Em 19/05/2012 | Kiss: 20 anos de "Revenge", uma análise detalhada do álbum

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Kiss: 20 anos de "Revenge", uma análise detalhada do álbum

Postado por Igor Miranda | Fonte: Van do Halen

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Kiss – “Revenge”
Lançado em 19 de maio de 1992
(Apesar de o site oficial do KISS ter dado o dia oficial como 14 de maio, decidimos nos guiar pelo KISSFaq e a biografia “Por Trás das Máscaras”)

A história de grandes clássicos costumam começar antes mesmo de seu processo de gravação ter início. É o caso de “Revenge”, petardo do Kiss lançado em 19 de maio de 1992 – há exatos 20 anos. Logo após a turnê do antecessor “Hot In The Shade”, ficou decidido que a banda tentaria elevar o seu patamar, visto que o disco não havia deixado os chefões Gene Simmons e Paul Stanley satisfeitos – os caras tinham um contrato de grande orçamento com a Mercury Records mas preferiram produzir e aproveitar demos já registradas para simplesmente economizar. Além disso, Simmons estava muito focado com o seu selo, $immon$ Records, e com sua carreira cinematográfica. Stanley estava sobrecarregado e todos nós sabemos que a dupla é a alma da banda.

Em fevereiro de 1991, o Kiss foi convidado para gravar um cover de God Gave Rock N’ Roll To You, do Argent, para o filme Bill & Ted’s Bogus Journey (Bill e Ted No Outro Mundo, em português). O produtor Bob Ezrin, que havia trabalhado no sucesso “Destroyer” e no fracasso “(Music From) The Elder”, foi convocado justamente para que fosse observado se a experiência seria boa para que o full-length fosse gravado posteriormente. Simultaneamente, Eric Carr começava a desenvolver sintomas de pneumonia na época, ficando de fora das gravações da bateria e participando apenas com vozes de apoio. As baquetas foram assumidas por Eric Singer, que tocaria na banda até que o The Fox estivesse bem.

Fora descoberto que Carr não estava com pneumonia, mas com um tumor no coração, que logo foi removido. A música foi lançada como single, com o título God Gave Rock N’ Roll To You II, juntamente de um videoclipe em que Carr aparece de peruca graças às sessões de quimioterapia (o tumor, maligno, se alastrava). O produto agradou e foi um sucesso de vendas, mostrando que Bob Ezrin seria o produtor ideal para a nova empreitada. Mas a situação de Eric Carr piorava e o carismático baterista infelizmente veio a óbito em 24 de novembro de 1991, aos 41 anos – no mesmo dia que Freddie Mercury também nos deixou, vítima de complicações geradas pelo vírus HIV.

Apesar de abatidos, Paul Stanley e Gene Simmons iniciaram os trabalhos juntamente de Bruce Kulick, Eric Singer e Bob Ezrin. A perspectiva adotada em “Revenge” é completamente diferente dos trabalhos anteriores, como relata Ezrin:

“Todos lamentávamos a perda da inocência que o rock parecia ter sofrido. Procurávamos no passado um Kiss de primeira safra e o AC/DC dizia que aquele era o tipo de estilo de rock que a plateia buscava desesperadamente. Também foi o estilo que mais gostávamos de tocar, rock puro, pesado. Começamos com a intenção de compor aquele tipo de coisa. A partir do minuto em que iniciamos o projeto do ‘Revenge’ foi quase como voltar no tempo. Retornamos aos nossos antigos papéis, começamos a contar as velhas piadas novamente, voltamos com as provocações da mesma maneira e revivemos muitos dos momentos que compartilhávamos em Nova York. Foi muito parecido com uma reunião de família. Além de trabalharmos juntos, éramos bons amigos, tínhamos nos perdido no caminho e ‘The Elder’ não nos ajudou. Na verdade, quatro anos depois do ‘The Elder’, Paul ainda estava muito zangado comigo. Eu não o culpo. Eu fiquei muito zangado comigo mesmo durante anos depois daquele período da minha vida, que foi horrível. Eu enfrentei um divórcio, tive problemas com drogas, eu não estava de bem com a vida. Nós estávamos de volta, os três saudáveis e bem dirigidos e funcionou.”

