Resenha - Ben Harper (Florianópolis, 20/01/2007)

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Por Ricardo Seelig
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Tradicionalmente deixada de fora da rota dos shows internacionais que passam pelo Brasil, Florianópolis assistiu, maravilhada e extasiada, uma apresentação antológica de Ben Harper e seus Inocents Criminals, no dia 20 de janeiro.

Estimativas oficiais dão conta de um público de mais de 12 mil pessoas, o dobro do registrado na abertura da tour brasileira de Harper, quinta, dia 18, em Porto Alegre. O fato é que o trajeto do centro de Floripa até o local do show, distante apenas 20 km, levou duas horas e meia!!! Chegando ao local o que se via era um mar de gente, carros estacionados na rodovia que liga Floripa às suas praias, todos ansiosos para encarar, pela primeira vez, Ben Harper frente a frente.

O trânsito fez com que muita gente perdesse o início do show de Donavon Frankenreiter. O americano, surfista e com visual de integrante dos Allman Brothers, fez um set correto e foi bastante simpático com a platéia, agradecendo a participação do público constantemente. Com uma banda econômica (o tradicional baixo-teclado-bateria, além dele próprio na guitarra), fez um set que passeou entre seus dois álbuns. O ar despojado e relax da apresentação acalmou o público, ansioso por Harper. Os destaques foram as músicas “Move By Yoourself” e “Fool”, de seu último disco, e os hits “Free” e “If Don´t Matter”, que fecharam o show com participação maciça do público.

Após um pequeno intervalo, Ben Harper e banda finalmente surgiram, ovacionados. Com uma entrada simples, cada integrante acenou para a platéia e pegou o seu instrumento. O americano sentou em sua cadeira, postada no centro do palco, empunhou a sua característica guitarra havaiana e começou a largar alguns acordes. A expectativa era enorme, afinal não se sabia qual seria o set list da noite, já que Harper costuma alterar bastante as músicas de show para show. Mas, logo que o público identificou as primeiras notas da pesadíssima “Ground On Down”, o El Divino veio abaixo. Nem bem o público havia se recuperado, Harper entregou o primeiro grande hit da noite. “Gold To Me” foi cantada por todos, indicando o início de uma noite especial.

A “zeppeliana” “Serve Your Soul”, do seu último álbum, “Both Sides Of The Gun”, veio na sequência, em uma viagem instrumental totalmente setentista. Até esse momento, Ben Harper continuava sentado, tocando agressivamente a sua guitarra haviana. Pois bem, chegou a hora do cara levantar, empunhar uma Gibson Les Paul e fazer o mais puro rock and roll sair voando pelas caixas de som. “Burn To Shine” levantou a galera, que, como iria fazer inúmeras vezes durante o show, cantou o refrão a plenos pulmões.

A cruza de country com rockabilly “Please Don´t Talk About Murder While I´m Eating” inicou um bloco dedicado ao novo álbum. “Black Rain”, crítica aberta a George W. Bush sobre a sua postura após o furacão Katrina, que devastou New Orleans, teve uma execução não menos que primorosa. A força e a raiva com que Ben cantou a letra foi de arrepiar. Após a canção, o excepcional baixista Juan Nelson solou o seu instrumento, levantando o público. Foi muito interessante perceber que, mesmo sendo uma jam instrumental (e com um instrumento que geralmente não ganha muito destaque), o público vibrava a cada nota e slap de Nelson. O simpático baixista foi ovacionado longamente (inclusive por Harper, que não se conteve e se ajoelhou no palco em reverência), e ganhou o público definitivamente.

Após a catarse coletiva que foi a longa execução de “Black Rain”, a calma e introspectiva “Morning Yearning”, que abre “Both Sides Of The Gun”, veio em boa hora, relaxando o público. O hit “Waiting For You”, também do novo disco, teve participação ativa da platéia, fechando o bloco dedicado ao álbum.

“Forgiven”, do “Burn To Shine”, foi uma boa surpresa, agradando em cheio os fãs mais xiitas, enquanto a ótima “Steal My Kisses” fez todo mundo dançar com seu balanço soul. A esta altura do show, a atenção do público era dividida entre Ben Harper e o baixista Juan Nelson, dono de um carisma incrível, que arriscava alguns passos de dança enquanto tocava o seu instrumento com o talento habitual.

O percussionista Leon Mobley começa o seu show particular com o hino “Burn One Down”, que cativa todos logo em seus primeiros acordes. Com participação maciça da platéia, Ben Harper executa uma de suas melhores canções, fazendo uma magia quase palpável invadir, pouco a pouco, o El Divino. Ao final da canção, a atmosfera está perfeita para a execução da “melhor música de Bob Marley não escrita por Bob Marley”.

“With My Own Two Hands”, canção que abre o álbum “Diamonds On The Inside”, provoca um grande transe na ilha de Florianópolis. Harper sente toda a energia e, visivelmente, fica emocionado em cima do palco, empolgando-se durante a canção, correndo de um canto a outro, provocando a platéia e conclamando todos a mudar o mundo com as suas próprias mãos. Quem conhece o músico sabe que ele é geralmente contido no palco, por isso foi extremamente gratificante perceber o calor dos fãs tomando conta de Ben, que não se segura e pula, grita, ajoelha-se, entrega a sua alma, arrepiando todos os presentes.

Foi com essa magia que a primeira parte do show terminou. A banda se retira sob um longo aplauso que tomou conta do local por longos minutos. Parecia que todos que estavam ali não queriam que aquela noite única acabasse. E ela não acabou.

