Metallica: o passo a passo da banda até se tornar uma caricatura de si mesma
Por Mateus Ribeiro
Postado em 15 de setembro de 2020
O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.
O METALLICA é uma das bandas mais conhecidas da história do heavy metal. Se hoje o grupo faz sucesso com um som água com açúcar, no passado James e sua turma já foram os maiores expoentes do thrash metal, por conta de seus primeiro discos, os lendários "Kill ‘Em All" (1983), "Ride The Lightning" (1984) e "Master Of Puppets" (1986). Foi com esses trabalhos maravilhosos que o METALLICA chocou o mundo, apresentando um tipo de som insano, que misturava rapidez, raiva, peso e a partir do segundo disco, um pouco de melodia.
A consequência de um trabalho tão inovador e bem feito não poderia ser outra: o METALLICA construiu uma legião de fãs ao redor do mundo, que compravam o material da banda e esgotavam os ingressos para as apresentações. Naquelas alturas, não era nenhum exagero afirmar que o METALLICA estava no topo do mundo, apesar do pouco tempo de carreira. Não é pouca coisa, em um tempo tão curto, ter lançado algum dos maiores clássicos do metal.
Infelizmente, o baixista Cliff Burton morreu em setembro de 1986 e a banda nunca mais foi a mesma. Apesar do excelente "...And Justice For All" (último disco de thrash da banda) e do bem sucedido "Metallica", o que veio dali em diante foi uma ladeira sem fim. O METALLICA, que havia ajudado a mudar a historia do metal, começou a mudar a sua própria historia, mas de um jeito controverso.
Após anos lançando álbuns em pequenos intervalos de tempo, o METALLICA levou cinco anos entre o disco que leva seu nome e "Load". A expectativa era grande, afinal de contas, o "Black Album" vendeu muito bem e rendeu uma turnê extensa. Mesmo com um som bem mais leve, os caras davam um caldo. Porém, esse caldo azedou logo que o polêmico "Load" foi lançado.
Ao ouvir o disco, é nítido que os caras tiraram o pé. As músicas ainda tinham um pouco (bem pouco mesmo) de peso, mas se for comparar com o que os mesmos caras haviam feito 8 anos antes, o susto é inevitável. Particularmente, não acho "Load" uma desgraça completa. Até gosto de ouvir e acho "The Outlaw Torn" e "Until It Sleeps" duas músicas do caralho. Porém, confesso que até hoje, é meio foda entender "Mama Said" ( uma música COUNTRY), que apesar de ter sua beleza, é a tradução perfeita de que o METALLICA estava a fim de mandar um tiro de meta no seu passado.
O próximo álbum, "Reload", é uma espécie de "Load" esquentado no micro-ondas, pois traz músicas que não foram utilizadas no disco de 1996. E se o "titular" não agradou, o "reserva" enfim conseguiu transformar o METALLICA em uma piada sem a mínima graça. Se não fosse pela segunda parte de "Unforgiven" e pela agitada (porém bobinha) "Fuel", o sétimo disco do METALLICA seria digno de uma nota negativa. A horrível "Low Man´s Lyric" coroa essa fase nebulosa da banda.
É compreensível que após dominar o mundo fazendo thrash metal, o METALLICA tenha decidido mudar e tornar o seu som mais leve e mais acessível. Por outro lado, nenhum fã é obrigado a gostar ou achar essa mudança a coisa mais linda do mundo. Sem contar que com "Black Album", o METALLICA viu que era possível mudar o som e encher o bolso fazendo música pesada, e não escrevendo rock bunda pronto para tocar em rádio FM que alterna hits da Shakira e trilhas de filme adolescentes em sua programação.
Em 1998, a banda limpou um pouco sua imagem com "Garage Inc.", um disco de covers que traz versões bem sacadas. Não é a oitava maravilha do mundo, mas vale alguns bons momentos, principalmente as versões para "Sabbra Cadabra", "It´s Electric" e o medley de músicas do MERCYFUL FATE.
Já no final do século, em 1999, é lançado "S&M", disco ao vivo gravado com a Orquestra Sinfônica de San Francisco. Um trabalho legal, que tem belos arranjos, um repertório legal, mas por outro lado, mostra que Lars já não dava mais tanta atenção para seu instrumento, o que viria a se tornar uma marca registrada nos anos seguintes. No final das contas, é um disco ok e se fosse o último trabalho da banda, encerraria a carreira de uma forma digna.
