Dream Theater: O fã – abreviação de "fanático" – é um ser doente.

Resenha - Dream Theater (Chevrolet Hall, Belo Horizonte, 09/03/2008)

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Por Maurício Gomes Angelo
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

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Fanático [Do lat. fanaticu.] Adj. 1. Que se considera inspirado por uma divindade, pelo espírito divino; iluminado. 2. Que tem zelo religioso cego, excessivo; intolerante. 3. Que adere cegamente a uma doutrina, a um partido; que é partidário exaltado; faccioso. 4. Que tem dedicação, admiração ou amor exaltado a alguém ou algo; entusiasmado, apaixonado. Por ser apaixonado, entenda-se, no mesmo dicionário: 1. Sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à lucidez e à razão. 2. Afeto dominador e cego; obsessão. 3. Atividade, hábito ou vício dominador. 4. Disposição contrária ou favorável a alguma coisa, e que ultrapassa os limites da lógica; parcialidade marcante; fanatismo, cegueira.

Fotos: © Ary Chedid

O significado das palavras – mesmo que de palavras “simples”, já conhecidas por todos, e, mais a fundo, a etimologia, são fascinantes porque nos permitem ir direto ao cerne da abordagem, deixando o sentido claro, amplo, definido exemplarmente.

O fã – abreviação de “fanático” – portanto, é um ser doente. Praticamente incapaz de enxergar qualquer coisa que fuja ao que ele, devotadamente, crê, segue, defende. O fã, convenhamos, não pode ser levado a sério. As definições aí acima explicam suficientemente o porquê. Certas bandas parecem “blindadas” por seus seguidores. Cria-se um séqüito de fãs tão apaixonados e radicais que acabam tornando-se agressivos, não “permitindo” que qualquer comentário minimamente desfavorável sobre aquilo que ele ama seja feito. O crítico fica de sobreaviso: ao primeiro sinal de um ponto negativo sabe que vai ser atacado por todos os lados, ofendido, rebaixado, etc.

Dois exemplos de bandas que possuem seguidores do tipo são Iron Maiden e... Dream Theater. Por coincidência, grupos que realizaram show na mesma semana aqui no Brasil. Sabendo destas características tão conhecidas de seus seguidores, parece que ninguém “ousa”, ou se permite, falar algo que desagrade a esta turma. O fã de DT não precisa de crítica do show deles. E eu não vou definir o conceito de crítica aqui, espero que todos já saibam, para não ficar ainda mais maçante. O fã não quer uma análise crítica de coisa alguma. Resenha, também, não me parece útil. Descrições de como foi o evento têm-se ao montes, através de inúmeros relatos de outras pessoas que também foram ao show, outros sites, outros textos aqui mesmo no Whiplash, etc, etc. A internet está aí para isso: pode-se ter vários vídeos, fotos, bootlegs, relatos em blogs, fóruns, instantaneamente, quase ad infinitum.

De modo geral, não faço resenha. Faço crítica. Ou, dependendo, uma junção das duas coisas. Quem espera um review tradicional pode parar de ler este texto. Ou já deve ter parado.

Mesmo o fã sendo um ser abjeto, afogando-se em sua própria cegueira, o Dream Theater não tem nada com isso. Adore-os quem quiser. James Labrie, John Myung, John Petrucci, Mike Portnoy e Jordan Rudess apenas fazem seu trabalho, não se auto-intitulam semi-deuses (até onde sei).

Começando exatamente no horário, com um Chevrolet Hall tomado em aproximadamente 70% da sua capacidade – sem dúvida o alto preço dos ingressos contribuiu para que não estivesse lotado, alto para os padrões da capital mineira, tradicionalmente abaixo de Rio e SP – o telão atrás do palco fez uma breve passagem por toda a carreira da banda, através de cada álbum e fase. Boa forma de se começar. Muita gente disse-me que ficou maravilhada com a “produção”. Ou seja, o semáforo que marcou o início do show, as luzes e o telão que ora passava vídeos das respectivas músicas, ora closes dos integrantes ao vivo, imagens e isto sim, bem legal, uma estória em desenho animado no formato “o esquadrão Dream Theater contra o monstro das trevas”, cada um usando de seu poder (instrumento) para derrotá-lo, tudo isto sincronizado com o andamento da composição: quando o personagem de Myung “atacava” o inimigo com seu baixo, por exemplo, era a sua vez, na apresentação, de obter destaque, e assim por diante. Mas, ficar “fascinado” pela produção parece-me coisa de headbanger pouco acostumado a tratamentos do tipo. Saudável, contudo, que a banda tenha resolvido trazer para o Brasil um pouco a mais do que normalmente leva apenas para outros países.

