The Rising Sons

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Por Márcio Ribeiro
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O que você precisa para fazer sucesso na indústria fonográfica? A maioria provavelmente pensaria “talento”, tenho certeza. Infelizmente talento você só precisa se quiser continuar na indústria, mas para chegar "lá" você precisa mesmo é de sorte, além de uma máquina jogando a seu favor. Mesmo com talento, se a máquina resolver jogar contra, o resultado geralmente é muito frustrante. Esta é a história de uma banda da California esquecida pelo tempo chamada The Rising Sons.

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Ry Cooder, Taj Mahal, Kevin Keyy, Jesse Kincaid e Gary Marker
Ry Cooder, Taj Mahal, Kevin Keyy, Jesse Kincaid e Gary Marker

A história começa com um rapaz da California chamado Jesse Lee Kincaid, um apaixonado por folk desde pequeno. Pupilo de seu tio Fred Gerlach, um hábil violonista se tratando de doze cordas, chegando até a lançar dois discos seus. Jesse aprendeu bem tudo que seu tio Fred lhe ensinou, se tornando igualmente hábil e criativo nas doze cordas. Fred Gerlach trabalhou como engenheiro de som do disco “Pure Religion & Bad Company” do bluesman Reverendo Gary Davis e o contato facilitou um acerto para que o bom Reverendo deixe o sobrinho Jessie lhe acompanhar para aprofundar sua maestria no instrumento. Assim, Jessie tirou o restante do ano de 1963 para seguir em direção ao leste com Davis, tocando e aprendendo sobre a vida de um músico na estrada.

Jessie Kincaid ao deixar a companhia de Davis, segue norte parando em Massachusetts. Apesar de sua educação em folk e blues, Jessie foi tomado pelo pop que passava a imperar nas rádios graças à chegada dos Beatles na cena musical da America em fevereiro de 1964. Foi tocando em Cambridge, em um lugar chamado Club 47, que Jessie veio a conhecer outro amante de folk e blues chamado Henry St. Clair Fredericks. Henry acabara de se formar em agronomia mas queria tentar a sorte como músico e portanto estipulara dedicar cinco anos de sua vida para este fim. Henry então criou seu nome artístico, Taj Mahal. Jessie e Taj rapidamente se tornaram amigos e resolveram formar uma dupla, seguindo em direção da California onde havia uma cena folk mais forte. Tocando em bares espalhados pela Route 66, estrada que conecta as pontas do país, chegam em Los Angeles, se fixando em Ash Grove, reduto estudantil e ponto folk da cidade naquela época.

Haviam muitos eventos artísticos acontecendo em Ash Grove, o lugar sendo uma plataforma para talentos emergentes. Entre os folkies que passaram por lá estão Jorma Kaukonen (futuro Jefferson Airplane), PigPen McKernan (futuro Grateful Dead), Al Wilson (futuro Canned Heat), e Linda Rondstat. Tanto Taj quanto Jesse tocavam com outro grupos além de ter seu repertório como dupla. Após assistir a dupla Taj & Jessie, um menino de dezessete anos que também freqüentava Ash Grove chamado Ryland Cooder, veio conversar. Ry era amigo de Jessie e também fora aluno de Fred Gerlach. Naturalmente pegaram os violões para tocar, Ry mostrando que já nesta idade, sua técnica e habilidade era admirável. Logo passaram a tocar juntos se tornando um trio. Por conta de uma feira musical organizada pela fabrica da guitarras Martin para ajudar a impulsionar as vendas de seus modelos, a banda ainda sem nome, faz sua primeira apresentação oficial. Ry trouxe seu amigo Gary Marker que acabara de voltar do Berklee School of Music, para tocar baixo, se apresentando sem baterista.

Sem premeditarem, eles se destacaram tremendamente pelo visual e proposta musical. O ano sendo ainda 1964, a maioria das bandas a se apresentar usavam roupas de palco combinando e um set montado onde todos praticamente tocavam variações do mesmo repertório. O grupo, quebrando este molde, usava roupas comum e tocava um repertório misto de folk e blues eletrificado, vertente pouco explorado, com somente os ingleses Rolling Stones fazendo uso deste tipo de repertório na America. Não havia ainda Buffalo Springfield, Lovin’ Spoonful ou Byrds, embora não demoraria muito para eles surgirem.

