Dream Theater: A junção de um show visual, auditivo e conceitual
Resenha - Dream Theater (Vivo Rio, Rio de Janeiro, 23/06/2016)
Por Mylena Britto Perez
Postado em 26 de junho de 2016
No início desse ano de 2016, a banda de metal progressivo Dream Theater lançou seu décimo terceiro álbum, intitulado The Astonishing. O álbum consiste num cd conceitual duplo, que contém ao todo 34 faixas e 2h e 9 min de duração. A história se passa numa distopia futurista americana, um mundo onde arte e música não mais existem nem são permitidas pelo governo, sendo a única música que a população conhece o ruído eletrônico criado por máquinas de som do estado, os NOMACS. Em meio a um governo totalitário e uma população que nunca ouviu música, o álbum relata os esforços da milícia rebelde que luta contra o império, tendo foco num personagem que tem o dom da música. Luta, traição, amor, todos esses são temas que permeiam o novo álbum que tem gerado certa discordância entre os fãs da banda. Melodicamente composto por uma grande variedade de baladas e com bem menos da comum "fritação" tão adorada pelos fãs do DT (Dream Theater), o álbum é inovador e diferente em muitos sentidos. Ao invés de grandes músicas, é composto por pequenas e inúmeras faixas, tanto instrumentais quanto cantadas, que incluem passos, falas e outros elementos que fazem parecer que se está ouvindo a um filme, sem precisar ver as imagens.
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A turnê mundial do The Astonishing passou pelo Brasil essa semana e aqui, seguiu a risca o modelo de show que foi apresentado na Europa. A banda se apresentou apenas em locais com estrutura para receber o público sentado em todos os setores. O álbum foi executado na íntegra e o setlist era composto de suas 3 faixas, tendo um intervalo de alguns minutos entre os dois atos. Diferente de outras turnês, não houve bônus de músicas clássicas da banda ao fim do espetáculo, e o palco foi montado de forma diferenciada. No Vivo Rio, no dia 23 de junho, a banda começou o show com um atraso de meia hora que não pareceu desanimar ninguém. Na casa cheia, com setores esgotados, inclusive os mais caros, aonde o ingresso chegou a 530 reais por cadeira, o público assistiu emocionado a uma experiência única. Isso porque a banda criou uma experiência conceitual não apenas no álbum, mas na apresentação ao vivo em si.
Em muitas entrevistas, Petrucci é visto falando sobre o porque de, nesse momento da carreira, criar um álbum tão diferente e controverso. A banda explica que o álbum foi feito como uma forma de trazer de volta o hábito, há muito perdido, de se ouvir a um cd como um todo, e não apenas ouvir uma faixa legal de um artista, pular para outra no celular e assim por diante, como bem se sabe que fazemos hoje em dia. A proposta da banda era fazer uma história que devesse ser ouvida na íntegra para ser experimentada em sua plenitude e não apenas ouvida, mas vivenciada nos shows ao vivo. A banda só se apresentou em locais que possuíam estrutura para suportar a quantidade de tecnologia de palco, luzes e telões que compunha o espetáculo.
Bem, no Vivo Rio havia um set de telões de tamanho diferentes atrás da banda, posicionados em diferentes posições no palco, luminárias de época, bandeiras do império e da milícia e muito mais. Ao longo da apresentação, se passava como um filme da história por trás da banda, personagens do álbum, lutas, romance, um show de imagens, luzes e tecnologia compunha o espetáculo THE ASTONIHSING, mostrando que a turnê apresenta muito mais que apenas as músicas do cd. NOMACS passavam pelo telão em faixas instrumentais, olhando para o público, lançando luzes coloridas e faixas de luz branca na galera, que assistia boquiaberta a um espetáculo único.
Quanto à apresentação, tudo parecia estar sendo feito como um metrônomo, não houve erros significantes, e a banda deu um show de simpatia. A voz de James LaBrie, que teve a tarefa de interpretar ao vivo todos os personagens do álbum foi perfeita. Uma das melhores interpretações que já vi ao vivo por qualquer cantor. Nenhum deslize, e todos os personagens e seus diferentes timbres vocais, sussuros, drives, agudos, tudo foi interpretado com maestria por LaBrie, que faz um tempo vinha sendo criticado por estar "perdendo" a voz de antigamente. Outro destaque foi Mangini, que deu um show de simpatia por trás das baquetas, comunicando-se com o público, brincando e entregando uma apresentação inesquecível, sendo possível ver em seus olhos que ele mesmo estava se divertindo absurdamente por fazer parte de tudo aquilo.
Com a junção de um show visual, auditivo e conceitual, a banda provou que o álbum realmente não foi feito para ser escutado sem atenção, pulando-se faixas e sem entender as letras. Bem mais que "uma reunião de baladas monótonas" como alguns fãs acharam de início, a turnê The Astonishing no Vivo Rio provou que esse álbum foi todo bolado para reforçar a proposta da banda de que uma obra musical deve ser apreciada por inteiro. A arte, a música, como foco central do conceito de The Astonishing fez com que o público sentisse que estava fazendo parte de algo maior. A sensação era a de se estar incluído na trama, entendendo mais a cada faixa executada, a importância da desautomatização da música, da conservação do hábito de se apreciar uma obra inteira, por completo, dando a ela tempo, lendo as letras, experimentando a experiência conceitual dela plenamente e não em pequenos pedaços desconexos, como é o costume moderno. Tudo parece ter sido pensado nos mínimos detalhes de uma forma que, em minha opinião, nunca antes foi apresentada no metal moderno. Por fim, o Rio de Janeiro foi invadido por um público emocionado, com homens e mulheres (me incluo nesse time) que choravam e cantavam a plenos pulmões durante uma apresentação de 3h que passou longe de ser cansativa e estará para sempre na memória dos seus participantes. A experiência que a banda proporcionou aos fãs nessa noite foi mais do que inspiradora, devo dizer, foi transformadora.
Ato I
1. "Descent of the NOMACS (Instrumental)"
2. "Dystopian Overture (Instrumental)"
3. "The Gift of Music"
4. "The Answer"
5. "A Better Life"
6. "Lord Nafaryus"
7. "A Savior in the Square"
8. "When Your Time Has Come"
9. "Act of Faythe"
10. "Three Days"
11. "The Hovering Sojourn (Instrumental)"
12. "Brother, Can You Hear Me?"
13. "A Life Left Behind"
14. "Ravenskill"
15. "Chosen"
16. "A Tempting Offer"
17. "Digital Discord (Instrumental)"
18. "The X Aspect"
19. "A New Beginning"
20. "The Road to Revolution"
Ato II
1. "2285 Entr'acte (Instrumental)"
2. "Moment of Betrayal"
3. "Heaven's Cove"
4. "Begin Again"
5. "The Path That Divides"
6. "Machine Chatter (Instrumental)"
7. "The Walking Shadow"
8. "My Last Farewell"
9. "Losing Faythe"
10. "Whispers on the Wind"
11. "Hymn of a Thousand Voices"
12. "Our New World"
13. "Power Down (Instrumental)"
14. "Astonishing"
Obs.: Não há muitos vídeos (bons) das apresentações no Rio, pois fotos e vídeos eram extremamente proibidos e até as últimas músicas, qualquer fã que levantasse um celular ou câmera era rapidamente abordado pela segurança do Vivo Rio (SIM, FOI BIZARRO)
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