Falar em “técnica” é redundância. Melhor e mais importante que isto é poder avaliar, ao vivo, a quê a técnica serve: a expressão de idéias, sentimentos, aspirações. Trabalha a favor do músico para que ele tenha repertório suficiente, sendo capaz de dar vazão, sem limitações, a tudo que quer: andamentos rápidos ou lentos, climas simples, complexos, passagens intrincadas ou não, solos, riffs, harmonias que podem flertar com diversos estilos, e uma própria consciência – teórica, prática – de tudo que a música pode oferecer. E, isto, o Dream Theater sabe bem. Ótimo exemplo é “I Walk Beside You”. Surreal ver, ali, praticamente uma pérola pop, oitentista até a alma (lembrando inclusive o U2) entremeada entre pedreiras autenticamente progressivas. Eis o que, de fato, me fascina no prog: a capacidade de abarcar inúmeras outras áreas, estilos, nuances, possibilidades, influências e facetas da música. “Take The Time”, por sua vez, a única representante completa do clássico “Images & Words”, foi cantada em uníssono pelos presentes, tendo ainda um solo catártico de Petrucci.

Lembrar de “catarse” é importante porque o DT, claramente, tornou-se uma banda menos sisuda, menos fria, menos formal. Abriram mais espaço para a performance, as brincadeiras, a interação, o erro, a intensidade. Sai o esquemático (dentro do possível), entra o feeling, o ímpeto, o transe, bem-vindo, que a música deve proporcionar. Isso é facilmente visível em vários pontos. Não só porque Labrie, agora, está cantando muito melhor do que antes, mas principalmente porque tornou-se um frontman mais a vontade, seguro de si, impondo respeito e colocando o público na mão. Rudess sai de sua área delimitada, pega um teclado portátil, e vai para a frente do palco solar, interagir. Petrucci chega a ponto de cair, levemente, no palco, e Portnoy ir auxiliá-lo a levantar. Os dois, aliás, brincam de trocar os instrumentos, com Petrucci na bateria e Portnoy arriscando “Eruption”, do Van Halen, ameaçando, depois, quebrar a guitarra, como um legítimo “rock star”. É impressionante, também, o quanto Mike se destaca, não só por ser o grande baterista que é, mas porque, desde sempre, soube marcar seu espaço: levanta-se constantemente, tocando em pé, faz backing vocals contributivos, acende a platéia, joga baquetas para o público a todo momento – não só no final do show – bem como apronta seus malabarismos com ela. O Dream Theater parece ter aprendido, definitivamente, que show é espetáculo. Não um momento para se executar perfeitamente, nota por nota, o que foi registrado em estúdio. Música é ao vivo. Ali se sente a música, verdadeiramente, em sua completude. Ali está o fator humano, o calor, o erro, o imprevisto, as reações, o suor, o coro, os urros, os sentimentos, o transe.

E assim eles sepultam, de uma vez por todas, esse clichê batido, ordinário e imbecil de que a música mais “técnica” se resume a tal. Há sim, grupos que são isto e nada mais: Spiral Architect, por exemplo. Mas ela, bem trabalhada, é o meio, não o fim. É o modo pelo qual o músico tem a possibilidade de expressar o que quer, o que se passa em suas veias, sua mente. Fundamental para aspirações maiores, como o que o DT pratica. É como se um escritor, um jornalista, ou mesmo um médico, um economista, etc, ao exercer sua profissão, precisasse utilizar-se de palavras, também seu instrumento de trabalho, mas não possuísse vocabulário para tanto, se seu conhecimento não fosse suficiente para falar sobre aquilo. O que gera a mediocridade, o mecanicismo, demasiada limitação, incompetência, visão, consciência e forma de expressão aquém do necessário, deixando-o apenas como “mais um” dentre tantos que fazem o mesmo.

