Iron Angel: Um dos mais empolgantes shows que Fortaleza já viu

Resenha - Iron Angel (Grab, Fortaleza, 23/08/2015)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

O Underground Metal Festival tem firmado seu nome na cena como um dos mais aguardados festivais de Heavy Metal do Ceará. Rivalizando com opções apoiadas (nem sempre da forma merecida) pelo poder público como ForCaos, Rock Cordel e Eusébio Rock Day, o festival promovido pela Underground Produções tem sido mais uma maratona de grandes shows, apostando sempre em uma atração internacional como headliner mas abrindo espaço também para grandes nomes nacionais. Foi assim no primeiro (quando teve que lidar com o cancelamento da turnê de ONSLAUGHT e ARTILLERY e acabou se tornando melhor que o inicialmente projetado com a inclusão de bandas icônicas e veteranas como a TAURUS e da britânica M:PIRE OF EVIL, formada por ex-membros do cultuado VENOM), no segundo (quando mesmo concorrendo com um gigante do progmetal fez a alegria dos bangers com o TOXIC HOLOCAUST) e não seria diferente nesta edição, dando aos cearenses a oportunidade (quase inimaginável) de ver os pioneiros do speed metal, IRON ANGEL. Embora a noite tenha terminado prematuramente (você saberá o porquê mais adiante), o evento ficará, como já é costume do UMF, na memória dos headbangers. Confira abaixo tudo o que aconteceu.

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TOXIC TRASH

Ainda para um público pequeno (como é comum em qualquer início de festival), mas muito atento a cada detalhe, a TOXIC TRASH foi a primeira a subir no palco do Grab (o local escolhido para a terceira edição do Underground Metal Fest) e despejar seu thrash metal rápido, cheio de riffs, viradas, solos arrebatadores e um grande diferencial: letras em português. A banda, apesar de não ser uma das mais conhecidas, tem alguns músicos experientes, que tocam em outras bandas como DYNAMITE e FLAGELO. O vocalista, Galo, com a cara vermelha, e seus comparsas não economizaram no ódio em canções sobre filmes de terror e uma dedicada aos ex-colegas de banda. Em "Templo das Sombras", o vocalista avisou que para quem gosta de igreja, havia uma do lado (sim, havia uma funesta Universal do lado, mas, nesse domingo o bairro tremeria era ao som do metal). Ambos os guitarristas (Francisco Mustaine e Anderson Nunes) incluem seus solos nas composições, inclusive nas introduções das músicas (a de "Reino da Corrupção" é muito marcante). E como se não bastasse, cada guitarrista ainda faz seu solo no meio da música.

Foto: Roberto Barros
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BERSECK

Ao cair da noite, os três guerreiros da BERSECK trouxeram para o UMF o mais puro death metal. Com um show direto, mas rico em detalhes e com grandes atuações de Raul Fernandes, no baixo (de seis cordas) e Henrique na bateria (estendendo seu papel puramente rítmico ao fazer muito uso dos pratos). O vocal de Jardel Reis, ex-guitarrista do FIST BANGER, gutural e poderoso impressiona. Tanto que parece outra pessoa quando se dirige ao público pela primeira vez (só antes da última música). Foi um show para quem gosta de ficar com o pescoço doído. À banda só falta investir mais na divulgação do seu trabalho para que tenham o reconhecimento que lhes é merecido.

Foto: Roberto Barros
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Foto: Roberto Barros
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CARCARÁ

Agora, a demora. Depois de muitos falsos inícios, o show da CARCARÁ realmente começou pra valer com "Batizado com Sangue". E em "Tribunal da Morte" o público parecia já ter esquecido a longa espera e se entregou às rodas de mosh, o que se seguiu em "Comandante do Caos" e "Armamento Biológico". Em "Sodomy and Lust", cover do SODOM, o vocal/guitarrista põe a máscara de gás, enquanto o baixista assume o vocal. O caos reinou. O resultado não foi nada ruim, mas a verdade é que havia até um receio de que o baixista não conseguisse ir até o final. Nem sei como ele conseguia tocar, pois estava visivelmente e terrivelmente bêbado. E ainda misturava vinho e cerveja o tempo inteiro. O show terminou com "Cachaça Terror" (com participação espontânea de Rodrigo Esquizofrênico, do BLASFEMADOR. Foi apenas metade do set programado (e ainda foi demais), faltando sons como "Ressurreição dos Seres Ocultos" e "Enforcado com Arame Farpado", por exemplo.

