Em 27/08/1990 | Stevie Ray Vaughan: o último show e o vôo para a morte

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Stevie Ray Vaughan: o último show e o vôo para a morte

Postado por Nacho Belgrande | Fonte: Playa Del Nacho

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Em 27 de Agosto de 1990, o virtuoso da guitarra tocou o último show de sua vida. Poucas horas depois, ele foi morto quando seu helicóptero se acidentou na espessa neblina. Essa é a história por detrás daquele dia trágico.

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Por Johnny Black para a Classic Rock Magazine/Fevereiro de 2013

Mais cool do que cool, Texano, com uma Fender Stratocaster e um chapéu de cowboy preto, STEVIE RAY VAUGHAN foi um dos músicos mais influentes dos anos 80. Com sua banda, a DOUBLE TROUBLE, ele liderou um revival do blues durante a era do Duran Duran e da MTV, chamando a atenção de gente como DAVID BOWIE e ERIC CLAPTON no caminho.

Foi esse último quem convidou Vaughan e o Double Trouble para abrir dois shows seus no Alpine Valley Music Theater em East Troy, Wisconsin, em Agosto de 1990. Minutos depois de sair do local, ele estava morto, vítima de um calamitoso acidente de helicóptero.

Robert Knight [fotógrafo]: Eu fui convidado para ir até o Alpine Valley para fazer uma sessão de fotos para a Fender. Encontrei com Stevie, o que foi demais porque eu já o conhecia há anos. ele disse, ‘Sabe, eu não acho que vá viver muito mais tempo’. Eu perguntei a ele porque ele tinha dito aquilo, e ele respondeu, ‘Bem, ouça, eu estava na Suiça e basicamente, tive uma overdose na rua. Eu estava vomitando sangue. Eu basicamente morri, fui levado pro hospital e fui reanimado’. Ele disse que fora ali que ele soube que tinha que ficar sóbrio. Ele disse que não sabia quanto tempo lhe restava.

Skip Rickert [empresário de turnê de Stevie]: Durante aquele tempo, Stevie estava trabalhando duro em seu programa de desintoxicação. Ele estava fazendo avanços incríveis. Ele estava no programa fazia muitos anos, e de 1985 até o dia em que ele morreu, ele estava limpo e sóbrio.

Chris Layton [baterista do Double Trouble]: Eu me lembro de pensar como era bom ter deixado todos aqueles demônios para trás. Todo mundo estava tão saudável e nosso futuro era tão brilhante.

Eric Clapton: Na primeira noite, eu assisti ao show dele por uma meia hora e daí tive que sair porque eu não aguentava! De repente eu tive esse flash, que eu já tinha sentido tantas outras vezes quando via tocar, que era como se ele fosse um canal. Um dos canais mais puros que eu já vi, onde tudo que ele tocava e cantava fluía diretamente do céu.

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Greg Rzab [baixista da banda de Buddy Guy]: Eu me lembro de bater na porta do camarim de Stevie. Ele abriu, parado ali sem camisa, mas ele estava com o chapéu de palco dele. Nos abraçamos, ‘E aí cara, como é que vai?’ Ele estava muito bem. Ele viveu o seu último dia em estado de graça.

Nathan East [baixista da banda de Eric Clapton]: Stevie e eu nos falamos rapidamente no camarim antes de ele entrar no palco, dizendo o quanto estávamos todos ansiosos para fazer uma jam no fim da noite. Ele parecia muito feliz por estar ali e estava com um excelente astral.

Buddy Guy: Eles me chamaram lá só como convidado, então eu fiquei do lado do palco do começo ao fim. Nessa noite em particular ele tocou incrivelmente bem – ele tocou licks que nenhum de nós havia ouvido antes.

Greg Rzab: Havia uma luz em torno dele, o que eu sempre achei interessante, especialmente agora que sabemos o que aconteceu. Ele estava tocando pra cacete. Ele destruiu a plateia, ficou louco.

