Angra: resenha e fotos da apresentação em Sorocaba
Resenha - Angra (Villa Plaza, Sorocaba/ SP, 27/07/2018)
Por Hugo Alves
Postado em 30 de julho de 2018
A noite de Sexta-Feira, 27 de Julho de 2018, certamente ficará marcada por todas as vidas de quem se fez presente no Villa Plaza (antigo Plaza Hall) na cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo. Isto porque o ANGRA se fez presente depois de um hiato de 4 anos nos quais muita coisa aconteceu na história da banda.
Um pouquinho de História rápida aqui: até onde sei, esta foi a sexta passagem da banda por nossa cidade. Eles vieram em 2002 com a "Rebirth World Tour" e em 2005 com a "Temple of Shadows World Tour" e, nas duas ocasiões, tocaram na extinta ADPM, com Edu Falaschi (voz), Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro (guitarras), Felipe Andreoli (baixo), Aquiles Priester (bateria) e Fabio Laguna (teclados). Em 2009, contando com o retorno do baterista Ricardo Confessori e, se estou sabendo certo, Fabrizio DiSarno nos teclados, vieram promover o retorno às atividades com a "Back to Life Tour", já no Plaza Hall; em 2010, com a mesma formação, vieram promover seu sétimo disco através da "Aqua World Tour". Em 2014, vieram trazer a Sorocaba a "Angels Cry 20th Anniversary World Tour", apresentando Fabio Lione (voz) e Bruno Valverde (bateria) pela primeira vez em nossa cidade, e trazendo também a presença ilustre de Alírio Neto, sendo também a primeira vez que a banda veio sem trazer um tecladista (algo que já se repete há alguns anos em quase todos os shows da banda). Nunca obtive informações precisas e/ ou comprovadas de que a banda tenha tocado por aqui nos anos 1990 – se alguém tiver informações concretas sobre isso, serão muito bem-vindas nos comentários!
Hoje o ANGRA é formado por Fabio Lione (voz), Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa (guitarras), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) e, desde o início do ano, eles vêm rodando o mundo através da "OMNI World Tour", promovendo o nono disco de inéditas que nomeia a turnê, muito bem-sucedida por sinal, que já conta com 100 datas confirmadas desde seu início (número que tende a aumentar), se firmando desde já como uma das maiores empreitadas no histórico da banda. Também, pudera: se o antecessor "Secret Garden" (2015), apesar de muito bom na maior parte do tempo, foi um disco com inconsistências suficientes para serem percebidas pelos ouvidos mais apurados (o que não quer dizer que tenha sido um disco ruim nem de longe), "OMNI", por sua vez, chegou com status de gigante na discografia da banda, sendo seguramente o melhor disco do grupo nos últimos quatorze anos, desde "Temple of Shadows" (2004). Tantos predicados e superlativos refletem nos rostos dos integrantes no palco. Com certeza uma turnê com tantas datas em tantos lugares diferentes tem seu preço e é chover no molhado supor que eles estejam cansados, mas isso simplesmente some quando eles sobem no palco, conforme descreverei a seguir.
A banda esteve bem próxima da pontualidade – o horário divulgado para o início do show era 22h15; a banda entrou apenas 5 minutos depois disso. Ao contrário do convencional, a canção que abriu o show não foi uma das que integram o novo disco, mas sim "Newborn Me", faixa de abertura de "Secret Garden" (2015), uma das canções com Fabio Lione e Bruno Valverde que já caíram nas graças dos fãs, funcionando como uma espécie de hino do renascimento da nova fase do grupo. A seguir, "Travellers of Time", essa sim do novo disco, a primeira da qual o público tomou conhecimento. Uma grande canção que confirma duas coisas: Fabio Lione é, de fato, o cara certo para o ANGRA de hoje em dia, menos Power e mais Prog, é um vocalista absurdo, e Rafael Bittencourt acerta muito nas linhas nas quais investe sua voz desde 2015 (mas eu ainda acho que ele deveria deixar as que não gravou originalmente para o vocalista da banda nos shows). É lógico que a banda lembraria de seus grandes clássicos e "Angels and Demons" ("Temple of Shadows", 2004) foi a primeira canção a botar a casa abaixo, não sei se mais ou menos que sua sucessora, "Nothing to Say" ("Holy Land", 1996). Mas nem só de clássicos vive o ANGRA (guarde esta frase, caro leitor, eu tenho o que falar sobre isto no fim desta resenha) e "Insania", uma das várias faixas de trabalho do novo disco, me pareceu ter sido cantada pelos fãs de igual pra igual com alguns dos clássicos que se fizeram presentes nesta noite.
