MCMLXXXIV: o disco que rachou o Van Halen pra sempre p.1
Por Nacho Belgrande
Fonte: Site do LoKaos Rock Show
Postado em 28 de janeiro de 2012
Por John Scanlan para a CLASSIC ROCK, traduzido por Nacho Belgrande
Brigar com o The Clash, gravar com Jacko, trocar guitarras por sintetizadores – com o trem da ‘era Roth’ do VAN HALEN saiu dos trilhos: os maus agouros que construíram o clássico ‘1984’.
O vocalista, em uma de suas muitas loucas aventuras, está perdido na floresta amazônica semanas antes do maior show que a banda jamais tocará. O guitarrista está ameaçando queimar as fitas máster do novo disco, que está demorando bem mais do que os cinco dias habituais. Insultos embriagados serão trocados com o The Clash em um festival que supostamente celebra o amor fraternal e a união.
Ainda assim, pro resto do mundo, as coisas parecem tranqüilas – aqui está o VAN HALEN, aparentemente amado e odiado na mesma proporção. Uma ruidosa gangue de zombeteiros unidos pelo desejo de se divertir num mundo que se leva a sério demais – "como um bando de ciganos no meio da legião estrangeira", diria o vocalista. E, no papel de recentes recebedores do maior cachê já pago para qualquer artista – US$1,5 milhão – para uma zona de duas horas regadas a cachaça tocando suas músicas mais famosas que os coloca no Guiness Book of World Records – eles têm toda razão para sentirem-se relaxados quanto à sua situação.
Mas agora, no verão de 1983, os anos 70 – e a vida livre que aquela década tinha prometido – parecem finalmente ter terminado. De repente, os desafios tinham aumentado. Com a MTV em ascensão, a gravadora agora quer hits garantidos que estourem nas paradas pop.
Foi bem aqui, com ‘1984’, o último long play da banda com sua formação original – que o Van Halen soube que estava lidando com algo grande.
Tudo que eles tinham que fazer era terminar o fatídico ano que abrangeu o progresso de sua obra.
Escondido no alto das colinas de Hollywood e a apenas alguns KM da vizinhança rock n’ roll mais famosa de Laurel Canyon, você irá encontrar o Coldwater Canyon. Dos muitos cânions de Los Angeles, era nesse que os realmente abastados preferiam se esconder do barulho de Hollywood. Enquanto Neil Young, Frank Zappa e outros ícones dos anos 60 mudavam pra Laurel Canyon, os astros do cinema em melhor situação – Marlon Brando, Charlton Heston – ficavam em Coldwater. À medida que a estrada serpentina rumo a Studio City vinda da Mulholland Drive, até o mais atento motorista passará batido por uma viela estreita que adentra è direita em uma curva particularmente fechada. Ela rapidamente desaparece em meio a folhagens e galhos suspensos.
Aqui, em 1983, Eddie Van Halen construiu um rudimentar estúdio de 16 canais, em uma tentativa de tomar controle da banda que emprestava o nome de sua família da influência de David Lee Roth, o parceiro de composição que ele logo estaria comparando a ditadores como Idi Amim e o coronel Gaddafi.
Enquanto outras pessoas procuravam por um lar, Eddie – também conhecido como ‘o unabomber’, tal como David Lee Roth o chamava – estava atrás de um refúgio. Nos anos que se passaram desde seu último disco, o mal-recebido ‘Van Halen III’, de 1998, houve infindáveis histórias sobre fãs peregrinando àquela viela que sai de Coldwater Canyon procurando por nada além de uma câmera de segurança que pudesse captar uma mensagem – ‘POR FAVOR, LANCE MÚSICAS NOVAS’ – na esperança que o recluso guitarrista pudesse ver que ainda há um mundo assistindo do outro lado do portão.
Tamanha falta de atividade, claro, é compreensível entre homens de certa idade – aqueles que já viram dias melhores e que talvez permaneçam chocados com a lenta morte da indústria fonográfica que eles conhecem.
Mesmo assim, o desaparecimento do Van Halen também traz grandes pistas de seu enorme sucesso nos anos 70 e começo dos anos 80: resumindo, eles eram a personificação de um desejo insaciável de viver e tocar rápida e livremente. Mesmo a capa de 1984 – adornada com a imagem de um espírito transgressor – sugere que essa era uma banda que poderia ter problemas com o processo de envelhecimento. "Eu odeio a palavra ‘amadurecimento’", Roth disse à revista estadunidense Rolling Stone em 1978. "Eu não gosto da palavra evoluir, ou qualquer coisa do tipo. A idéia é manter as coisas tão simples, inocentes e burras quanto possível."
Era uma postura que combinava perfeitamente com o modus operandi do Van Halen de 1977-1982, com discos que eram às vezes gravados em poucos dias, ou – quando muito – semanas. Em suas primeiras demos para a Warner, o engenheiro da banda, Donn Landee lembra que a banda gravou ’28 faixas em duas horas’. Em um tempo onde as bandas se viam presas no estúdio, maquinando eternamente, o produtor Ted Templeman assegurava-se que o processo chegasse até o estúdio semi-pronto, para que o material novo fosse gravado com o mínimo de complicação. "Só o que eu tenho que fazer", ele disse certa vez, "é colocar um microfone na frente deles."
No fim de 1982, ano do álbum ‘Diver Down’, contudo, Eddie tinha decidido que deveria haver um fim para a abordagem rápida e suja de Templeman e Roth no trabalho de estúdio. Isso era inusitado pelo fato daquele disco TR sido concebido e gravado por um custo menor que o disco de estréia da banda. Uma impressão desse mesmo disco feita pelo jornalista estadunidense Dave Queen em 2005, não deve estar longe do que Eddie pensava: "’Diver Down’, onde o maconheiro vocalista David Lee Roth controlou tudo, incluía cinco covers – com seus fragmentos, sketches e gracejos incompreensíveis. ‘Diver Down’ é como um lançamento não-oficial de ‘Smiley/Smile’ «dos Beach Boys». Para acalmar o guitarrista, um detalhe de sua famosa guitarra adesivada com esparadrapos era a capa."
Segue…
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