Robert Knight: Stevie fazia questão de dizer que ele faria uma versão especial de ‘Voodoo Chile’, só pra mim. Ele insistia que eu tinha que fotografar aquilo. “Eu quero que você esteja lá”. Eu não sei por quê. Daí ele vem pro bis e é ‘Voodoo Chile’, mas enquanto eu estou tirando fotos, meus dois braços viraram blocos de gelo e minha câmera parecia congelada. Não era uma noite fria. Eu continuei tirando fotos por dois ou três minutos, mas eu não conseguia entender o que estava acontecendo com as minhas mãos, então, no meio da música, eu fui pra coxia. Stevie veio, andou até mim e disse, ‘Por que você saiu?’ Eu arregacei minhas mangas e disse, ‘Stevie, olha pros meus braços’. Eu tinha arrepios que pareciam que eles estavam congelados. Stevie disse, ‘Olha pros meus’, e ele levantou as mangas dele e ele tinha a mesma coisa.

Chris Layton: Eric apresentou Stevie como o maior guitarrista do mundo, e quando ele tocou a primeira nota, pareceu que ele tinha puxado a corda além do braço. Eu me arrepiei. Era como algo correndo em minha espinha.

Tad Laszewski [plateia]: Depois do bis, todos aqueles grandes músicos começaram a sair pela esquerda do palco. O último a sair fora Stevie Ray. Ele era conhecido pelo chapéu texano preto, que ele nunca tirava. Antes de ele sair, ele o tirou, o abanou para a plateia e desapareceu.

A JAM FINAL, HORAS ANTES DE MORRER

Xerife David Graves [xerife do condado de Walworth]: Naquela noite, a visibilidade estava bem baixa. Eu me lembro de andar do portão traseiro do teatro pro meu carro no estacionamento do hotel. Eu mal conseguia ver os helicópteros pousados no chão. Pensei comigo, ‘Eu não acredito que os pilotos consigam voar daqui nessa sopa’.

Chris Layton: Logo depois do último show, Stevie e eu nos sentamos em duas cadeiras na coxia e tivemos uma longa conversa, de uns 40 minutos, sobre todo tipo de coisa que não tínhamos abordado em muito tempo. Nós dois estávamos bem serenos e em paz. Ao mesmo tempo, ele estava muito empolgado com os prospectos do novo disco.

Robert Knight: Foi aí que Eric mencionou que Nathan East não queria ir em um helicóptero.

Nathan East: O pai de uma jovem que eu tinha acabado de conhecer ofereceu a mim e ao tecladista de Eric, Greg Philinganes, uma carona pra Chicago em seu [avião] bimotor Cessna. Isso deixava dois lugares vazios no helicóptero.

Chris Layton: Quando Stevie voltou [pra onde eles haviam sentado], ele estava com todas suas malas. Ele disse que havia espaço em um dos helicópteros e que tinham oferecido pra ele. Eu disse a ele que o amava, e que talvez tomássemos café da manhã na manhã antes de voltarmos de avião pro Texas. Ele disse, ‘Sim, cara, mas eu quero que você saiba que eu te amo’.

Greg Rzab: Quatro vans nos levaram dos camarins para os helicópteros. Saímos e o tempo estava horrível, mas os helicópteros estavam rodando, prontos pra ir.

Brad Wavra [gerente de produção, Alpine Valley]: Eu os ajudei a entrar nos helicópteros, e assisti a eles trocarem de lugar pra equilibrar o peso.

Greg Rzab: Eu fui subir em um com Eric e Buddy, mas estava cheio, então eu disse, ‘Bem, cara, entra em qualquer um’. Daí eu fui até esse outro helicóptero, e estava quase entrando, quando Eric colocou a cabeça pra fora e disse, ‘Não vamos separados’. Daí eles tiraram um cavalheiro do helicóptero de Eric pra ceder o lugar pra mim. Ele entrou no outro helicóptero e daí Stevie também entrou.

Nathan East: Stevie Ray pegou um daqueles assentos livres, junto com Bobby Brooks [empresário de Eric], Colin Smythe-Park [nosso empresário de turnê], Nigel Brown [segurança de turnê] e o piloto, todos eles mortos no acidente. Tenho sorte de estar vivo, porque se eu não tivesse pego o Cessna, eu estaria naquele helicóptero.

Greg Rzab: Em nosso helicóptero estavam Eric, sua namorada, Buddy e eu no banco de trás, e Roger Forrester na frente. A neblina e a condensação o impediam de ver o lado de fora. Alguém tirou a camiseta e limpou a umidade da bolha do helicóptero, mas tão logo ele fez aquilo, o vidro embaçou com a neblina de novo.