Carisma, muitos sorrisos e interação com o público. Fabio Lione já é "macaco velho", já tinha deixado sua marca no mundo da música e do Metal com o LABYRINTH, o RHAPSODY OF FIRE, o VISIONS DIVINE ou qualquer de seus outros trabalhos paralelos, mas largou tudo pelo ANGRA, sendo também um momento de renascimento e renovação em sua carreira, e acredito que ele talvez não tivesse melhor decisão a tomar – para ele mesmo, pela própria banda e por nós, fãs. Todo mundo saiu ganhando! E, com todo esse charme pisano, ele anuncia um clássico do disco "Rebirth" (2001), chamado "Running Alone". Confesso que, até pouco tempo atrás, eu não dava muita moral pra essa canção mas, acompanhando as setlists de shows posteriores ao do Carioca Club em Maio (no qual também estive presente), vi que ela entrou no lugar de "Acid Rain" e resolvi escuta-la com mais atenção, lendo a letra de novo e tudo mais. E é legal estar errado quando o que vem depois é melhor, é uma baita canção com uma letra muito bonita, e Lione a canta vigorosamente – a maioria das canções gravadas originalmente por Edu Falaschi soam maravilhosas na voz de Fabio Lione!
A seguir, a canção do "OMNI" (2018) que eu ainda não tinha visto ao vivo e que eu mais queria ver: "Caveman", de longe a canção mais brasileira do disco – e do ANGRA nos últimos dezessete anos! De repente, tudo faz todo o sentido do Universo quando você escuta essa canção: a percussão meio tribal, o coro em Português e aquele vocal inspiradíssimo de Fabio Lione, em um dos melhores trabalhos de sua carreira! Um rápido e eficaz solo de bateria de Bruno Valverde deu espaço para "Upper Levels", a canção mais progressiva de "Secret Garden" (2015), um ótimo trabalho de toda a banda – destaque para o baixo de Felipe Andreoli que, a bem da verdade, nunca teve tanto destaque como nos dois últimos discos. A seguir, a canção mais polêmica do novo disco (BR é f**a), "Black Widow’s Web". Se em estúdio Fabio Lione divide o microfone com a cantora brasileira SANDY (eis o motivo da polêmica que, no fim, só funcionou como mais marketing) e da canadense ALISSA WHITE-GLUZ (atual vocalista do ARCH ENEMY), ao vivo ele assume o gutural desta última (impressionantemente bem, por sinal), enquanto que os doces vocais da primeira são representados por Rafael Bittencourt (que também não faz feio). Eu não vou dizer que torci o nariz pra essa parceria que, num primeiro momento, é realmente inusitada, até porque eu cresci ouvindo Sandy & Junior, ainda gosto de algumas músicas e não vejo problema nenhum em admitir isso. Essa canção me tomou algumas audições repetidas pra que eu a entendesse e, hoje, eu a considero como uma das melhores canções do ANGRA em todo o catálogo da banda e uma das coisas mais bonitas que eu já escutei! Aquele interlúdio antes do último refrão é um absurdo de lindo! E, ao vivo, como não poderia deixar de ser, foi um espetáculo à parte!
