à “Leeds”, 1970, para desfazer as diferenças... lá, ele, convertido à boa nova, me perguntou: pô brother, engraçado, como um pedaço da eternidade pode caber dentro de um cd? O que eu podia falar?... man, I can`t explain...

Nota para o disco: 10. Nota para a remixagem, remasterização e eliminação dos estalos da versão original: 10. Nota para o encarte: 05 (nada acrescenta ao encarte da versão de 1995). Nota para o oportunismo das gravadoras e de Pete Townshend: 0. Nota para a Universal (Brasil) por lançar a versão nacional do disco: 10.

(P.S.: esqueça “The Who Live at the Isle of Wight”!)

R.I.P. John.

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