Brad Wavra: Eu passei minha camiseta no para-brisa e estiquei meu polegar pra eles… e provavelmente fui o último a vê-los vivos.

Greg Rzab: Era por volta de meia noite e meia quando vimos os primeiros helicópteros decolarem. Podíamos ver as luzes deles e as hélices rodando. A neblina era tão densa que logo que eles saíram do chão, eles despareceram imediatamente nela.

Tenente David Starls [Departamento de Polícia do Condado de Walworth]: O piloto [Jeff Brown], era o primeiro vôo dele naquela área, e ele não conhecia bem o território. Ele subiu na vertical, provavelmente até onde ele achou que fosse alto o suficiente sob condições normais, para ficar acima de postes telefônicos ou torres de transmissão de rádio.

Xerife David Graves: O helicóptero de Stevie nunca foi além da colina de esqui atrás do resort. Ninguém ouviu ele cair.

Greg Rzab: Nós subimos até acima da névoa e o helicóptero entrou em condições perfeitamente normais de vôo e voamos até Chicago.

Jim Wincek [diretor de marketing, Centro Médico de Lakeland]: Quando os outros helicópteros chegaram a Chicago, eles notificaram as autoridades. A Patrulha Aérea Civil fez as contas e começou uma varredura.

Tenente David Starks: Quando eles chegaram ao topo da colina, acho que por volta das 6 e meia da manhã, eles olharam pra baixo e viram onde o helicóptero tinha batido. Não chega a 800 metros da parte de trás do teatro, mas você não consegue vê-lo por causa do terreno. As hélices do helicóptero se engancharam com o cabo de aço do teleférico dos esquiadores atrás do resort a cerca de 75% da subida. Quando aquelas hélices pararam, a energia foi transmitida para o chassi do helicóptero, que começou a girar, eles todos foram arremessados para fora do helicóptero, enquanto o helicóptero se despedaçava. O helicóptero não explodiu, mas o combustível da aeronave estava espalhado por toda a área. Ele cobria os destroços, o chão e os corpos.

O CHAPÉU PRETO FOI ENCONTRADO ENTRE OS DESTROÇOS

Tommy Shannon [baixista, Double Trouble]: Eu não soube até a manhã seguinte quando nosso empresário Alex Hodges me ligou.

Chris Layton: Alex estava tentando ser tão delicado quanto possível, disse que ele estava com Roger Forrester, o empresário de Eric, e que um dos helicópteros, o que Stevie estava, não tinha voltado. Havia 98 por cento – eu me lembro de ele dizer desse modo – 98 por cento de certeza de não haver sobreviventes.

Tommy Shannon: Esse foi provavelmente o pior momento de toda minha vida. Depois de ficarmos sabendo, um segurança deixou que eu e Chris entrássemos no quarto de Stevie e foi aí que vimos que ninguém tinha dormido na cama, foi aí que começou a cair a ficha pra mim. O estranho foi que, quando estávamos entrando no quarto, estava tocando aquela música dos Eagles no rádio, que a letra diz ‘I may never see you again’ [“Peaceful Easy Feeling”]. Eu sempre achei isso tão esquisito.

Skip Rickert: Houve um funeral privado e outro público dois dias depois. Eu tentei ajudar a organizar os funerais. Eu me lembro de sentar na cozinha da mãe de Stevie fazendo as ligações. Eu me lembro de Dr. John fazer uma elogia maravilhosa. Bonnie Raitt e o ZZ Top vieram. Eu fiquei honrado por carregar o caixão.

Chris Layton: Eu me lembro de, no funeral dele, quando Stevie Wonder subiu e cantou ‘The Lord’s Prayer’, foi a coisa mais maravilhosa que eu já ouvi. Ele estava chorando enquanto cantava.

Jimmie Vaughan [irmão de Stevie Ray]: Eu fiquei bem perdido. Demorou algum tempo até que eu me desse conta de que tinha que continuar e viver minha vida. Mas foi difícil. Ainda é. Uma grande parte de mim se foi em um instante. A vida não é pra ser assim.

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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.

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