Eles, ao contrário, conseguem sobressair. E não somente pela técnica indiscutível, mas porque ela, plural – e bem explorada – enriquece e leva além a música composta. Porque ela, somada ao talento, à competência, ao esforço, à pesquisa, a vivência da música em suas diversas áreas e, à performance de palco, faz com que o grupo seja o que é. “Systematic Chaos” é um bom álbum. Assim, “Constant Motion”, “The Dark Eternal Night” e “The Ministry Of Lost Souls” foram muito bem recebidas.

Faltaram clássicos? Sim, muitos. É lamentável que só tenhamos tido lapsos de “Scenes From A Memory” no medley final. Mas, claro, também, que não iriam repetir a execução completa que fizeram em São Paulo quase três anos atrás. Contudo, quando todos estava esperando, no mínimo, duas hora e meia, três horas de show, ele acaba. Cumprimentos, saudações, luzes acesas, “see ya”. Quando parecia que estava começando, termina. Aqui vale a pena abrir um parêntese. Embora Rudess, em notícia publicada aqui mesmo no Whiplash!, em 02/08/07, tenha dito: “Decidimos que, nessa turnê, não faremos mais shows no formato 'An Evening With' (em que há apenas nós como única atração). Nós agora contaremos com algumas bandas de abertura que virão conosco. Ainda tocaremos por umas duas horas. Ainda é uma noite considerável de Dream Theater, mas não aquela loucura que vocês viam no passado, em que saíamos do palco, para depois termos que reanimar o baterista( quando Portnoy desmaiou, de cansaço e desidratação, após a gravação do DVD “Metropolis 2000” ). Não vamos fazer mais isso agora. Decidimos que merecemos ser um pouco mais humanos nessa coisa toda. Mas, mesmo assim, continuamos a mudar o set-list. É definitivamente uma característica intrínseca ao Dream Theater".

Apesar disto, parece-me econômico e fácil demais reduzir tanto a duração. Menos trabalho, mesma quantia no bolso. Menos música, mesma conta bancária. E, historicamente, na música progressiva, concertos facilmente ultrapassam as três horas de duração. Fora que eles ainda estão bem novos para se darem a este luxo. Imagine se o Rush, referência maior dos próprios, vêm ao Brasil e tocam por míseros 120 minutos. É aceitável que uma banda prog, com a história e o repertório do DT, toque por 2 horas? Se ainda fosse no Japão, onde se apresentam de 15 em 15 dias... Para mim, é uma baita falta de respeito com quem pagou o ingresso e, em muitos casos, viajou muitos quilômetros apenas para vê-los.

Sou totalmente a favor de se mudar o set list constantemente, outra “tradição”, quase, do progressivo. Mas terminar o concerto, quando deveria estar na metade, é um problema sério. A sensação de quem saia do Chevrolet Hall – dos mais lúcidos, pelo menos – era um certo amargor na boca, uma frustração, meio decepcionados, sabotados. Como dito, o DT tem uma performance interessante e intensa, Labrie melhorou muito e há pouco que se falar deles como músicos, mesmo que a banda não seja, nem de longe, a coisa mais interessante do cenário progressivo atual.

Bom show. Mas que da próxima venham menos preguiçosos. Por hora, cumpriram seu papel com uma apresentação, ainda assim, marcante. Veremos o que os próximos anos nos reservam.

Set List – Chaos In Motion Tour 2008:

Intro - An Ant Odyssey
Constant Motion
Panic Attack
Endless Sacrifice
The Dark Eternal Night
Erotomania
Voices
I Walk Beside You
As I Am
The Ministry Of Lost Souls
Take The Time

Schmedley Wilcox:

I - Trial Of Tears
II - Finally Free
III - Learning to Live
IV - In The Name Of God
IV – Octavarium (Razor’s Edge)

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Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

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