O Rappa: show com ênfase nas canções novas agita Fortaleza

Resenha - O Rappa (Mucuripe Club, Fortaleza, 08/11/2013)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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Na sexta-feira, 8 de novembro, dois eventos dividiram mais uma vez a atenção dos cearenses que gostam de rock e também de reggae. Um deles aconteceu no Mucuripe Club, um dos maiores complexos de entretenimento da cidade, com dois grandes nomes nacionais, O RAPPA (com sua mistura indefinida de rock, reggae, dub e o que mais der para encaixar) e PONTO DE EQUILÍBRIO, um dos maiores expoentes no Brasil do ritmo jamaicano e que já repetiu a parceria com O RAPPA inúmeras vezes. Os regueiros foram os responsáveis por abrir a noite e esquentar os ânimos de nove mil pessoas mandando sons como "Árvore do Reggae" e outras músicas, todas com conteúdo lírico refletindo a filosofia rastafari da banda. Nota: por problemas de saúde na família deste redator, esta resenha só pode ser finalizada mais de uma semana após o evento.

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Fotos: Marcelo Sousa

Já no domingo, uma e dez da manhã, o apresentador sobe ao palco e anuncia a atração principal da noite, O RAPPA, arrancando muitos gritos da multidão que lotava todos os setores do Mucuripe Club, mas não é imediatamente que a banda sobe ao palco. Após a introdução, Marcelo Falcão (vocais) já fala ao público sobre a aceitação do disco novo e de sua fé, sem definir nenhuma religião específica: "Nossa religião é nossa fé e ela é gigante e ninguém pode nos parar. Nunca tem fim. Nunca tem fim. Nunca tem fim".

Abrindo o setlist, a over-procuced "O Horizonte é Logo Ali", cantada pelo público mesmo sendo uma das faixas novas, seguida da também novata "Auto-reverse". Nas duas, Falcão empunha uma segunda guitarra ao lado de Xandão, mas é o baixo de Lauro Farias que domina tudo. O RAPPA nunca foi de deixar de lado a parte visual de seus shows, incluindo sempre algum cenário ou até mesmo grafites que iam sendo construídos a medida que os shows avançavam. Nos shows dessa turnê, que apresenta ao público o novo lançamento, "Nunca Tem Fim", o palco é tomado por "containers". Na verdade, tecidos com estampa de container que ocupam todo o cenário e servem de tela para seis projetores, exibindo imagens relacionadas a cada música tocada, como, por exemplo, a contagem de "amarildos" em "Monstro Invisível". As imagens eram simples, comparadas com outras já vistas por aqui e em São Paulo, mas ajudam a passar o que as canções querem passar. Além dos containers, outro elemento no cenário são os canhões de luz (contei 31), que também dialogam com as canções, como, por exemplo, deixando todos os músicos com uma tonalidade amarelada na pele em "Homem Amarelo".

E se as canções recebiam projeções nos containers de tecido, "Cruz de Tecido" exibiria, discretamente, um avião se aproximando do chão. Foram necessários seis anos para que alguma banda nacional fizesse uma faixa sobre as vítimas do acidente da TAM em 2006 e sobre a dor das quase duzentas famílias que sequer puderam abraçar novamente seus entes tão queridos. Este redator conheceu uma dessas vítimas e teve que, de certa forma, terminar de cumprir o trabalho que ele tinha começado. Sua família, no entanto, só pode reconhecer seu corpo dez dias depois do acidente. Outras quatro dessas vítimas sequer deixaram vestígios. Restou a esperança vã e a certeza cruel. No CD, um barulho de bebê pode ser ouvido rapidamente no início da música. Além dos 199 mortos da contagem oficial, pelo menos 2 bebês, de duas mulheres grávidas também perderam a oportunidade de ser entregues à luz. É uma homenagem a todas essas pessoas (mas também poderia ser em homenagem aos mortos de Santa Maria ou dos deslizamentos no Rio ou mesmo sobre os " mirins" que matam e morrem em Fortaleza, tantas tragédias anunciadas, nenhum acidente). A canção é enlutada, triste, mas indignada, explodindo em revolta. "Quem foi?", pergunta Falcão na letra. "Você sabe quem é". Ele, eu, você e até mesmo o taxista que encontrei pouco depois da tragédia (e que por pouco também não morreu no mesmo episódio) sabemos quem são os culpados. A primeira dama do país na época (e seu marido) que esse mesmo taxista costumava conduzir também sabe quem são.