Da esquerda pra direita: Gene Simmons, Eric Singer, Paul Stanley e Bruce Kulick

A partir do processo de composição de “Revenge”, todos os integrantes passaram a ser exigidos, principalmente Gene Simmons e Bruce Kulick. Gene precisava de boas composições, algo que ficou devendo nos discos anteriores, visto que nenhum single foi lançado de suas composições desde I Love It Loud, em 1982. Além disso, precisava demonstrar maior foco em sua postura, reassumindo de verdade a alcunha de The Demon. E Bruce precisava mostrar que não era meramente uma cópia mal-feita de Eddie Van Halen, mas um guitarrista criativo e que merecia a vaga na banda mais quente do mundo. Mas claramente Paul Stanley e Eric Singer também foram exigidos, tendo em vista a performance técnica deste e a qualidade das composições daquele, principalmente.

Para auxiliar nas composições, o ex-guitarrista Vinnie Vincent, que teve uma passagem conflituosa no Kiss de 1982 até 1984, foi contratado. O Ankh Warrior co-escreveu Unholy, Heart Of Chrome e I Just Wanna. Mas como toda relação de Vincent no mundo da música é conturbada, o guitarrista acabou processando a banda por questões financeiras relacionadas às composições – e perdeu. No entanto, é inegável que as composições que co-escreveu são algumas das melhores do registro, que aliás, não possui destaques particulares. É perfeito do início ao fim.

A abertura com Unholy representa bem a mudança que o Kiss passou. O riff pesado, a letra bem feita, a performance de todos os integrantes, o andameneto regurgitante e coeso… tudo está em cima aqui. O solo de Kulick é simplesmente fenomenal, bem como as vocalizações de Simmons, que parece estar no limite de sua “malvadeza”. Take It Off, que teve a linha de bateria tocada por Kevin Valentine, dá sequência e resgata o Hard Rock oitentista com uma dose cavalar de visceralidade. A letra sacana, os riffs galgados no Rock clássico e a performance de Stanley são os atrativos. Tough Love, a terceira faixa, talvez não seja tão boa por ser cantada por Paul, quando deveria ter a voz de Gene ao meu ver. Os holofotes, aqui, se voltam para a execução perfeita de Singer.

A divertida Spit vem em seguida com uma boa composição e mais uma performance de destaque de Bruce Kulick, que enfia um trecho do hino dos Estados Unidos no solo fabuloso que preparou para a canção. Nesta faixa, destaca-se também a química pulsante do quarteto – cortesia de Eric Singer e Bob Ezrin, os caras que deram sangue novo ao Kiss. God Gave Rock N’ Roll To You II é simplesmente bela. Possui uma letra inspiradora e um instrumental muito bem trabalhado. Na sequência, temos a ótima Domino – uma bela trilha sonora para um cabaré. O riff foi “roubado” (de forma autorizada) da música Nasty Nasty, do Black N’ Blue, banda que contava com o atual guitarrista do Kiss, Tommy Thayer. Novamente, Kulick brilha.

Heart Of Chrome ressalta mais uma vez a química dessa nova formação. Singer mostra serviço e Stanley prova o motivo de ser um dos frontmen mais competentes e ovacionados da história do Rock N’ Roll – ainda mais em grande fase, como estava na época. Thou Shalt Not parece ser uma sequela de Spit, por também ser divertida e ter um andamento instrumental dinâmico e simplório ao mesmo tempo. Também boa, mas não empolga como sua “irmã”. Em seguida, Every Time I Look At You quebra o clima um pouco. A única balada do disco deveria ser o carro-chefe dos singles, mas foi lançada apenas como o quarto compacto do álbum, com orçamento já limitado pela gravadora. Além do mais, a própria canção soa um pouco pasteurizada, tendo melhor performance no “MTV Unplugged” de quatro anos depois.

