Black Sabbath em São Paulo: o desrespeito à acessibilidade
Por Claudio Medina Junior
Postado em 21 de outubro de 2013
Sempre defendi as coisas do nosso país, e relutei com argumentos à aquelas pessoas pessimistas que insistem dizer: "Ah aqui no Brasil ta tudo errado, se fosse lá fora seria diferente e blá blá blá". Mas, em um critério específico eu sou forçado a concordar: "O povo brasileiro ainda não tem educação". Infelizmente pude comprovar este fato ao vivo e com meus próprios olhos, e vou relatar aqui a todos vocês.
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Estive dia 11 de outubro de 2013 no Campo de Marte em SP, para o show da lenda viva do Heavy Metal, os mestres do BLACK SABBATH, e ainda com abertura da banda MEGADETH. Uma noite perfeita para fãs da música pesada (como este que vos fala!), e que tinha tudo para ser histórica. Pelos shows, realmente foi fantástico e inesquecível para os que puderam estar ali presentes.
A minha ideia inicial era fazer uma resenha somente do show em si, e destacar pontos como a voz afinada do Ozzy (que me surpreendeu positivamente), os riffs destruidores do Iommi, as agulhadas do Geezer no baixo, e a agressividade nas baquetas do Clufetos. Falaria também do setlist matador, das imagens bem sacadas no telão e do belo espetáculo de luzes a cada música que era tocada. Citaria também sobre a emoção estampada no rosto dos fãs, por estarem realizando um sonho de ver aqueles caras com mais de 40 anos de história, bem ali a sua frente. Porém, este texto vem para abordar um tema que pode não ser muito atrativo a todos os leitores, mas que precisa ser levantado: O Desrespeito à Acessibilidade!
Bem, comecemos falando dos portões de entrada do show. Os deficientes que foram naquela noite ao Campo de Marte sofreram um bocado, primeiramente porque haviam algumas ruas interditadas devido ao grande fluxo de pessoas presentes no evento, fato este que impedia a aproximação de carros para um desembarque de cadeira de rodas, por exemplo. Eu mesmo tive de descer bem longe e andar muito para chegar a entrada e depois também na saída. Sem falar que onde desci não havia rampa de acesso, muito menos guia rebaixada, e com isso o jeito for andar no meio da avenida. Entrada exclusiva para deficientes também não existia, enfim, uma pura falta de consideração por parte da organização do evento (obs.: nós deficientes não temos acesso livre como muitos pensam, pagamos o ingresso caro assim como todo mundo).
Após estes inconvenientes e já tendo adentrado ao local, fui abordado por um dos brigadistas do evento que me orientou e me guiou até a área reservada para deficientes. Detalhe que esse meu trajeto foi no meio da galera mesmo, sorte que cheguei cedo, mas imagino os cadeirantes que chegaram depois, cada um com a sua dificuldade em se locomover, e tendo que encarar toda aquela multidão. Mas até aí não teve muita novidade, o fato mais grave aconteceu posteriormente.
Havia duas áreas para deficientes, uma na pista comum e outra na pista premium. Ao chegar na área reservada da pista premium, local onde eu fiquei, já pude notar coisas erradas logo de cara. O local onde estávamos tinha uns 60 cm de elevação do chão, quando passava alguém com um pouco mais de estatura a nossa frente já tampava nossa visão, mas até que isso não foi relevante e foi possível ver o show sem muitos problemas. Logo atrás de nós ficava a área de deficientes da pista comum, com os mesmos 60 cm de elevação, e mais atrás estava o público da pista comum. Ao meu lado tinham alguns deficientes sozinhos, e outros que estavam junto com seus acompanhantes. Pois bem, foi exatamente daí que surgiu o problema. Os acompanhantes que ali estavam, não sei se por falta de consciência ou por puro oportunismo, ficavam de pé. Isso tampava a visão do pessoal que estava na área de deficientes atrás de nós, aí eles por sua vez resolveram também ficar em pé, o que consequentemente encobriu a visão da galera da pista comum que estava logo atrás. Ou seja, uma sucessão de erros que gerou um descontentamento coletivo.
