Chuck Berry: Existe Rock N' Roll depois dos 80 anos?
Resenha - Chuck Berry (Vivo Rio, Rio de Janeiro, 17/06/2008)
Por Vitor Bemvindo
Fonte: MOFODEU
Postado em 19 de junho de 2008
Após 16 anos sem pisar em solo tupiniquim, Chuck Berry fez em São Paulo o primeiro show da curta turnê que fará pelo Brasil.
Confesso que estava ansioso e nervoso para o show, por dois motivos: primeiro, por estar diante da maior lenda viva do rock, que influenciou inúmeros artistas e bandas como os Beatles, Stones, Clapton, Hendrix, Page, e até mesmo Angus Young, do AC/DC. O segundo motivo era que pela primeira vez faria uma cobertura oficial de um show e, não poderia misturar meus sentimentos de fã, e deveria ser frio o suficiente para fazer uma análise sensata do show para os ouvintes do MOFODEU. Estava lá, credenciado como imprensa, graças ao programa que tira o MOFO do ROCK.
Quando Berry entrou no palco e vi aquele ancião empunhando a clássica Gibson semi-acústica vestindo calças negras de tergal, camisa cintilante vermelha e chapéu estilo marinheiro, minhas pernas tremeram e mal consegui fotografar e fazer o vídeo da primeira canção executada: "Memphis Tennessee". Só conseguia pensar: "Estou a poucos centímetros de distância de um dos responsáveis por uma das minhas maiorias paixões: o Rock ‘n’ Roll".
Depois desses instantes de tiete, parei para tentar analisar aquele momento com um pouco mais de isenção e constatei que o tempo, cruelmente, tinha passado. É claro que não esperava ver um garoto correndo pelo palco, fazendo a dança do pato, cantando com voz juvenil e tocando com o vigor de 50 anos atrás. Mas tampouco esperava ver um senhor de 81 anos, talvez por conta da ilusão que temos de que, tal como suas obras, os gênios não envelhecem. Mas antes de tudo, eles são humanos, como eu, ou você, que lê esse texto.
Apesar da voz rouca, Berry esbanjou simpatia, bom humor e parecia estar se divertindo.
A platéia, composta na sua maioria por figurões engravatados – que além de pagar entre 200 e 400 reais, se enchiam dos melhores vinhos, whiskies e champanhes – e subcelebridades, que inicialmente demonstrava frieza, logo foi conquistada pelo carisma de Berry, que após terminar "Memphis" tentou executar uma canção em espanhol. Logo se desculpou por ter estudado apenas dois anos de castelhano na escola. Provavelmente não lhe avisaram que no Brasil se fala português.
O show seguiu com clássicos como "My Ding-A-Ling" e "Sweet Little Sixteen", quando começaram a ficar evidentes as deficiências que a idade traz. Algumas das canções pareciam quase irreconhecíveis por conta da mudança do andamento, já que Berry, evidentemente, não conseguiria acompanhar as músicas em seu andamento original.
Esperava que Berry estivesse acompanhado por uma grande banda (tanto em quantidade de músicos, quanto na qualidade destes), mas fui surpreendido por apenas um tecladista (Bob Lohr), um baixista (Jim Bassala), bateria (Maguinho Alcântara) e um outro guitarrista (Chuck Berry Jr.) que não mostraram muito entrosamento. Todos estavam um pouco melindrados por conta dos andamentos alterados, improvisações e alguns erros cometidos por Chuck. Eles se entreolhavam constantemente e tentavam acompanhar o mestre, que começou a mostrar que não apresentava a mesma forma de outrora. Mais tarde, descobri que o baterista – o mais perdido de todos – era um brasileiro, que foi chamado para completar a banda.
É bom ressaltar que, durante muitos anos, Berry viajava sozinho, sem levar ao menos sua própria guitarra, tocando apenas com instrumentos, equipamentos e músicos. Desta vez ele trouxe alguns chegados, mas que pareciam não estar muito ensaiados. O filho do mestre demonstrou algum talento em alguns solos, assim como Lohr, mas faltava uma liga entre eles.
Em "Wee Wee Hours" Berry, enfim, acertou um bom solo, mas logo depois, quando assumiu o ritmo para seu filho solar, derrapou em alguns acordes.
Apesar dessas deficiências, a simpatia da lenda conquistava os engravatados, que apesar de claramente não conhecerem as músicas, puxavam suas esposas com cabelos armados para dançar no salão.
Em certo momento, um "desinformado" (para não usar palavras de baixo calão) gritou da platéia: "Yesterday!". Chuck se assustou e respondeu: "Hey Man! Essa música não é minha, é dos Beatles, mas se você quer...", e então cantou alguns versos da canção de Lennon e McCartney improvisando algumas notas na guitarra. Infelizmente, essa não seria a única demonstração de ignorância da platéia.
Mesmo assim, Berry não perdeu o humor e aí começou a atender aos pedidos vindos do auditório. Tocou "Maybellene", "You Never Can Tell" e "Johnny B. Goode" (quase irreconhecível por conta dos erros nos acordes clássicos e do andamento arrastado). Durante o seu maior clássico, ele se empolgou e ensaiou alguns passos de sua dancinha mais tradicional: o "Duck Walk", conhecida por aqui como a Dança do Pato.
Nesse momento a platéia de engravatados se empolgava, quando o mestre pediu para que algumas meninas subissem ao palco para que lhe acompanhassem em "Reeling and Rocking", dançando. Foi aí que houve uma verdadeira invasão não só de mulheres, mas de alguns marmanjos sem-noção que munidos de discos e canetas partiram para cima da lenda do rock, causando grande confusão. Os seguranças tiveram que agir emprensando Berry (visivelmente constrangido e assustado) entre a multidão e uma caixa de som. A banda teve que interromper a canção e esperar que os brutamontes tirassem pelo menos metade das pessoas do palco.
Quando a confusão foi minimizada, o show foi retomado por alguns minutos, mas logo Chuck Berry deixou o palco de fininho, deixando a banda com as muitas "dançarinas" no palco. Coube ao filho do mestre se despedir e apresentar a banda. Ao fim de pouco mais de 45 minutos de música, o show estava terminado, e eu decepcionado por achar que a confusão havia abreviado a duração do espetáculo. Depois soube que nos últimos anos, Berry faz apresentações que nunca ultrapassam os 50 minutos.
Apesar dos poucos acordes certos, dos solos despropositados, da curta duração e da falta de educação do público, saí do Vivo Rio satisfeito. Não pelo espetáculo em si, que deixou bastante a desejar, mas por ter tido a oportunidade de estar perto de um dos maiores nomes da história do Rock. O coroa está inteiro fisicamente, mas sinceramente não consigo entender o porquê dele continuar na ativa. Por que não usufruir de uma bela aposentadoria aos 81 anos? Talvez ele sentisse falta da diversão dos shows... Mas, quem sou eu para questionar uma lenda do rock? Porém me pareceu que o "Junior" está interessado em ter uma atividade no futuro.
Nada disso é capaz de manchar a belíssima trajetória de Chuck Berry. A obra dele já está na história e continua viva em cada banda de garagem e nos grandes nomes que seguiram seus passos.
Cotação MOFODEU: 5,00/10,00
Vitor Bemvindo
PS: Gostaria de agradecer, uma vez mais, a assessora de imprensa do Vivo Rio, Bianca Labruna, por permitir que o MOFODEU cobrisse o show.
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