Foto: Roberto Barros
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REVEL DECAY

Os quatro maníacos da REVEL DECAY mostraram muita presença de palco quando assumiram o principal posto do GRAB, principalmente o vocalista Leonardo Tepes e o baixista Eri Lima. O Death Metal do quarteto é avassalador, hipnotizante e os grunhidos de Tepes são praticamente ininteligíveis. Era até mais possível entender o que Tepes dizia com os olhos do que a letra das canções. Depois da "recreação no necrotério" promovida por Tepes, Eri e também pelo baterista Helano Oliveira e pelo guitarrista Carlos Henrique, só os demônios tinham sobrevivido.

Foto: Roberto Barros
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ANARKHON

Os primeiros visitantes, a banda paulista ANARKHON, trouxe seu gore death metal para o GRAB exclamando que era uma "honra do caralho" poder tocar ali pela primeira vez nos quinze anos de existência da banda. O CANNIBAL CORPSE brasileiro trouxe sons como "Execução Fetal". A atenção foi um pouco drenada quando Dirk Schroeder e os outros alemães do IRON ANGEL apareceram no meio do público. Voltando novamente para o que acontecia no palco, a constatação era de que o som dos caras ao vivo é ainda melhor que nos CDs, com muitos solos, bateria sempre arrebentando. E a loucura no GRAB foi completa com uma cover de ninguém menos que os mestres do CANNIBAL CORPSE, "Stripped, Raped and Strangled". Também rolou "Rotten Flesch", entre outras do novo álbum (de capa polêmica). O vocalista terminou o show lembrando que era uma honra tocar em Fortaleza e revelando que era um prazer quase tão grande quanto costurar corpos, e fecharam o show com um dos primeiros sons da banda, que atende pelo inocente nome de "Satisfação em Costurar Um Corpo com Arame Farpado", com solo de baixo e vocais sensacionais. Os paulistas fizeram um bom show e certamente serão muito bem recebidos sempre que quiserem retornar.

Foto: Roberto Barros
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IRON ANGEL

A hora do público fortalezense se encontrar com a atração principal não demorou muito (a troca de palco foi até mais rápida que a de algumas outras bandas locais que a antecederam). O baterista Schrotti, os guitarristas Jojo e Mitsch Meyer, o baixista Didy Mackel e o vocalista Dirk Shroeder, a nova formação dos mestres do speed metal. O show não poderia começar melhor do que com uma tempestade de metal, através de "Metalstorm", do álbum de 1986, "Winds of Fire". Apesar de ter apenas dois full-lengths, a banda é cultuada pelo sucesso que fez nos anos 80, sendo este disco e o seu predecessor "Hellish Crossfire", essenciais para o gênero. Depois de um longo hiato, a banda volta à ativa com apenas Dirk da formação original e novos músicos. A despeito disso, pela técnica e carisma, o quinteto rejuvenescido estava desde o início fazendo um dos mais empolgantes shows que Fortaleza teve notícia.

Foto: Roberto Barros
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"Alo, Fortaleza. É sensacional estar aqui com você, você, você", Dirk aponta para todos os lados. E continua: "Tem pecadores aqui hoje à noite?". E a roda muito veloz, stage dives e até uma galera arriscando dividir os vocais foi a resposta do público, completamente ensandecido. Esse público merecia e recebeu "The Metallian", clássico do "Hellish Crossfire" e uma das mais aguardadas da noite e, como previsto, foi o ponto alto do show. Dirk estava extremamente feliz, brincalhão, não parava de interagir com o público um minuto sequer, até dava o próprio microfone para o público. Até mesmo numa parada não programada no meio de "Fight For Your Life", aquele senhor alemão ficava frescando, zoando, ou qualquer outro termo que o leitor queira usar. Dirk tinha, em poucos minutos, se tornado tão cearense quanto qualquer um ali.

Foto: Roberto Barros
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Em "Son of A Bitch", por pura traquinagem, Dirk ainda escolhe alguém da plateia como vítima. Claro que todos, inclusive a tal vítima, entenderam e entraram na brincadeira, dividindo com o baterista e o baixista o refrão. Didy, o baixista, ainda ganhou um carinho na careca feito pelo vocalista. Mais tarde, em "Legions of Evil", outra do "Hellish...", Dirk ainda tentou dar início a uma wall of death, mas o que rolou foi uma roda que tomou conta de todo o lugar. "Hey, Hey, Hey", gritava o público acompanhando as notas do baixo. Dirk ainda pede desculpas em "Hunter In Chains", "sinto muito, sou um homem velho" mas a surpresa maior vem do guitarrista Mitsch Meyer. O cara simplesmente abandona o palco com a guitarra na mão e vai tocar no meio do público. E por um bom tempo. Incrível. Um show de...um show de show. Uma aula de como interagir com o público dada não só pelo frontman, mas por todos os músicos. O baixista Didy ainda tocava com o baixo na cabeça, com o baixo de cabeça pra baixo, com o baixo como se fosse uma metralhadora, disparando marteladas no público sedento por metal. Apenas o baterista Schrotti não se excedeu (e nem podia, preso ao seu banquinho) na empatia com o público. Essa troca de energia entre público e banda, entre banda e público, isso é que faz um show ser bom.