Ben surge novamente no palco, agora sozinho. Calmamente pega o seu violão, senta-se em sua cadeira, e começa a dedilhar os acordes da emocionante “Another Lonely Day”. A platéia, como que retribuindo um pedido que não precisou nem ser feito por Harper, canta toda a canção delicadamente, como em um ritual. “Walk Away” dá sequência ao set acústico, e, ao seu final, Ben Harper se retira mais uma vez.

Todos sabiam que o passo seguinte seria a volta do vocalista com toda a sua banda, mas quando Ben apontou novamente no palco acompanhado por Juan Nelson, Michael Ward, Oliver Charles, Jason Yates e Leon Mobley, foram recebidos com uma ovação ensurdecedora. E isso se justificaria plenamente.

As quatro últimas canções executadas pela banda ficarão por muito tempo guardadas na memória de quem estava naquele sábado de janeiro na ilha de Florianópolis. “Sexual Healing” deu início ao bloco final do show. A canção de Marvin Gaye, que Ben Harper conseguiu deixar ainda mais sexy, transformou o El Divino em um imenso luau. Para completar, Harper não se conteve e chamou para o seu lado alguns fãs que estavam assistindo o show em cima do palco. Neste momento, mais de uma dezena de mulheres se postou ao lado do americano, e, em um misto de alegria, êxtase e “isso não pode estar acontecendo” cantou junto com ele e com o baixista Juan Nelson a eterna canção de Gaye. Dizem que Gustavo Kuerten, o Guga, também estava no palco essa hora, mas confesso que não percebi a sua presença. Ao final da canção, enquanto Ben conduzia as meninas para a lateral novamente, Juan Nelson era brindado com vários beijos de despedida das fãs, o que o fez ir ao microfone com um grande sorriso no rosto e entregar o jogo: “the girls want love”.

A aguardada “Diamonds On The Inside” veio na sequência, e, como era de se esperar, teve como companhia um coro imenso. Mas, subitamente, todos foram surpreendidos pela presença de Donavon Frankenreiter, dividindo os vocais com Ben Harper, o que levantou ainda mais o público.

Com a galera na mão, Harper paga novamente tributo a Bob Marley (durante a execução de “With My Own Two Hands” a banda executou trechos de “War”, do jamaicano) com “Get Up Stand Up”, que soou mais sua do que que nunca. A bandeira brasileira surgiu no telão nessa hora, fazendo pensar em como o manifesto escrito por Marley há quase trinta anos soa tão atual em nosso país.

Faltava apenas uma canção para a apresentação acabar, e ela não poderia ser outra. “Better Way”, o grito primal de Ben Harper e que é o carro chefe do álbum duplo “Both Sides Of The Gun”, elevou a energia do local a níveis estratosféricos. Harper disse em entrevistas que, apesar de alguns considerarem a sua postura romântica e ingênua, ele acredita no poder de mudança da música. Pois bem Ben, nós também acreditamos. Foi emocionante ouvir (e cantar junto com) milhares de pessoas cantando com a alma e com toda força “I believe in a better way!!!”.

Novamente Harper começou a pular e correr ensandecidamente no palco, empurrado pela energia que vinha da platéia. A banda encerrou a execução da canção, se despediu do público, mas Ben (a essa altura vestindo uma bandeira do Brasil atirada pelo público) não queria que o show acabasse, e começou a tocar novamente o riff da música em sua guitarra, estendendo a canção e levando a platéia a cantar junto por mais alguns minutos.

A banda que acompanhou o americano foi não menos que perfeita. O baixista Juan Nelson é hors concurs, só vendo para crer o quanto ele toca. O guitarrista Michael Ward, que entrou na banda substituindo Mark Ford, que voltou aos Black Crowes, executou com precisão seu instrumento, servindo de contraponto à exuberência técnica e a energia de Harper. O baterista Oliver Charles é extremamente preciso e seguro, enquanto o tecladista Jason Yates transformou, em vários momentos, a atmosfera do El Divino em algo similar a do Fillmore East. Já o percussionista Leon Mobley ... bem, ele é uma figura.

Como crítica negativa fica a constatação da evidente falta de estrutura do El Divino Club, local do show, que não tem capacidade de estacionamento para os milhares de carros que se dirigiram ao norte da ilha aquela noite, o que causou um congestiamento gigantesco, além do risco que os fãs tiveram que correr, estacionando seus carros no acostamento de uma rodovia (!!!).

Mas esse é um detalhe pequeno que não compromete em nada uma noite mágica. Ben Harper e os Inocents Criminals fizeram um show antológico em Florianópolis, entregando-se de corpo e alma no palco, emocionando-se junto a uma platéia emocionada por estar ali, frente a frente, com um artista ímpar e que se encontra em seu auge criativo. Um show que entrou para a história de Floripa, e que não irá ser esquecido tão cedo pelas milhares de pessoas que estiveram na ilha naquela noite de 20 de janeiro de 2007.

Set list:
• Ground On Down
• Gold To Me
• Serve Your Soul
• Burn To Shine
• Please Don't Talk About Murder While I'm Eating
• Black Rain
• Morning Yearning
• Waiting For You
• Forgiven
• Steal My Kisses
• Burn One Down
• With My Own Two Hands
Encore I:
• Another Lonely Day
• Walk Away
Encore II:
• Sexual Healing
• Diamonds On The Inside
• Get Up, Stand Up
• Better Way

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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