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Gilberto Gil: Vitalidade e força criativa de um gênio aos 77 anos

Resenha - Gilberto Gil (Tom Brasil, São Paulo, 22/06/2019)

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Por Fábio Sales
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Valorização da família, homenagem à vida, antenado com os assuntos do cotidiano e com fôlego renovado. Um dos grandes nomes da música popular brasileira de todos os tempos, o cantor e compositor GILBERTO GIL completa 77 anos nesta quarta (26/06) e certamente seu legado já está na prateleira dos gênios dos séculos XX e XXI.

Mas o tempo parece não passar para o artista, no mais alto conceito da palavra de produzir arte ao público, que continua a todo vapor na estrada.

Além dos shows do álbum "OK OK OK", lançado em agosto de 2018 e que já passou por algumas capitais do Brasil, cuja turnê segue para a Europa numa série de 20 shows entre julho e a primeira quinzena de agosto – incluindo apresentações em festivais de jazz na Dinamarca, Espanha, Holanda, França, Suíça, Alemanha e Noruega –, o músico também está em dia com sua força criativa, ao compor música para a tradicional companhia de dança de Belo Horizonte, Grupo Corpo, que estreará o espetáculo simplesmente denominado "Gil", entre os dias 8 e 18 de agosto, no Teatro Alfa, em São Paulo.

Ao presenciar a apresentação da noite de sábado (22/06), na casa de shows Tom Brasil, na zona sul da capital paulista – a última antes de percorrer o continente europeu na divulgação do disco –, percebemos um Gil leve e plenamente recuperado dos problemas de saúde, que exala a calma característica de sua personalidade aliada as mensagens poéticas e certeiras sobre o atual momento da sociedade, das influências do rock a MPB, no espetáculo que teve duração de 1h45 e lotação esgotada. O repertório de 25 músicas é composto essencialmente pela execução de "OK OK OK", quase que na íntegra – 13 das 15 canções do álbum –, além de versões de clássicos e hits inesquecíveis de sua carreira.

O bom baiano de Salvador, que é um dos pilares da Tropicália – movimento surgido na década de 1960 – e coleciona mais de 50 álbuns lançados e inúmeras parcerias, faz um resgate de sua memória afetiva no palco, seja na relação com a família e com as influências musicais, seja com a superação dos obstáculos que a vida lhe impõe e em não perder a capacidade de se indignar com as injustiças, encaixando visões que representam o momento político que o país atravessa nos tempos recentes. Vale lembrar que o período de tratamento e internações hospitalares ajudaram Gil a refletir sobre a vida e se inspirar para escrever as composições do álbum. "Depois que acabei o tratamento, veio a volúpia", nas palavras do próprio Gil. "Estou muito feliz com essa turnê. Me sinto bem neste momento da minha vida", completou, no backstage.

O show pode ser dividido em duas partes: na primeira, sentado, Gil categoricamente toca um violão e canta canções do novo álbum, que começa com a faixa título, um belo cartão de visitas, com versos fortes e certeiros: "Dos tantos que me preferem calado. Poucos deles falam em meu favor. A maior parte adere ao coro irado. Dos que me ferem com ódio e terror. Já para os que me querem mais ativo. Mais solidário com o sofrer do pobre. Espero que minh'alma seja nobre. O suficiente enquanto eu estiver vivo".

Aliás, calado é o que Gil não fica. O período de internações reforçou a espiritualidade e aguçou ainda mais a criatividade do compositor que também faz uma homenagem à vida. "Quatro pedacinhos" é uma delas, dedicada à médica Roberta Saretta, responsável por uma biópsia em seu coração. Já "Sereno" é uma honraria ao neto Sereno Gil, filho de Bem Gil e Ana Cláudia Lomelino. A angelical "Uma Coisa Bonitinha", composta em parceria com o mestre da bossa nova, JOÃO DONATO, fala da mamãe e exalta a figura da vovó. Essa é uma das 12 músicas pré-existentes da junção de forças entre Gil e Donato, que gerou sucessos como "Lugar Comum" (1974) – tocada no show – "Bananeira" (1975), "Emoriô" (1975) e "A Paz" (1987). A próxima canção "Lia e Deia" é uma homenagem a atriz Maria Ribeiro e a jornalista Andréia Sadi, que estavam na casa do jornalista Jorge Bastos Moreno, falecido em 2017, e pediram a Gil, presente no local, uma música. Eis que o compositor decidiu fazer uma canção para as duas. E ficou excelente.

A banda de Gil é formada por três filhos: Bem Gil, na guitarra e na direção musical com o pai; José Gil na bateria e percussão; e Nara Gil nos vocais; além do baixista Bruno Di Lullo (baixo), do tecladista Danilo Andrade, do baterista e percussionista Domenico Lancellotti, do saxofonista Thiagô Queiroz e o trompetista Diogo Gomes.

