Resenha - Dr. Sin, Tribuzy e Kiko Loureiro (Circo Voador, Rio de Janeiro, 15/04/2006)

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Por Rafael Carnovale
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Boa iniciativa da loja Headbanger... após dois eventos em 2005 e a co-produção do show do Angra neste mesmo ano, a loja resolveu fazer um festival de rock/metal 100% nacional. Para tal convidou o Dr. Sin (que há dois anos não tocava no Rio de Janeiro), que está em turnê com seu novo CD “Listen To The Doctor’s”, a banda Tribuzy (que ainda devia um show completo aos cariocas depois do lançamento de “Execution”) e a banda solo de Kiko Loureiro. Uma boa iniciativa apoiando os nomes nacionais e dando-lhes a oportunidade de tocar no Circo Voador, um templo sagrado para o rock nos anos 80.

Fotos: Antônio César

Alguns problemas de ordem operacional, como atraso na venda de ingressos e o feriado da páscoa, fizeram com que o público não chegasse a lotar a casa, mas ao final foram computados 750 participantes. A abertura ficou a cargo dos cariocas do Reckoning, que subiram ao palco às 20h50 (com 50 minutos de atraso – mas sem muitos problemas). Em quase 25 minutos de show a banda executou números de sua primeira demo, e um cover para “Jawbreaker” do Judas Priest (com Gustavo, vocalista do Adagio como convidado). Números como “Weakness Shows It’s Seeds” e “Shadows Of Fear” mostram uma banda guerreira, que investe pesado no metal oitentista com toques de prog, mas que precisa de mais desenvolvimento, principalmente no que tange os vocais de Guilherme Sevens, ainda um tanto perdido, que precisa trabalhar mais seu potencial. Mas nada que o tempo não ajude a evoluir, e com certeza ouviremos muita coisa boa vinda do Reckoning.

Um rápido intervalo para a montagem do palco e Kiko Loureiro dá início a seu show solo, com Felipe Andreoli e Fernandão (Endrah e ex-Korzus) como convidados. A banda começa com “Pau De Arara” (do CD de Kiko, “No Gravity”) e temos então 50 minutos de um show que empolgou o público, e de certa forma surpreendeu a muitos, pois Kiko mostrou uma vontade e uma alegria incontrolável, chegando a levar a turma ao delírio em algumas passagens, como em “Endangered Species”, “Enfermo” e “No Gravity”. Houve espaço para um solo matador de Fernandão (que se mostra um dos melhores bateras brasileiros, com pegada e muito feeling) e para o baixo sempre presente de Felipe, um craque no instrumento. De fato confesso ter me surpreendido com o show, pois o cara definitivamente queria arrebentar, e deu até para esquecer alguns momentos de “quero ser Joe Satriani, mas não posso” que ainda permeiam a carreira solo de Kiko Loureiro. No fim, uma bela apresentação, e de longe o melhor som que eu já pude presenciar no Circo Voador.

Outro rápido intervalo e o “backdrop” de Renato Tribuzy já aparecia aos olhos de quem quisesse ver. Por volta de 23 horas a banda sobe ao palco ao som de “Execution”. Som este que, se estava perfeito na apresentação anterior, estava inconstante neste momento. Era curioso porque quem estava à frente do palco e nas arquibancadas escutava um som bem legal, enquanto que aos demais o som estava péssimo, sem guitarras e com baixo e bateria altíssimos. “Divine Disgrace” veio em seguida, e podemos perceber que Renato Tribuzy está fazendo o máximo para se desvincular da imagem criada por um CD recheado de convidados. A banda é uma banda mesmo, e tirando alguns exageros vocais do seu cantor (assim que ele dosar mais seus agudos sua performance crescerá muito) e sua mania de ser “o novo Bruce Dickinson” (tanto no visual como na performance) o show é bem legal e cativante. “Web Of Life” e “Absolution” (com Renato fazendo com talento as vozes de Michael Kiske) ficaram muito boas, assim como “Beast In The Light” e o cover para “Nature Of Evil” (Sinner), com Kiko Loureiro nas guitarras (novamente prejudicados pelo som tenebroso). O final se deu (obviamente) com “Bring Your Daughter To The Slaughter” (novamente com Kiko como convidado). Infelizmente esta música só fez evidenciar que Renato está no momento se portando como um clone do vocalista da donzela de ferro (ele pode fazer melhor). Um bom show, que mostra que a banda precisa evoluir muito ao vivo (afinal este não é nem o décimo show desta formação junta) e que foi prejudicado copiosamente pelo som. Mas a galera nem deu bola e foi à loucura...