A aceitação do público para esta proposta musical foi relativamente boa, o que consolida a perspectiva de se formar uma banda. O grupo passa a ter a certeza que o caminho a seguir era mesmo o de utilizar instrumentos elétricos como guitarras e teclados no lugar de acústicos. Jessie batiza o grupo de The Rising Sons e começam a tocar regularmente em Ash Grove. Taj definiu a direção escolhida como sendo a de tocar um som centralizado no folk, o principal foco em comum de todos, mas que englobaria o country e o blues do Mississippi. Jessie oferece ainda para o molho, seu lado pop pesadamente influenciado nos Beatles e Bob Dylan. Jessie compõem com Taj alguns números dividindo com toda a banda os créditos pelo arranjo.

Só faltava um baterista, que foi o próximo a entrar na banda, trazido por Gary Marker. Seu nome é Ed Cassidy, um baterista de jazz com quase quarenta anos, que passa a ser o roqueiro mais velho do rock. A banda chega a chamar certa atenção pelos arredores de Los Angeles por ser montada com um negro e dois brancos amantes de blues, country, folk e pop, mais uma cozinha (baixo e bateria) jazzista, tentando entrar em um mercado pop onde predominam nas dez mais do hit parade atrações como Peter, Paul & Mary, Sonny & Cher, Lesley Gore e as incontáveis contribuições de Phil Spector. O fato de terem um musico negro tocando entre brancos se mostrou motivo para certas casas recusarem a banda. A mentalidade segregadora aceitava conjuntos de negros ou de brancos, mas nunca mistos, idéia demasiadamente assustadora. O repertório misturado também era causa para algumas pessoas inicialmente estranharem, the Rising Sons executando canções de country como “Tulsa County” seguidos por r&b de Louisiana como “Let The Good Times Roll”, blues tradicional como “Dust My Broom” e folk-rock como em “Four In The Morning”, tudo lado-a-lado com igual importância e capricho.

Com a chegada de 1965, toda a cena musical já estava gravitando para instrumentos elétricos, os velhos folkies pendendo para o que passou a ser chamado de folk rock. A aceitação para o tipo de proposta musical praticada pelo Rising Sons ganha cada vez mais adeptos. Conta-se que no final de uma das apresentações da banda no famoso clube The Troubadour, um garoto conhecido pelo nome de David Crosby, iniciou um coro de “Long live the Rising Sons” que se alastrou por toda a casa. Começavam a surgir bandas como the Byrds, the Association, the Turtles, Paul Revere & the Raiders, Captain Beefheart & His Magic Band, the Lovin’ Spoonful, e logo mais, viriam ainda Love, Big Brothers & the Holding Company e o Paul Butterfield Blues Band. Atrás deles vieram as gravadoras.

Depois de um artigo altamente positivo na revista Rolling Stone, começaram a aparecer representantes de diferentes gravadoras para ouvir the Rising Sons e puxar conversa. Neste período a banda gravou varias fitas demos para diversos selos tais como a Warner, Capitol, Elecktra, e assinando finalmente com o Allen Stanton da Columbia em junho de 1965. A decisão de assinar com a Columbia seria amargurada por todos e a opção logo mostrou seus sinais negativos. No primeiro ensaio geral no estúdio para a equipe técnica da Columbia e a banda se conhecerem melhor, um incidente se mostrou um omen negativo. A banda começava a decolar em sua versão para “Down in the Bottom” quando Ry começou a tocar seu bottleneck guitar. Perplexo com o que ouvia, o engenheiro de som Allen Stanton mandou parar querendo saber porque a guitarra tinha aquele som esquisito. Ficou claro que a gravadora não entendia absolutamente nada sobre blues. Ninguém conhecia sequer o som de uma guitarra tocada com um gargalo de garrafa, o truque mais velho que existe no blues. Ry indignado se limitou a dizer que a intenção é mesmo de soar assim.

De fato, a Columbia tinha um histórico maior com orquestras no estilo Ray Conniff, tendo em Mitch Miller seu maior expoente. O selo era bastante verde com rock embora começara a investir no gênero contratando e obtendo sucesso com bandas como Paul Revere & the Raiders e the Byrds. Contudo, blues eletrificado eles ainda não conheciam. A equipe técnica era compreendida por Allen Stanton que cuidaria da mesa de som, Billy James que cuidaria de promover a banda e levá-la a tocar nos melhores lugares da cidade para serem conhecidos. E por ultimo, como produtor, foi designado o jovem Marty Melchior, filho da atriz Doris Day de vinte e dois anos. Melchior era o único produtor da gravadora contratado para cuidar de rock no selo, pois o gênero ainda não havia dominado o mercado como aconteceria nos anos setenta. Como tudo gravado na era pré-Sgt. Peppers, a indústria girava em torno do compacto que traz um retorno ao atingir as parada de sucesso. A primeira conclusão de Melchior foi de que o baterista era velho demais e portanto não era condizente com a imagem rock. Por ser um baterista jazzista, Ed Cassidy foi oficialmente convidado a sair por não ser rock o suficiente. Pouco depois Cassidy ajudaria a formar a memorável banda Spirit. No seu lugar, veio Kevin Kelly, primo de Chris Hillman dos Byrds.