Falcão aproveitou a música para falar o que pensa sobre vários assuntos. Ele lembrou que teremos copa do mundo, mas saúde e educação nós não temos (se soubesse um pouco mais sobre o Ceará também teria dito que nos falta segurança pública). "Que tenhamos pelo menos paz", continua ele, além de pontuar que "qualquer manifestação pacífica, O RAPPA tá dentro". "Paz", pede ele. E ainda mencionou o programa Mais Médicos, do Governo Federal, dizendo que "não precisamos trazer médicos de fora, mas dar condições aos que formamos aqui". Sobre o clamor das ruas, Falcão ainda alertou: "depredar patrimônio público e privado é burrice. Eles vão cobrar dez, vinte vezes mais".

De volta à segurança do chão, "Meu Mundo É O Barro" e, em uma versão mais pesada, "Mar de Gente" pôs um mar de gente (o trocadilho é inevitável) pra pular logo nos primeiros acordes do baixo de Lauro Farias. Lauro e seu baixo são a alma da banda. Xandão, os pés que a movem. Os irmãos Lobato e o DJ Negralha, o cérebro criativo. E Falcão, os punhos.

Elas foram seguidas por "Boa Noite Xangô" , mais uma do "Nunca Tem Fim". A faixa, dançante, empolgante, simples, despretenciosa, é, na verdade, uma das melhores do novo disco e merecia estar recebendo mais destaque que algumas de suas "irmãs super-produzidas". Felizmente, está sendo, pelo menos, frequente nas últimas apresentações da banda. Mas é o riff de guitarra da próxima canção que anuncia que tudo vai explodir. "Lado B Lado A" vem como prova de que, no palco, O RAPPA ainda é o RAPPA.

Interessante foi notar que Falcão apoia a cabeça no ombro antes de anunciar "Vida Rasteja", mas uma composição nova. As diferenças entre ambos parecem ter sido esquecidas. Na canção, multiplas sonoridades saem dos dois teclados e do DJ Negralha, quase ofuscam o solo de Xandão. O resultado final, entretanto, é belo e com um quê de praiano. Ao fim da faixa, apenas o DJ Negralha e o baterista Felipe Boquinha ficam no palco e o staff joga garrafas de água para o pessoal da grade. Mas ainda não era hora para um bis e, felizmente, saberíamos mais tarde que o show ainda estava na metade.

De volta ao palco, Falcão pede palmas para Dominguinhos e menciona Chorão e Champignon, os três falecidos recentemente. É "Súplica Cearense" e durante a execução da música, o vocalista da PONTO DE EQUILÍBRIO sobe ao palco, transformando a música em uma canção de Luiz Gonzaga transforma-se numa canção de BOB MARLEY ("Get Up Stand Up") por alguns instantes.

Algo que ainda falta em Fortaleza (e em 99,9999 de todas as cidades brasileiras) é um melhor tratamento a portadores de necessidades especiais em todos os shows. É claro que temos avançado, principalmente nos shows que acontecem na Arena Castelão (como o do PAUL MCCARTNEY, por exemplo) mas ainda há muito a fazer para que essas pessoas (que pagam seus ingressos como qualquer outra) se sintam convidados a frequentar mais e mais shows. O frontstage não é local apropriado, mesmo quando o PNE pode contar com o apoio de muitos amigos, como foi o caso de Wilker Girão, cujos amigos fizeram uma rodinha ao seu redor para protegê-lo da muvuca geral e chegaram a levantá-lo em sua cadeira sobre a multidão, além de abaná-lo constantemente para que ele pudesse respirar melhor. O pit dos fotógrafos também não é (como já vi em outros shows), pois, além de dificultar a visibilidade do PNE, atrapalha o trabalho de quem realmente deve ocupar aquele espaço.