A curiosidade rondava a apresentação do Dr. Sin... afinal a banda vem variando seu “set” constantemente e nem sempre apresenta as mesmas músicas registradas no novo CD. O intervalo para preparação do palco foi maior (a bateria de Ivan Busic foi montada na hora, ao contrário de Kiko e Tribuzy, que usaram o mesmo instrumento) e perto de 00h45, o quarteto (com o tecladista Rodrigo Simão) dá início a sua performance com o já tradicional “medley”de “Detroit Rock City” e “Love Gun” (pena que isto não foi para o CD, pois ficou fenomenal) e a já conhecida versão para “Calling Dr. Love” (detalhe que todos subiram ao palco com jalecos de médico e máscaras cirúrgicas, com o pano de fundo retratando a capa de “Listen To The Doctors”), seguida por “Sometimes” (aonde Andria tirou o jaleco e mostrou uma camisa com a face pintada de Gene Simmons, segundo relatos comprada na sessão de autógrafos feita na manhã do dia do show na loja Headbanger) e uma versão matadora de “Fire” (aonde Andria mostrou uma evolução vocal impressionante) e “Time After Time” (de “Dr Sin II”).

O problema e o grande senão do show começaria em “Down In The Trenches”. Durante sua execução a banda emendou uma imensa jam que durou quase 20 minutos. É óbvio que tudo foi muito bem executado, e que o talento da banda é evidente, mas esse longo e cansativo momento soou mais como uma exibição desnecessária de virtuosismo e uma necessidade de provar ao mundo que os caras tocam muito (coisa desnecessária, não?). E eu, juntamente com vários fãs me perguntava... “Por que isso?”.

Após a jam vieram músicas como “Isolated” (sensacional) e “It’s Alright” (Black Sabbath), com Ivan Busic no vocal. Outro momento incompreensível. É fato conhecido que a banda toca este cover constantemente, mas com um CD de versões na praça, com registros inéditos, porque levar esta música? Um erro de planejamento, na opinião deste que vos escreve. A banda ainda levaria “Dr. Rock” (uma versão para o clássico do Motorhead) e a já manjada “Futebol, Mulher e Rock And Roll” (o hit da banda, com a já conhecida interação com o público), encerrando 90 minutos de show, que, descontado o tempo das jams intermináveis, que nem a guitarra calibrada de Edu Ardanuy salvou, se transformaram em parcos 60 minutos de música. Muito pouco para uma banda do quilate do Dr. Sin, com o talento e habilidade dos integrantes, e com a história que a mesma carrega.

No final uma noite interessante. Se o Reckoning fez um show energético, Kiko Loureiro um show muito legal e Tribuzy um show que poderia ser melhor, o Dr. Sin nos propiciou dois momentos distintos: quando quis tocar música e fazer rock and roll, o fez com maestria, e quando quis encher nossos ouvidos mostrando o quanto tocam e o quanto podem ser chatos num palco com exibicionismo desnecessário, o fizeram com a mesma maestria. Aguardarei o próximo show... já que este ficou devendo.

Parabéns à Headbanger (que dia 22/04 trará o Destruction e ainda fará um show do Ira! em São Paulo) pela iniciativa.

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Sobre Rafael Carnovale

Nascido em 1974, atualmente funcionário público do estado do Rio de Janeiro, fã de punk rock, heavy metal, hard-core e da boa música. Curte tantas bandas e estilos que ainda não consegue fazer um TOP10 que dure mais de 10 minutos. Na Whiplash desde 2001, segue escrevendo alguns desatinos que alguns lêem, outros não... mas fazer o que?

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