Billy James coloca a banda para tocar por toda Sunset Strip, importante avenida de Los Angeles cheia de casas noturnas. The Rising Sons passam a abrir shows dos Temptations, Otis Redding e Martha & the Vandellas. Estreiam na televisão com uma aparição no “Tonight Show” de Johnny Carson, seguido pelo programa “Where The Action Is” de Dick Clark. Marty Melchior marcava sessões de gravações e tentava arrancar do repertório variado uma canção que pudesse ser o hit do grupo. Durante praticamente todo o ano de 1966 the Rising Sons gravaram material mais do que suficiente para um album, mas nada parecia agradar Melchior. Sem ainda haver no mercado a mentalidade do long play, ou seja, do album como uma entidade própria, Melchior não soube apreciar o som da banda como um todo, e não autorizou utilizar o material gravado.

Depois de um ano, Melchior precisava mostrar alguma coisa da banda para dar alguma satisfação aos seus superiores. Opta portanto lançar o compacto The Devils Got My Woman / Candy Man, duas canções que não traduzem exatamente o melhor do som dos Rising Sons. Ao fim do contrato entre o grupo e a gravadora, Melchior exigiu para si total controle intelectual da banda, além de uma gigantesca porcentagem do lucro. Em troca ele recomendaria a Columbia a renovarem o contrato por outro ano. O grupo obviamente recusou e assim acabaram dispensados pela Columbia. A esta altura, Jesse, Taj e Ry já estavam desiludidos com a indústria. Embora ainda amigos, ocasionalmente um trabalhando como convidado no projeto do outro, cada um tomou seu rumo.

Jesse Kincaid fechou um contrato com a Capitol, lançou alguns compactos e teve uma composição sua regravada por Harry Nilsson (“She Sang Hyms Out of Tune”). Depois passou a ganhar a vida como professor de violão embora continuasse compondo. Ed Cassidy, o primeiro baterista, ajudou a formar Spirit, conceituada e relativamente bem conhecida banda jazz/pop/psicodélico do final da década de sessenta. Kevin Kelly, seu substituto, acabou se juntando aos Byrds, tendo participado em discos significativos da banda. O baixista Gary Marker ajudou a montar uma banda de jazz-rock chamado Fusion e hoje ganha a vida como arquiteto e jornalista.

Taj Mahal durante o ano de 1967 acabou conhecendo um mestiço do Oklahoma que era 10% escocês e o resto índio (Kiowa, Comanche e Seminola) chamado Jesse Ed Davis. Guitarrista de talento extraordinário, Davis se juntou a Taj, que acabou montando uma banda exclusivamente como veículo de suas músicas. Conseguiu negociar um novo contrato com a Columbia, em bases melhores e desta maneira deu o passo inicial para o que se tornou uma rica e produtiva carreira solo.

Ry Cooder se juntaria ao Captain Beefheart & His Magic Band, gravando com ele o album “Safe As Milk”. Depois, seria apresentado a Mick Jagger e Keith Richard onde seria convidado a gravar algumas faixas para o album “Let It Bleed”. Sua carreira iniciaria a partir deste ponto, sendo requisitado como músico de estúdio como também tendo sucesso em projetos próprios.

Quanto ao Rising Sons, acabou sendo mesmo a grande banda que nunca aconteceu. Recentemente, a Sony Music, dona atual de todo o catálogo da extinta Columbia Records, lançou as vinte e duas faixas gravadas pela banda durante os anos de 1965 e 1966. O CD, por motivos comerciais, se chama “Rising Sons – Featuring Taj Mahal and Ry Cooder”. Vale a pena conferir. Segue a relação das músicas:

01. Statesboro Blues
02. If The River Was Whiskey (Divin’ Duck Blues)
03. By And By (Poor Me)
04. Candy Man
05. 2:10 Train
06. Let The Good Times Roll
07. .44 Blues
08. 11th Street Overcrossing
09. Corrina, Corrina
10. Tulsa County
11. Walkin’ Down The Line
12. The Girl With Green Eyes
13. Sunny’s Dream
14. Spanish Lace Blues
15. The Devil’s Got My Woman
16. Take A Giant Step
17. Flyn’ So High
18. Dust My Broom
19. Last Fair Deal Gone Down
20. Baby, What you Want Me To Do?
21. Statesboro Blues – version2
22. I Got A Little

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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