Em 15/12/2006 | Resenha - Guns N' Roses (Oakland, California, 15/12/06)

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Resenha - Guns N' Roses (Oakland, California, 15/12/06)


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Grande parte do culto em torno do nome GUNS N’ ROSES hoje em dia foi construído baseado na falta de informações, boatos, rumores e pouca coisa de fato acontecendo nos últimos 13 anos. A curiosidade misturada ao saudosismo e ao desejo profundo de vislumbrar um futuro melhor criou uma aura mágica em torno de tudo relacionado à banda. Até um projeto com traços tragicômicos como a banda que Steven Adler, primeiro baterista do grupo, formou para tocar na integra o álbum “Appetite for Destruction” atrai gente disposta a reviver os dias em que o Guns N’ Roses tinha real relevância no cenário musical. A inquietação causada por Axl Rose nos fãs, na indústria e na crítica é coisa para psicólogo entender. É a famosa tese de que a antecipação acaba superando o fato, assim como um presente que tanto se espera ganhar e que depois de poucos dias é deixado de lado para dar lugar a algum novo desejo. Com a decisão do vocalista em botar o pé na estrada com seu Guns n Roses na versão “Axl e amigos,” um pouco dessa neblina de incertezas começa a se dissipar. O show em Oakland, cidade californiana conhecida por bandas punk e de metal, no dia 15 de dezembro foi mais uma pecinha nesse gigante quebra-cabeça.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Para uma banda que está há tanto tempo sem lançar algo novo, que deixa a desejar em termos de marketing e que não consegue consistentemente fazer turnês, o palco era catedralesco. Panos vermelho e branco - com letras douradas em fonte que fazia alusão a caracteres chineses onde se lia GNR - cobriam todo o palco. Um sistema de iluminação próprio com torres nas laterais ajudou a construir a expectativa do público momentos antes da banda subir ao palco, criando um efeito parecido com os refletores usados em prisões e helicópteros da lei quando alguma fuga se dá no meio da madrugada. Durante o show, fogos de artifício e labaredas no palco lembravam a todo o momento que o fim de ano está aí. O final de "Paradise City" pertencia a algum espetáculo circense, um espetáculo para os sentidos. E toda a troca de pianos, a ida de Dizzy Reed à frente do palco para executar praticamente de pé a nova “The Blues”, os tantos momentos para solos de guitarra lembram que Axl está mais para Queen do que para Nine Inch Nails, como o já declarado flerte com o som industrial poderia sugerir.

Além da mania de grandeza que somente uma turnê dessas pode deixar exposta ao léu, fica também vulnerável ao escrutínio toda a tropa escolhida para coadjuvar com Mr. Rose. Gradativamente esse corpo vai tomando consistência e parecendo uma banda de verdade, e não um grupo de malucos, que no Rock in Rio III fazia lembrar a turma do Village People, nem tanto pelas tendências sexuais, mas sim pelos estilos tão particulares que cada um apresentava que acabavam por destoar violentamente uns dos outros. Todos agora são discretos roqueiros com a aparência de alguém que já viveu por pelos menos 10 anos na cena roqueira de Los Angeles, embora os termos “discreto” e “Los Angeles” parecem não combinar na mesma sentença. Enquanto isso, Robin Finck, que abandonou o visual carregado dos tempos em que quebrava um galho para Trent Reznor, vai dando sinais de que quer assumir o papel de principal guitarrista do grupo. Ele toca os solos mais distintos e os riffs mais memoráveis. Alguém que começa “Welcome to the Jungle,” “Sweet Child o’ Mine” e faz os solos de “November Rain” deve ter algum crédito com o patrão. Desnecessário dizer que nenhum deles tomará nos corações dos fãs o lugar dos membros originais, mas essa turnê está sendo tão benéfica para os integrantes se encontrarem como banda que, por momentos, podia-se fechar os olhos na Arena de Oakland e sentir-se em plena “Get in the Ring Tour” lá pelos idos de 92. Ou quase isso.

Apesar da qualidade impressionante do som para um show numa arena, Axl Rose frustra por demonstrar fraquezas na voz. Ele ainda consegue cantar e intrigar, mas sua voz perdeu a qualidade única de soar rasgada e distorcida como guitarra ligada em amplificador meia boca no último volume para tornar-se uma correnteza límpida de agudos polidos que são interrompidos apenas por sua respiração esbaforida. O que para alguns pode parecer avanço técnico para outros significa a perda da alma. No mais ele continua a correr, cantar com os braços abertos, dançar como se estivesse escorregando em sabonete e, o mais importante, subir ao palco extremamente tarde. Para o beato publico americano um concerto que começa meia-noite e meia e termina quase as três da madrugada é quase como uma rave em Berlin ou um desfile de carnaval no Brasil. No cronograma do show poucas surpresas. Ou nenhuma.

Teve todo o lado A do “Appetite for Destruction,” com direito a Lars Ulrich do Metallica exibindo péssima forma física e técnica em “Outta Get Me,” mais “Sweet Child o’ Mine” e “My Michelle” (essa na voz de Axl e Sebastian Bach, que como banda de abertura despejou um balde de nostalgia nas pessoas). Ainda teve “Patience” e representando os dois “Use Your Illusion” apenas “Live and Let Die,” “November Rain,” “Knockin’ on Heavens Door” e a explosiva “You Could be Mine.” Uma segunda olhada no set revela uma dissonância cognitiva das bravas no bojo de Mr. Rose. Não é mistério nenhum que um dos grandes motivos da partida de Slash se deve ao desejo que o guitarrista tinha em manter um som mais agressivo no estilo de “Appetite” enquanto Axl mergulhava na onda das baladas épicas com toques de som industrial. No entanto, “Appetite” é o carro chefe da turnê do disco que supostamente irá abrir novos caminhos para o GNR. E de novo mesmo nada, só aquelas canções ainda não registradas oficialmente que já são tão conhecidas que parecem já esperar por sucessoras. Se “Madagascar,” “IRS,” “The Blues,” e “Better” representam o que há de melhor feito desde 93, então seria conveniente Axl esperar mais um pouco, embora a última indique que o vocalista não esqueceu como fazer melodias cativantes. Muita gente nas arquibancadas da arena preferiu sentar durante as “novas” e poupar energia para os clássicos.

E agora vem a chave de tudo: Com a demora por novidades e uma excursão duradoura, o GNR de Axl vai perdendo a mágica já aludida. A arena de Oakland não é dos maiores lugares que a Bay Área de San Francisco pode oferecer e não estava nem com 80% da sua capacidade tomada. Muitos lugares vazios nas arquibancadas, pessoas em pé confortavelmente nas pistas, ingressos sendo dados de graça do lado de fora e pouca histeria marcaram a noite. Apesar da onipresente boataria, o público parece se acostumar com a idéia de que essa banda é apenas um consolo para aqueles que não puderam presenciar o grupo original. Um momento dos dias de glória que não consegue vender 10 mil ingressos numa sexta-feira à noite de dezembro. O desafio de Axl é lançar o tal “Chinese Democracy” antes que os fãs e a crítica se acostumem com tal situação. Ou quem sabe ligar para o Slash.

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Sobre Bruno Romani

Nascido em São José dos Campos, terra de milicos, aviões, cientistas e nerds em geral, sacou aos 13 anos que números são pouco amistosos. Fugiu para a Califórnia, onde muito aprontou: montou a banda Apside, escreveu para inúmeros sites e jornais e formou-se em jornalismo pela UC Berkeley. Passa os seus dias dividido entre a procura por um lugar na grande mídia gringa e festas universitárias americanas regadas a muita mulher com pouca roupa.

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