Heavy Metal: Quando o Surf também radicaliza no som

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Por Roberto Muñoz, Fonte: rvca
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Então surgiu Christian Fletcher, EUA, nos 80’s. Aquele que ficou conhecido como o “Godfather of air surfing”, pouco se importava com padrões estabelecidos dentro do status quo vigente no mundo surf. Skate radical, surf aéreo, punk rock, heavy metal, tudo isto vivenciado intensamente por um surfista que assombraria o mundo pela sua coerência dentro de uma proposta sem concessões.

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Andy Irons, um dos maiores surfistas profissionais da história mundial, considera Christian Fletcher um surfista “really fresh”. Alguém que rejuvenesce dentro de seus próprios termos, está, ‘¡por supuesto!’, ligado à própria essência. Já Bruce Irons, irmão mais novo de Andy, assistia numa boa algumas manobras de Fletcher no vídeo. Porém, quando deparou-se com um aéreo indescritível, mudou tanto a expressão de sua face quanto a sua voz. Chega a ser engraçado perceber tamanha transformação num semblante. As duas entrevistas no vídeo abaixo.

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No Brasil, os constrangimentos sociais sofridos pelos surfistas nos 70’s – do tipo “coisa de vagabundo” entre outras bobagens – foram muito amenizados já no princípio da nova década justamente por meio de um filme brasileiro. “Menino do Rio”, 1981, dir. Antônio Calmon, fez história. Os atores André De Biasi, Ricardo Graça Mello e Evandro Mesquita comandam a turma sob a tutela de Calmon, em uma direção sempre atenta e sensível às particularidades da cultura Surf. Início de uma época onde as “surfshops” pulularam nos grandes centros brasileiros, fato muito estimulado também, além do filme, pelas famosas festas surf nos 80’s.

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Monocultura funciona assim, dentro da mônada os nativos nada percebem de questões alheias. Com o filme de Antônio Calmon e produção da família Barreto, os brasileiros descobriram que o surf existia de maneira digna. Mas quando não foi? Enquanto na América já aparecia um garoto altamente underground, como Fletcher, à margem da poderosa indústria multinacional do ramo, a brasilidade aprendia o be-á-bá do esquema. Existe indústria própria brasileira de porte multinacional que nunca quebra, além do Futebol e das Festas Carnavalescas? Sim, o brasileiro “aaama” carro$... Lamentável o descaso da nação diante da Gurgel Motores.

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As festas surf aconteciam direto em Porto Alegre nos 80’s em clubes renomados como a Sogipa, Grêmio Náutico União, Lindóia Tênis Clube. Muita surf music, mas também VAN HALEN, SCORPIONS, WHITESNAKE, entre outras bandas Rock’n’Roll. Mas as melhores festas bradavam o estilo surf no clube Veleiros, zona sul da capital. Bandas tocavam ao vivo, na maioria das vezes o rock bicho-grilo da banda TARANATIRIÇA, com seu astral ‘mucho loco’. A galera adorava o “TARA”, banda local, etc. A atmosfera das festas era incrível, muita tranquilidade, desprendimento, e BOB MARLEY agradecendo a preferência.

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Christian Fletcher tornou-se um ícone do “surf-rebel extremism”. E com todas as glórias, que falam por si mesmas. Foi um dos pioneiros a evidenciar dentro do surf um novo espaço para as radicalidades – o ar. Depois, todos os outros surfistas aprenderam como funcionavam tais manobras. Cabeludo, careca, moicano, tatuado, e com um sotaque interessante, ou seja, acima de rotulagens também estéticas no decorrer de seu especial percurso. Sua imagem não era dissonante de sua atitude, no skate, ou no surf. Aventureiro, livre e afirmativo em suas escolhas. Impossível passar desapercebido.

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Alguém imagina o rebeldaço escritor Charles Bukowski trabalhando numa repartição pública literária? Pois é. Causa estranheza também observar Fletcher tentando surfar em ondas criadas artificialmente, vídeo acima. Claro, Kelly Slater já foi onze vezes campeão mundial, sem comentários diante de tal exuberância, mas Fletcher remete-nos a outro tipo de “modus vivendi”. Uma rápida audição nas músicas dos vídeos e nota-se, de imediato, o nível da pauleira. Sejam os vídeos realizados pelo cara, família, ou terceiros, a proposta sonora é mui semelhante. Eis o seu estilo.

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Roberto Muñoz, escritor

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Sobre Roberto Muñoz

Roberto Muñoz é escritor, 49, gaúcho de Porto Alegre. Pós-graduado em Cinema/ PUC-RS, integrou a equipe de direção do curta-metragem “A Vida do Outro”, 1997, realizado pelos alunos do curso, filme premiado com Candango de melhor roteiro, 16 mm/ Festival de Brasília-1997 e com Kikito de melhor atriz, 16 mm/ Festival de Gramado-1998. Com três obras ainda inéditas sobre metafísica, poética e outros assuntos existenciais, o autor já tem artigos publicados no Jornal do Brasil, Correio do Povo e Zero Hora.

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