Um bom exemplo do que pode ser feito está em minha resenha do último show dos B-52s em São Paulo (texto abaixo). Também em São Paulo, um exemplo do que deve ser evitado a todo custo, no texto de Cláudio Medina Jr. (ver abaixo).

https://whiplash.net/materias/shows/189916-b52s.html

https://whiplash.net/materias/opinioes/190791-blacksabbath.ht...

"Zóio de Lula", do CHARLIE BROWN JR tem feito parte dos setlists do RAPPA recentemente, numa homenagem aos já citados ex-integrantes da banda. Em Fortaleza, assim como no show de lançamento de "Nunca Tem Fim", no Rio de Janeiro, a música teve participação de Vinícius Falcão, irmão de Marcelo Falcão. Mais uma do disco novo, "Fronteira" e Falcão nem precisa cantar em "Rodo Cotidiano". A multidão se torna o vocalista d'O RAPPA.

"7 Vezes", faixa título do disco anterior, deixa apenas Falcão e Xandão no palco, acompanhados pelas palmas do público. Ela é seguida por "Pescador de Ilusões", numa belíssima versão.

Perto do fim do show, Falcão ainda declara: "Se há um lugar onde eu quero me esconder é Fortaleza. Eu amo esse lugar" e fala das bandeiras do Ceará e do Fortaleza, os dois maiores times da capital. "Anjos", single do disco novo que já rola nas FMs não poderia ficar de fora. Nos containers, a nave da capa do disco passeando por Júpiter e outros mundos até chegar a um mundo de montanhas e anjos, terminando com a imagem do Cristo Redentor e um solo redentor de Xandão. O show terminaria com "Reza Vela" (com os canhões mais uma vez dando um show de iluminação) e a catarse de "O Salto". Das vinte e uma músicas do setlist, sete foram do último lançamento (apenas três não foram executadas, mas eu substituiria fácil "O Horizonte É Logo Ali" por uma delas). Muitos clássicos ficaram de fora, como "Hey Joe", "Minha Alma", "Miséria S.A.", "A Feira" e "Ilê ayê ( que bloco é esse )". Para quem esperava por eles, o show pode nem ter sido tão bom, mas, para quem queria ver um show completamente diferente de outros da mesma banda na capital cearense, o saldo foi extremamente positivo. E por falar em shows com teor inesperado, O RAPPA é sempre eficiente, com seus arranjos bem livres em relação o trabalho de estúdio e a interpretação de Marcelo Falcão.

Agradecimentos: Tatiana Pavarino e Arte Produções, pela atenção e credenciamento.

Fotos da apresentação da PONTO DE EQUILÍBRIO

Setlist O RAPPA

1. O Horizonte é Logo Ali
2. Auto-Reverse
3. Monstro Invisível
4. Homem Amarelo
5. Cruz de Tecido
6. Meu Mundo é o Barro
7. Mar de Gente
8. Boa Noite Xangô
9. Lado B Lado A
10. Vida Rasteja
11. Súplica Cearense/Get Up Stand Up (Luiz Gonzaga/Bob Marley)
12. Me Deixa
13. Zóio de Lula (CHARLIE BROWN JR. )
14. Fronteira (D.U.C.A.)
15. Rodo Cotidiano
16. 7 vezes
17. Pescador de Ilusões
18. Reza Vela
19. Anjos (Pra Quem Tem Fé)
20. O Salto




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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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