O disco "Temple of Shadows" (2004) se fez presente uma vez mais com sua faixa de abertura, "Spread your Fire", que começou embolada e causou estranheza em todos num primeiro momento, mas que na parte da introdução com as guitarras gêmeas, de repente foi facilmente reconhecida. Essa é outra que entrou recentemente na setlist e vinha sendo criticada por conta dos notáveis erros de Fabio Lione em relação à letra, algo que visivelmente vem sendo corrigido, já que ele cantou a maior parte dos versos fielmente. Mais uma incursão pelo novo disco se deu com "The Bottom of my Soul", uma canção cantada inteira e somente por Rafael Bittencourt, que já disse ser esta uma faixa muito pessoal para ele, que realmente soa bem emocional mas que eu, particularmente, acho uma das duas "menos fortes" do novo disco – uma "Light of Transcendence" ou uma "OMNI – Silence Inside", que eu os vi tocarem no Carioca Club em São Paulo, teriam mais força ao vivo –, mas nem de longe foi ruim. E, já que era pra ter um tom emocional naquele momento do show, dificilmente a banda teria escolhido melhor canção que "Lisbon" ("Fireworks", 1998), cantada a plenos pulmões por todos os fãs presentes. Para encerrar a primeira parte do show, uma última escolha do novo disco: "Magic Mirror", que soa como uma "Upper Levels" mais sentimental e amadurecida, bem Prog, mas com mais feeling, certamente uma canção surpreendente. Este momento eu vou guardar na memória como o momento no qual finalmente consegui pegar uma palheta do meu guitarrista brasileiro favorito – Rafael Bittencourt – que voou em minha direção depois do interlúdio da canção!
Para o bis, Rafael Bittencourt volta sozinho para o palco enquanto seu roadie posiciona seu violão. Enquanto ele discursou sobre este ser o terceiro grande momento na carreira do ANGRA e agradecer a todos os ex-integrantes que contribuíram e deixaram suas marcas no grupo (que o dão suporte até hoje, ele mesmo admitiiu), eu pensava "Legal! Qual canção será que ele vai cantar e tocar em formato acústico?". Explico: na entrada do bis, ele vinha alternando entre "Reaching Horizons", "Lullaby for Lucifer" e "Gentle Change" mas, mesmo em meu segundo show do ANGRA nesta turnê, não dei sorte e não vi nenhuma dessas, hahaha! Ele foi apresentando um a um os integrantes da banda para, então, executarem "Rebirth", um momento há muito tempo clássico nos shows deles e que dificilmente será excluído das setlists. Para encerrar, "Nova Era" (que veio sem a introdução "In Excelsis"), botando um ponto final numa apresentação não menos que excelente, pela vibe, pelo repertório e pela atmosfera criada pelo ótimo momento que a banda vive.
Lembra que eu falei lá em cima que nem só de clássicos vive o ANGRA? Pois é... Na semana anterior a este show, a banda gravou um novo DVD em São Paulo e somente uma canção dos anos 1990 se fez presente: "Carolina IV" (que eu esperava muito que eles tocassem em Sorocaba, mas só esperei mesmo). Neste show, somente duas desta mesma fase vieram: "Nothing to Say" e "Lisbon". Quando se fala em anos 1990, fala-se em primeira formação ou mesmo Andre Matos. E olha, nunca pensei que um dia eu fosse dizer isso, mas que bom ver a banda tão desprendida do passado (sem desrespeita-lo, claro) e valorizando tanto seu momento presente. De 15 canções, 8 foram lançadas nos dois últimos discos, sendo 6 do mais recente. A banda realmente entendeu a força de seu trabalho atual e o está valorizando tanto quanto cabe num show (algo que, analisando em retrospecto, eu acho que eles deveriam ter feito nas épocas do "Aurora Consurgens" e do "Aqua", dois discos que são ótimos e extremamente injustiçados). Até por eles já terem comemorado os 20 anos de "Angels Cry" e de "Holy Land", acho ainda mais válida essa aposta no novo, no diferente. Tomara que eles continuem nadando na contramão dessa nostalgia que acometeu o show business e continuem trazendo novidades em discos vindouros e shows tão bons como os que vêm fazendo. Long live ANGRA!
SETLIST:
01) Newborn Me
02) Travellers of Time
03) Angels and Demons
04) Nothing to Say
05) Insania
06) Running Alone
07) Caveman
08) Upper Levels
09) Black Widow’s Web
10) Spread your Fire
11) The Bottom of my Soul
12) Lisbon
13) Magic Mirror
14) Rebirth
15) Nova Era
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