Roger Waters: Ça Ira, experiência nova e peculiar para roqueiros
Resenha - Roger Waters (Ça Ira, Teatro Municipal, São Paulo, 02/05/2013)
Por Alexandre Caetano
Postado em 19 de maio de 2013
Não são raras as intersecções entre o rock e a música erudita. Dos arpejos e escalas transpostos pelos guitarristas às apresentações conjuntas de bandas como Metallica e Scorpions com orquestras, as contribuições são sempre muito bem-vindas.
Em "Ça Ira", mais que uma intersecção, existe o trabalho direto de Roger Waters, que com a colaboração do regente Rick Wenteorth trabalhou dezesseis anos sobre o libreto de Étienne e Nadine Roda-Gil para a composição desta ópera, cujo enredo homenageia a Revolução Francesa.
Do ponto de vista técnico a obra recebeu críticas pela influência do período clássico da música erudita, na contramão de compositores contemporâneos, como György Kurtág ou Steve Reich. Entretanto o próprio Waters afirmou que essa não foi uma preocupação e suas influências são mesmo os compositores antigos, como Brahms e Beethoven. À parte do estilo, a ópera é uma verdadeira aula de história sobre o marco da transição entre a monarquia absolutista e a república, com seus ideais iluministas.
Utilizando a metáfora mais clássica para a liberdade, o espetáculo começa com o questionamento: os pássaros podem cantar? Em uma época em que a sociedade era muito menos segmentada, dividida basicamente em uma pequena parcela das pessoas formando a nobreza e o clero de um lado, e a esmagadora maioria formando a plebe do outro, a liberdade era meramente uma ideologia distante. Seu anseio vinha acompanhado da preocupação em esclarecer que este princípio deveria valer para todos, para que os oprimidos não tivessem como meta simplesmente passar ao lado opressor. Respondendo à pergunta acima, o texto da ópera indica que nem todos os pássaros podem cantar, muito menos em todos os lugares.
Conforme a demanda pelo livre arbítrio ganhou força através de movimentos que cobravam mudanças através da república, cresceu também a resistência armada dos monarcas, que enviavam os revolucionários para o hospício, que constitui o cenário do espetáculo, tachando os mesmos de loucos.
Os primeiros sinais do período iluminista, pregando a luta através do conhecimento e dos livros em meio a um período obscurantista, foram mesmo encarados como loucura, tanto que nem todos os plebeus aderiam à causa e muitos acreditavam no discurso dos opressores contra as manifestações, até que lentamente o movimento contra a monarquia ganha força suficiente para uma revolta e ataque ao hospício que encarcerava revolucionários.
Desprezando o poder popular, até então inexpressivo, a rainha seguia realizando suas festas megalomaníacas em meio à pobreza da população, que após muita luta toma o poder para a queda da monarquia. Se Mozart chocou a sociedade austríaca por compor óperas em inglês, dá para imaginar como seria a reação frente uma apresentação de "Ça Ira", com uma rainha repetindo incessantemente "damn rain, damn life..." (porra de chuva, porra de vida...), representando o estranhamento de uma situação completamente nova para a nobreza, que incrédula com a perda do poder, tenta salvar o que for possível na bastilha ocupada e em meio ao banho de sangue proporcionado pela luta.
Neste ponto, após pouco mais de uma hora de apresentação, a obra tem seu intervalo, oferecendo ao público alguns minutos para processar toda a informação exposta. É uma sensação estranha acompanhar uma encenação tão intensa sobre a luta entre pobres e ricos há mais de duzentos anos, para em seguida andar pelos luxuosos corredores e salões do Teatro Municipal de São Paulo, símbolo de riqueza e opulência, rodeado pelos mendigos do centro da cidade. Seria exagero dizer que nada mudou, mas infelizmente os ideais de liberdade e igualdade estão extremamente distantes de nossa realidade.
Ao retornar para os últimos setenta minutos da ópera somos apresentados a uma aparente nova realidade. As tecnologias voltadas para a imprensa facilitaram a difusão dos materiais escritos e consequentemente o acesso à informação. Porém, como foi dito anteriormente, a pequena parcela da população que detinha o poder era formada por nobreza e clero, sendo que com a monarquia temporariamente derrotada o papa e demais representantes da igreja posicionaram-se contra os direitos do homem.
Se hoje as igrejas têm influência sobre as opiniões dos fiéis, há duzentos anos essa influência era muito mais forte. Com a monarquia falida e a nobreza dividida entre os que fugiam e os que eram assassinados pelos iluministas (que não por acaso diziam que a humanidade só seria feliz quando o último rei fosse enforcado nas tripas do último padre), a igreja foi a grande responsável por frear moralmente a revolução em andamento e propiciar a volta da monarquia, com a população amplamente massacrada.
Com os ideais de liberdade e igualdade – juntamente com a fraternidade, mais ideológica do que prática – um pouco mais enraizados e permeados pela sociedade em transição, novas tentativas de derrubar a monarquia e implantar a república ganharam força com o passar do tempo. Entretanto, pela revolução, as execuções começaram a fugir do controle e os próprios revolucionários eram julgados de forma tão rigorosa que acabavam na guilhotina.
O espetáculo se encaminha para o final indicando que a revolução passa a tentar amadurecer com erros e resgatar os próprios princípios, inclusive o da fraternidade, inevitavelmente esquecido durante as execuções impiedosas, para atingir a liberdade real. Seus pilares, imortalizados nas três cores da bandeira francesa, seguem como desafio até os dias atuais.
A conclusão da ópera idealiza homens julgados pelos atos, não pelas posses, repetindo a frase "Ça Ira" (traduzido oficialmente como "há esperança", informalmente seria algo como "agora vai").
Acompanhar uma ópera, para quem está acostumado somente com as diversas vertentes do bom e velho rock ´n roll, é uma experiência nova e bem peculiar, mas mesmo sem o hábito ou o conhecimento técnico, é possível notar o talento indiscutível de Roger Waters, que desde o auge do Pink Floyd vem demonstrando facilidade ímpar para unir música de qualidade com engajamento político e conhecimento histórico.
Com a carreira mais que consolidada e fiéis seguidores como fãs, Roger Waters não precisaria sequer vir ao Brasil para a montagem de seu espetáculo, porém como grande artista que é, fez questão de subir ao palco no fim de cada dia de apresentação, levando ao delírio os fãs do Pink Floyd, que destoavam entre a elite paulistana, habituada a assistir às óperas do Teatro Municipal.
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