"Pai e Mãe" é a primeira tocada que interrompe a sequência do mais recente disco. Está no álbum Refazenda (1975), mas se encaixou perfeitamente no cronograma da primeira parte do espetáculo.

A apresentação prossegue com "Yamandu", outra homenagem, desta vez ao virtuoso violonista gaúcho – em que o próprio YAMANDU COSTA a toca ao lado de Gil no álbum "OK OK OK" – "Prece", que se traduz em fé e espiritualidade com belas mensagens seguindo em sintonia com esse momento, quando sozinho interpreta no palco a simbólica "Se Eu Quiser Falar com Deus", do álbum Luar (1981), emocionando a todos; "Jacintho", uma homenagem ao centenário empresário Jacintho Onório; e "Sol de Maria", mais um momento família que rendeu uma canção para a bisneta Sol, completam o roteiro que já começa a aquecer para a mudança de rota do espetáculo.

Seguem-se as homenagens, com "Na Real" a sua esposa Flora Gil e "Kalil" ao médico cardiologista Roberto Kalil, intercaladas magistralmente por mais um clássico oitentista "Seu Olhar" do álbum "Dia Dorim Noite Neon" (1981). A essa altura da apresentação, Gil se levanta e o público já percebe a transição para a eletricidade, em que as influências do rock são ainda mais perceptíveis em canções como "Tocarte" – do projeto TRINCA DE ASES com NANDO REIS e GAL COSTA –, "Pro Dia Nascer Feliz", composição dos eternos barões Cazuza e Frejat, do BARÃO VERMELHO; "Nossa Gente (Avisa Lá)", DE ROQUE CARVALHO, originalmente gravada por OLODUM e interpretada por CAETANO VELOSO e GILBERTO GIL no álbum ao vivo "Tropicália 2".

Uma das pérolas resgatadas pelo artista baiano que empolga e emociona os fãs é "Marginália II" do álbum homônimo Gilberto Gil (1968), lançado na época do AI5 instituído pela ditadura militar. Com sua batida característica e marcante, "Opachorô" (1998) vem num momento propício para constatar a esperança por um Brasil melhor. "Ouço", outra do álbum "OK OK OK" retrata os corações de todos e todas, de diferentes nações e culturas, convivendo num mesmo lugar com suas alegrias e tristezas.

Sem deixar a temperatura cair, Gil volta ao palco para o bis e interpreta a trinca "Afogamento", também do "OK OK OK", uma canção em parceria com a cantora ROBERTA SÁ, que está em carta com "Giro", um espetáculo em homenagem ao próprio Gil; a obrigatória "Extra" faixa título do álbum homônimo de 1983; e "Maracatu Atomico", composição de JORGE MAUTNER E NELSON JACOBINA presente no disco "Nightingale" (1978).

Antes de encerrar a apresentação, Gil chama os filhos e companheiros de banda para cantar ‘a capella’ música do álbum "Dia Dorim Noite Neon" (1985) "Minha Ideologia, Minha Religião". Um final apoteótico proporcionado por aquele que faria aniversário dias depois, mas quem ganhou o presente foi o público privilegiado por assistir esse inesquecível espetáculo.

Vida longa, Gilberto Gil!

Confira o setlist:
1. OK OK OK (Gilberto Gil, 2018)
2. Quatro pedacinhos (Gilberto Gil, 2018)
3. Sereno (Gilberto Gil e Bem Gil, 2018)
4. Uma coisa bonitinha (Gilberto Gil e João Donato, 2018)
5. Lugar comum (Gilberto Gil e João Donato, 1974)
6. Lia e Deia (Gilberto Gil, 2018)
7. Pai e mãe (Gilberto Gil, 1975)
8. Yamandu (Gilberto Gil, 2018)
9. Prece (Gilberto Gil, 2018)
10. Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil, 1980)
11. Jacintho (Gilberto Gil, 2018)
12. Sol de Maria (Gilberto Gil, 2018)
13. Na real (Gilberto Gil, 2018)
14. Seu olhar (Gilberto Gil, 1985)
15. Kalil (Gilberto Gil, 2018)
16. Tocarte (Gilberto Gil e Nando Reis, 2017)
17. Pro dia nascer feliz (Roberto Frejat e Cazuza, 1983)
18. Nossa gente (Avisa lá) (Roque Carvalho, 1992)
19. Marginália II (Gilberto Gil e Torquato Neto, 1968)
20. Opachorô (Gilberto Gil, 1997)
21. Ouço (Gilberto Gil, 2018)

Bis:
22. Afogamento (Gilberto Gil e Jorge Bastos Moreno, 2018)
23. Extra (Gilberto Gil, 1983)
24. Maracatu atômico (Jorge Mautner e Nelson Jacobina, 1974)
25. Minha ideologia, minha religião (Gilberto Gil, 1985)


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