Este fato revoltou a galera da pista comum atrás da gente, que reclamavam com razão. Durante o show do MEGADETH já se notava um clima de tensão no ar, a cada intervalo entre uma e outra música o pessoal lá atrás gritava "senta, senta, senta", mas eram completamente ignorados pelos acompanhantes dos deficientes que continuavam em pé, e as vezes até zombavam olhando para galera lá atrás e mostravam o dedo do meio, puro desrespeito. Na hora que começou o BLACK SABBATH não teve jeito, já cansados de reclamar, algumas pessoas lá do fundo começaram a jogar copos cheios de urina e outros objetos em direção a área de deficientes da pista comum, e logo em seguida pularam e invadiram o local.
Houve um principio de confusão e alguns deficientes tiveram de ser retirados para não se machucar e até pra evitar um acidente caso aquela área elevada desabasse. Isso sem falar que entre eles havia uma moça gestante de quase 9 meses, só pra se ter ideia do risco. Um amigo meu que anda de muletas me relatou que no meio dessa bagunça esbarraram nele com força e por isso ele saiu de lá com dores nas costas. Depois de alguns minutos desta invasão, os seguranças subiram lá e retiraram as pessoas, sendo que para alguns mais exaltados a polícia de choque teve de intervir. Com os ânimos mais acalmados, e após o susto que levaram, os deficientes puderam voltar a sua área reservada. Importante citar também que os deficientes tiveram que se segurar em seu respectivo acompanhante para que não expulsassem as pessoas erradas, enfim, foi um momento muito constrangedor.
Bem, você leitora ou leitor pode até chegar a conclusão de que a culpa deste incidente foi da organização do evento, e justificar que de repente eles não esperavam que comparecesse um número tão grande de pessoas com necessidades especiais, ou por não disponibilizarem cadeiras aos acompanhantes dos deficientes, ou pelo simples fato de não terem orientado essas pessoas de que ali naquele local não era permitido ficar em pé. Eu entendo perfeitamente este raciocínio, mas penso um pouco diferente.
Acredito que se esses acompanhantes que ali estavam, fossem pelo menos um pouco conscientes, nada disso teria acontecido. Eu sou cadeirante, fiquei lá na área de deficientes da premium, sentadinho sem atrapalhar ninguém, mas mesmo assim me senti culpado pelos que estavam lá atrás, achei uma palhaçada. Posso falar por experiência própria, sei exatamente a frustração que é você pagar caro em um ingresso de sua banda favorita e mal conseguir ver o show pelo telão, já senti isso na pele uns anos atrás e sinceramente não desejo isso a ninguém.
Pra concluir, tenho um humilde pedido a fazer. Você que tem um amigo ou um ente querido que é portador de necessidades especiais, seja cadeirante ou o que for, pense bem e reflita da próxima vez que você acompanha-lo em um show ou um evento qualquer. Ajude com carinho e seja o braço direito daquela pessoa, mas por favor não incomode as outras pessoas que estiverem a sua volta. Imagine que um dia você pode estar lá atrás sentado com um pé enfaixado, e querer que as pessoas a sua frente não encubram a sua visão. Não faça com os outros algo que você não gostaria que te fizessem, seja sempre justo com o seu próximo.
Eu comecei esse texto dizendo que "o povo brasileiro ainda não tem educação". Esta palavra "ainda" significa que eu tenho esperanças de que em um dia não muito distante nós seremos um povo mais civilizado, creio mesmo, de verdade. Só depende da consciência de cada um de nós. Seja exemplo para os outros, faça o bem e você receberá sempre o bem.
Nós deficientes não queremos privilégios, apenas queremos respeito!
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