A boa porém nada excepcional Paralyzed, que possui um instrumental bem trabalhado, antecede o grande momento do álbum na minha opinião. I Just Wanna talvez seja o perfeito resumo de “Revenge”: visceral, a faixa resgata a pura essência dos bons tempos do grupo em termos líricos e melódicos, com uma dose da experiência que já tinham graças às próprias rugas. A canção tem um refrão grudento, bons riffs de guitarra, uma cozinha bem tocada e mais uma performance incrível do Starchild. Para fechar, há uma homenagem ao falecido Eric Carr com Carr Jam 1981, um resgate de uma demo registrada nas sessões de “(Music From) The Elder”. A jam é guiada pelo riff que se transformaria em Breakout, música do Frehley’s Comet de Ace Frehley, à época guitarrista da banda, e com um excepcional solo do The Fox, mostrando a perda que representou para o mundo do Rock. As linhas de guitarra sofreram overdub por Bruce Kulick.

Talvez o único aspecto que tenha impedido “Revenge” de se tornar um clássico absoluto, no nível de “Destroyer” e “Love Gun”, é a repercussão que teve na época. O álbum conquistou um singelo disco de ouro nos Estados Unidos e os singles tiveram maior repercussão em países europeus do que na própria terra do Tio Sam. Isso se deve à péssima divulgação feita pela gravadora, bem como a emergência do Grunge na época, que também gerou uma baixa no Hard Rock e no Heavy Metal como um todo. Tudo isso também se refletiu na turnê de divulgação e, depois, na necessidade em reunir com os integrantes originais Ace Frehley e Peter Criss.

Mas “Revenge” é icônico. Até hoje, não soube de nenhum fã de Kiss que não gosta do álbum, justamente por trazer a sua essência após outos discos que tentavam mostrar uma banda pouco espontânea. Além do mais, foi um dos poucos momentos da trajetória do grupo em que o público e a crítica ovacionaram, ao mesmo tempo, um de seus trabalhos. É a teoria do “dedo do meio”: os caras ligaram o foda-se para as tendências, procuraram ser francos e fizeram um baita trabalho, que ficou para a posterioridade e se tornou um clássico cult de fato. Trata-se de um dos melhores momentos de uma das melhores bandas de Rock n’ Roll da história.

Paul Stanley (vocal, guitarra rítmica, violão)
Gene Simmons (vocal, baixo, guitarra em 6)
Bruce Kulick (guitarra solo, baixo em 3 e 9)
Eric Singer (bateria)
Eric Carr (bateria e guitarra rítmica em 12, backing vocals em 5)

Músicos adicionais:
Dick Wagner (guitarra solo em 9)
Kevin Valentine (bateria em 2)
Jesse Damon (backing vocals)

01. Unholy
02. Take It Off
03. Tough Love
04. Spit
05. God Gave Rock ‘N’ Roll To You II
06. Domino
07. Heart Of Chrome
08. Thou Shalt Not
09. Every Time I Look At You
10. Paralyzed
11. I Just Wanna
12. Carr Jam 1981

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Sobre Igor Miranda

Natural de Uberlândia (MG), trabalha com jornalismo. Apaixonado por rock há mais de dez anos, escreve sobre música desde 2007, com o surgimento do saudoso blog Combe do Iommi. Desde então, co-fundou e integrou o site Van do Halen até o ano de 2013 - apesar de ainda manter uma coluna ("Cabeçote") por lá. Atualmente é redator do site Revista Cifras (afiliado ao R7) e repórter do caderno cultural do jornal impresso Correio de Uberlândia. Colabora também para os sites Reduto do Rock e Rock de Verdade. Mantém um site para portfólio próprio: www.IgorMiranda.com.br.

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