O século virou, o METALLICA meteu o pé em Jason Newsted e lançou em 2003 "St. Anger", o pior álbum lançado por uma banda do primeiro escalão do metal (ou do rock, já que naquelas alturas, o som dos caras poderia ser considerado como qualquer coisa, menos metal). Se o fã insistente achou que com "Load" e "Reload", o METALLICA havia testado sua paciência, "St. Anger" veio para mostrar que os outrora quatro cavaleiros ainda tinham um grande arsenal para tirar uma com a cara do ouvinte.
Não há como salvar "St. Anger". As músicas são chatas, sem punch, a produção é horrorosa, os solos de guitarra sumiram, junto com o sangue e o feeling. Um trabalho constrangedor, que conseguiu jogar a reputação que a banda tinha no lixo, ou na lata que o Lars batucou para fazer a bateria das horrorosas "Frantic", "St. Anger" ou "All Within My Hands". Mesmo assim, há quem defenda o indefensável.
A partir daquele momento, o METALLICA escancarou que só havia duas maneiras de se esperar alguma coisa deles: sendo muito fanboy ou muito otário (apesar de uma coisa ser bem próxima da outra). O lançamento do cansativo "Death Magnetic" conseguiu agradar tanto um quanto o outro. Alguns fãs mais empolgados chegaram a afirmar que o disco era uma volta às origens, mas no fundo, o único mérito do nono disco do METALLICA é ser melhor que "St. Anger", o que está longe de ser tarefa difícil. Um trabalho cansativo, demasiadamente longo, mas que tem "All Nightmare Long" e "The Unforgiven III", que de fato, são legais, mas nada que vá mudar a cotação do dólar.
No começo desta década, o METALLICA arrumou tempo para escrever "LULU", em parceria com Lou Reed. O disco é experimental, meio esquisito, mas nessa altura do campeonato, se o METALLICA fizesse um show em conjunto com o Sambô, eu acharia normal. Que me perdoem os fãs de Lou Reed, mas eu acho "Lulu" um disco chato e perturbador (no pior dos sentidos).
Enfim, em 2016, sai mais um disco sem ser de covers ou escrito junto com algum convidado. Intitulado "Hardwired... To Self -Destruct", o então mais recente trabalho de estúdio da banda californiana segue bem a receita de seu antecessor "Death Magnetic": uma guitarra pesada aqui, outra ali, um ou outro gritinho de James, toques de malvadeza, Lars e Kirk previsíveis ao extremo. A base de fãs iria ficar contente com as músicas plastificadas, extremamente longas e sem graça, com a desculpa de que o METALLICA ainda soava pesado.
Chegamos ao ponto que em 20 anos, a banda havia lançado TRÊS discos de estúdio, sendo que o último se parece com uma cópia do penúltimo. Como se não bastasse a falta de criatividade e de feeling, em 2019 sai o acústico "Helping Hands... Live & Acoustic At The Masonic", que traz versões tenebrosas e dispensáveis de clássicos da banda. Aliás, o que fizeram com "Disposable Heroes" já era suficiente para colocar fogo na discografia dos caras.
Um ponto "positivo" é que o METALLICA não encontra o fim de seu poço nunca. A versão desgraçada que fizeram de "Blackened" é uma bela prova de que sempre é possível destruir uma obra, por mais bela que seja. Estragar as próprias músicas parece ter virado um hábito.
A última atrocidade cometida por esta banda que usa o nome de METALLICA até hoje foi "S&M2", que como bem sugere o nome, é outro trabalho gravado com a Orquestra Sinfônica de San Francisco. Além de não ser uma novidade, as músicas "inéditas" em sua maioria, são dos discos mais recentes de estúdio e não empolgam nem um pouco.
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É difícil defender o METALLICA de tempos pra cá, principalmente nas últimas duas décadas. Curiosamente, os shows da banda continuam lotando estádios, mesmo que as apresentações não tenham o mínimo punch, ainda existem muitas pessoas que se interessam pelo grupo. E o METALLICA, que não é bobo, percebeu que independente do que fizer, vai ter o apoio de seus fieis seguidores.
É claro que para a banda, as coisas estão confortáveis. Os fãs cegos garantem uma receita gorda e passam pano para todas as cagadas que o METALLICA faz. Sendo assim, fica mais fácil cometer essas presepadas como um disco de new metal, apresentações sem graça, versões terríveis para clássicos do passado e lançamentos repetitivos e sem alma. O que já foi a maior banda de metal do planeta, é uma caricatura de si mesma. Uma caricatura muito rica e cada vez mais insuportável (como seus fãs).
Obrigado pela paciência e até a próxima.
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