David Gilmour: A "experiência completa floydiana" em Londres
Resenha - David Gilmour (Royal Albert Hall, Londres, 23/09/2015)
Por Daniel Takata Gomes
Postado em 02 de outubro de 2015
"A experiência completa de um show do Pink Floyd, exceto pelo nome". Assim foi definido o show do dia 23 de setembro de David Gilmour no Royal Albert Hall pelo diário britânico The Telegraph.
Gilmour não é um homem de muitas palavras ou shows, especialmente em se tratando de sua carreira solo. De fato, esta é apenas sua terceira turnê fora do Pink Floyd, e a última aconteceu há longos nove anos, quando da ocasião do lançamento de seu terceiro álbum de estúdio, On An Island.
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Ele já declarou que não é um workaholic como alguns contemporâneos seus, leia-se Paul McCartney, Rolling Stones e outros. E que essa seria uma turnê "adequada para um homem velho." Ou seja, poucos shows e talvez a última turnê em muito tempo. Ou simplesmente a última turnê, dado o avanço de sua idade (completará 70 anos em 2016).
Por isso, quando em março foram anunciados os apenas 11 shows da turnê europeia, os ingressos se esgotaram em questão de minutos. Subsequentemente, shows nos Estados Unidos e na América do Sul foram anunciados, também com grande procura.
Não é de se estranhar, portanto, que a plateia que compareceu ao icônico Royal Albert Hall no primeiro dos cinco shows dele por lá, no dia 23 de setembro, fosse tudo menos caracteristicamente inglesa. Fãs viajaram de todas as partes do mundo para testemunhar a voz e a guitarra do Pink Floyd. Se Roger Waters é o gênio criativo, David Gilmour é o mais frequente intérprete dos clássicos. E canções como Wish You Were Here e Comfortably Numb sem o seu toque não soam Pink Floyd o suficiente.
E a "experiência completa floydiana" descrita pelo The Telegraph estava lá. Jon Carin e Guy Pratt, músicos de apoio do Pink Floyd desde 1987, continuam com Gilmour. A produção do show fica a cargo de Marc Brickman, colaborador de longa data da banda. O telão circular acima do palco, marca registrada da banda, também está lá. Há também muitos lasers e gelo seco. Ou seja, podemos definir o show como um mini PULSE, em referência ao show que retrata a superprodução da década de 90.
Boa parte do show foi composto por canções de seu álbum recém-lançado, Rattle That Lock. Com cinco minutos de atraso, a banda entra no palco sob luzes apagadas, mas o primeira nota da guitarra que ecoa durante a música 5 A.M. não deixa dúvidas: é David Gilmour, com seu som caracteristicamente reflexivo e profundo, bends com uma sonoridade única. A faixa título do álbum funciona muito bem ao vivo, e é inspirada em três notas que tocam nas estações de trem da França. Mas as novas que mais agradam são Faces of Stone, que Gilmour escreveu em memória de sua mãe; a reflexiva In Any Tongue; e A Boat Lies Waiting, com participação especial dos lendários David Crosby e Graham Nash, e dedicada ao falecido tecladista do Pink Floyd e grande amigo de Gilmour, Richard Wright.
Mas a atração principal da noite são obviamente as canções do Pink Floyd. Wish You Were Here é a primeira: apesar da voz um pouco fragilizada, a emoção é a mesma da faixa original gravada em 1975. Money e Us and Them, do lendário Dark Side Of The Moon, voltaram a ser tocadas por Gilmour nessa turnê após tê-las apresentado pela última vez em 1994, ainda com a banda. High Hopes representa o álbum The Division Bell e é talvez a canção auge do Pink Floyd após Roger Waters ter deixado a banda. Astronomy Domine, Shine on You Crazy Diamond e Fat Old Sun são ovacionadas efusivamente. Run Like Hell, do álbum The Wall, traz um show tão espetacular de luzes que a banda se apresenta de óculos escuros!
Durante a canção, um espectador mais empolgado se levanta e começa a andar com os braços levantados (e óculos escuros!) no meio da plateia da arena. Logo, cinco se juntam a ele. E mais dez. E no fim, todo o Royal Albert Hall está de pé. Ouvi comentários, obviamente vindo de ingleses, mencionando que o Royal Albert Hall perdeu um pouco da "etiqueta britânica", com muitos aplausos e gritaria no meio das músicas e obviamente na agitação que tomou conta no final do show. Cortesia evidentemente da plateia internacional que veio dos quatro cantos do mundo.
Gilmour volta para o bis para Time e Comfortably Numb, cantadas em uníssono pela plateia. Gente que, como eu, vê pela primeira vez ao vivo o solo que é tido por muitos o melhor da história do rock não controla as lágrimas - mesmo que a parte originalmente cantada por Roger Waters seja interpretada aqui aos trancos e barrancos por Crosy e Nash. Faltou ensaio. Mas a parte de Gilmour, como sempre, e perfeita.
Uma ausência notável foi Coming Back to Life, ansiosamente aguardada por muitos e que havia sido tocada nos dois shows anteriores.
Nota: o show marcou a estreia na turnê do saxofonista brasileiro radicado em Londres João Mello, trazido pelo ex-Roxy Music Phil Manzanera, que também toca na banda. Tive a oportunidade de conversar com João após o show, e ele revelou que estava bastante nervoso no início, mas se soltou ao longo do show a ponto de receber uma salva de palmas após seu solo em Us and Them. Perguntei se ele teve alguma influência na vinda de Gilmour ao Brasil, e ele jura que não sabia de nada, nem mesmo que iria tocar em Curitiba, sua cidade natal.
No mesmo dia em que um saxofonista brasileiro estreou na turnê, foi anunciado o show extra de David Gilmour em São Paulo devido à alta demanda de ingressos. Mais do que nunca, o Brasil está no mapa da lenda do Pink Floyd. A julgar pelo que foi apresentado em Londres, os fãs brasileiros não ficarão desapontados.
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