Foto: Roberto Barros
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Foto: Roberto Barros
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Ainda rolaram "Black Mass" e "Heavy Metal Soldiers" quando aconteceu o inesperado.

A administração do local desligou a energia do palco. O show já passava do horário permitido (o GRAB fica situado em meio a uma área residencial no Bairro do Antônio Bezerra). E não houve negociação. Os apelos da produção não foram atendidos. Banda e fãs ficaram desolados. E o mais triste disso tudo é que faltavam apenas mais três músicas no repertório ("Heavy Metal Soldiers", "Stronger Than Steel" e "Rush of Power"). Menos de quinze minutos a mais teriam sido suficientes para evitar aquela má-impressão. E toda a empolgação de Dirk, toda a sua entrega, todo o seu ânimo veio abaixo. E eu vi um alemão chorar.

Boa parte do público já tinha ido embora. Ainda estávamos ali atônitos. Enquanto os demais músicos já pareciam conformados, Dirk sentou-se num canto e chorou. Era o sete a um inteiro em cima daquele que tinha compartilhado tanta alegria momentos antes. O show tinha sido curto. Na verdade, pela intensidade da troca de energia, nem poderia ser mesmo longo, mas terminar daquela forma foi algo completamente absurdo. Claro que não podemos isentar a produção de culpa. A Underground é responsável por trazer à capital do Ceará e à muitas outras cidades, diversas atrações internacionais e, como em muitos shows anteriores e nas duas primeiras edições de seu festival, fez tudo direitinho, cuidou de cada detalhe, mas pecou ao não ter mão mais firme com algumas bandas, cancelar pelo menos um show das bandas que antecederam a atração principal do festival. Sempre procuramos apoiar as bandas de abertura. Jamais fizemos cobertura alguma sem contar tudo o que aconteceu durante o show de cada banda que participou de algum evento que recebeu a nossa atenção, seja ela de abertura, headliner ou até banda de encerramento, então estamos isentos para dizer que algumas bandas, a despeito do tempo de estrada, devem repensar suas atitudes. Se o baixista de uma delas não é capaz sequer de abotoar a correia de seu instrumento, sem agir com a seriedade e profissionalismo que qualquer trabalho pede, talvez seja melhor, na amizade, deixar para uma outra oportunidade. E a culpa também não foi de uma banda só. Todas as bandas devem aprender a respeitar o tempo de troca de palco. Os horários devem ser rígidos. Os intervalos entre um show e outro não são um problema. São até necessários. Dão tempo ao público para uma ida ao banheiro (a propósito, passou por uma reforma e estava muito adequado), uma visita ao bar, comer alguma coisa, bater um papo com os amigos, conferir o merchandising à venda (e havia muito ali, de vários selos, era difícil resistir à tentação de sair distribuindo reais e enchendo a mochila de CDs). Mas os tempos de troca de palco tem que ser seguidos à risca. Não se pode arriscar ter uma banda levando uma lembrança tão triste para casa no encerramento de uma turnê que foi sucesso em várias cidades do Brasil.

Bem, não foi o fim do mundo. Coisa pior já aconteceu em outros lugares, com outros produtores. E até o boss BRUCE SPRINGSTEEN já teve seu som cortado lá na Terra da Rainha. A banda alemã fez ainda um show de uma hora e cinco minutos, faltando três músicas apenas. E em todos os outros aspectos a produção (como já muitas vezes ocorrera em shows da mesma produtora) foi impecável. Equipamentos de ponta, boa estrutura, som de alta qualidade. Se não tivesse havido a demora de algumas bandas, tudo seria mais uma vez nota 10. E como toda crítica bem intencionada serve de alerta, que esta sirva de wake-up call para quem acha que para tocar no underground não precisa de profissionalismo. O acontecido não mancha o nome da Underground Produções nem de seu festival (que certamente terá muitas outras edições). E logo Dirk estava conversando comigo sobre o quanto estava ansioso para ir pra casa, para os braços da esposa com quem é casado há mais de 20 anos. Apesar de curto e de ter terminado de forma tão repentina, aquele tinha sido um dos melhores shows que eu já tinha assistido. E me fez lembrar, mais uma vez (era preciso?) porque é que eu gosto de heavy metal. E que venha o número 4.

Agradecimentos:
Fabrício Moreira, pela atenção e credenciamento.
Roberto Barros, pelas fotos que ilustram esta matéria.

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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