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Exilio Angel

Deep Purple: No Planalto sem Ian Gillan

Resenha - Deep Purple (Net Live, Brasília, 07/11/2014)

Por Lucas Esteves
Postado em 14 de novembro de 2014

Havia uma atmosfera de grande expectativa positiva na última sexta-feira, dia 7 de novembro, para a primeira apresentação do DEEP PURPLE em Brasília desde 1997. Famílias inteiras, fãs de longa data e aqueles que conhecem apenas os clássicos deixaram o Net Live Brasília cheio, mas com bons espaços para movimentação no meio do público. Mas aparentemente ninguém estava pronto para uma surpresa negativa e que foi, de certa forma, um balde de água fria.

Para além do fato de que a grande banda iniciou o show com a quase desconhecida "Apres Vous", do novo "Now What?!", o que realmente causou surpresa foi o estado físico lamentável do vocalista IAN GILLAN. Totalmente sem voz e apoiado no pedestal aparentando estar às portas do desmaio, o Silver Voice assustou seriamente a plateia, que o via puxar o fôlego com grande dificuldade, exibir expressões de dor e grande cansaço. Foi praticamente incapaz de cantar a nova composição. A cada parada na voz, seguia para trás do palco.

A maioria dos fãs se entreolhava e se perguntava qual era o problema. Até o momento, o microfone não estava totalmente ajustado para o show, então muitos não se deram conta imediatamente. Entretanto, a sequencia com a pesada "Into The Fire", do "In Rock", escancarou a impossibilidade de se apresentar por parte de Gillan. De todas as palavras e notas da canção, era possível contar nos dedos das duas mãos tudo o que saiu pela boca do cantor e seu semblante de sofrimento.

"Está bêbado?" "Está drogado?" foram algumas das questões feitas pelo público que estava na plateia. Entretanto, com o histórico de moderação assumido pelos vovôs já há algum tempo devido à idade, não parecia ser o caso. Com o tempo, e a chegada de "Hard Loving Man" e "Strange Kind Of Woman", sofríveis nos vocais e excelentes no instrumental, foi possível perceber que a possibilidade mais óbvia era de que Ian Gillan estava bastante doente e que corria para a coxia em busca de nebulização. Ao voltar, aguentava alguns segundos a mais e logo voltava a convalescer intensamente.

"Vincent Price", canção nova da sequência, deixou muita gente muito preocupada, inclusive este que escreve esta resenha. Ao deixar o refrão praticamente sem voz alguma, Gillan voltou a seguir para trás do palco, mas saiu se segurando nos teclados de Don Airey e na parede do palanque atrás da bateria. Naquele momento, realmente pareceu que não escaparia ao desmaio. Muitos ergueram as mãos como se tentassem apoiá-lo, mas por sorte o vocalista conseguiu chegar inteiro ao refúgio.

Ian Gillan chegou a comentar brevemente sobre a dificuldade que o show daquela noite lhe oferecia, mas confesso não ter conseguido entender completamente o que foi dito do local onde estava. Foi, porém, suficiente para que o público estabelecesse com ele uma relação que misturaria uma espécie de pena pela sua condição e apoio para conseguir lhe fazer chegar ao final do show, com a galera sustentando a maioria da apresentação no berro, empurrada por guitarra e teclados em volume altíssimo.

Confira no vídeo as grandes dificuldades de Ian Gillan em "Into The Fire", "Hard Loving Man" e "Strange Kind Of Woman".

Apenas na vinheta "Contact Lost" houve algum descanso mais prolongado ao vocalista, que deixou a plateia com o virtuosismo de Steve Morse. O americano teve em Brasília uma noite particularmente "suja" e agressiva em termos de pegada na guitarra – impressão que atesto tamanha a quantidade de shows que já ouvi da banda com Morse na formação.

Vários minutos depois, a novata "Uncommon Man", com seu sensacional riff de teclado a la fanfarra puxando a banda, trouxe de novo Gillan a palco, novamente em uma performance terrível na qual quase não cantou e contribuiu para diminuir a força da canção. Para ajudar o cantor, o número foi encerrado com "Well Dressed Guitar", instrumental para novamente mostrar o enorme talento dos músicos e dar ao público a certeza: este era um show do Deep Purple que Ian Gillan não cantaria. Aproveitemos, então, a banda.

Esta, felizmente, jamais decepciona. Em uma canção rara ao vivo, "The Mule" entrou para dar a Ian Paice os holofotes em seu solo de bateria. Mesmo idoso e sem um pulmão, o Buddy Rich do rock ainda é capaz de trazer uma ótima exibição em que vários dos seus licks clássicos surgem, mesmo que em duração diminuída pelos motivos óbvios. Na volta, a nova "Hell To Pay", um tom abaixo do original registrado em "Now What?!" e mesmo assim terrível, voltou a lembrar que tivemos o azar de estar presentes em uma das piores noites do Silver Voice.

Logo após, Don Airey divertiu a plateia com excelente solo de teclado em que conseguiu ao mesmo tempo ser ele mesmo e Jon Lord com grande nível de convencimento. A partir de então, proteger Gillan já era basicamente o objetivo da noite. A volta com Lazy tinha vários minutos instrumentais e, na volta dos vocais, houve apenas o entoar dos versos e o – àquela altura - heroico solo de gaita, tocado com muito esforço e com vibração entusiasmada da plateia para dar uma moral extra.

Restava esperar o fim da apresentação desejando a manutenção da vida de Gillan e apreciando o grande trabalho conjunto de Morse, Paice, Airey e o sempre discreto e seguro Roger Glover, o que ocorreu com "Space Trucking", "Perfect Strangers" – bastante celebrada pelos fãs e com Gillan errando a ordem da letra, ainda por cima – e o encerramento pré-bis com Smoke On The Water.

Encerraram o show "Hush" e "Black Night", em encores previsíveis dentro das apresentações. Na despedida, Ian Gillan agradeceu a devoção da plateia, mas o grupo ignorou os pedidos de "Highway Star". A saída do show tinha uma sensação de decepção, mas ao mesmo tempo de alegria. Afinal, pudemos ver em casa por mais de uma hora e meia a incomparável apresentação coletiva de uma das melhores bandas do gênero da história, mas ao mesmo tempo desfalcada de um pedaço de grande importância afetiva para todos.

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Só que não vai dar para esperar outros 17 anos para uma nova oportunidade de redimir este sentimento.

(Nota do redator: infelizmente não tive a chance de anotar o setlist do show e posso ter incorrido em erros ao me esquecer de alguma canção. Qualquer leitor que a tiver feito e notar erros, por favor os avise nos comentários, pois serão de grande ajuda)

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