Eric Clapton: o mestre além do bem e do mal
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 21 de julho de 2012
"Conheci" ERIC CLAPTON em 1991 assistindo às apresentações do então recém lançado "24 Nights", a série de shows registradas naquele ano no Royal Albert Hall. Havia um certo frisson em torno do guitarrista - um ano antes ele havia se apresentado pela primeira vez no Brasil em vinte e poucos anos de carreira, e toda a mídia esteve voltada para o evento - que teve algumas músicas transmitidas pela Globo em uma época pré - You Tube.
Se eu tentasse descrever aqui o impacto desses eventos em minha vida eu não conseguiria nem começar. CLAPTON foi para mim a descoberta que realmente me fez entender que música é muito mais do que algo que se escuta trancado no quarto. A partir dali, entrei em um caminho sem volta – louco, em meio a toda uma nova perspectiva com relação ao blues e rock n´roll - voltando toda a minha atenção (e grana) para discos, livros e qualquer outra tralha que envolva esse universo.
Me lembro perfeitamente de uma foto que saiu de CLAPTON em um jornal de grande circulação: de paletó e camiseta, barbudo com o cigarro entre as cordas das guitarra. Recortei aquele foto e colei atrás da minha porta: era o meu guia ou qualquer coisa do gênero. Comecei a tocar guitarra e tentei - em vão - copiar seus licks até a exaustão. Passei a vasculhar o passado de CLAPTON em busca de suas influências e me deparei com um mundo bem mais alcoólico, louco e criativo do que o mundinho que eu até então reconhecia.
Primeiramente comprei "Slowhand" em uma loja de departamentos - provavelmente na seção "Jazz-blues" (é mole?). O primeiro blues que ouvi conscientemente está lá- "Mean Old Frisco"- e a primeira resenha que escrevi na vida foi sobre esse disco. O fato de minha pura inocência não perceber que haviam várias guitarras gravadas no solo de "Cocaine" só serviu para aumentar minha angústia – como ele fazia aquilo?
As coisas começaram a fazer mais sentido quando me deparei com "Disraeli Gears" um tempo depois. Até então não conseguia enxergar além do blues como componente no som de CLAPTON: jazz, funk e rock n´roll estavam tão misturados, tão indistinguíveis que passei a compreender que WES MONTGOMERY e JAMES BROWN eram tão decisivos para aquele som quanto MUDDY WATERS ou ELMORE JAMES. As maravilhosas jams daqueles três caras me abriram a cabeça e criaram um interesse muito mais profundo para o som do LED e HENDRIX - aquela fusão toda agora começava a ter um significado muito mais amplo, e aguçou meus ouvidos para o modelo de construção sonora de caras como SLASH e JOE PERRY.
Ainda havias baladas: antes de "Bell Bottom Blues" ou "Wonderful Tonight" eu simplesmente ignorava qualquer coisa que fosse melódico ou falasse de amor – afinal eu sou da geração da pauleira grunge do começo dos anos 90. Não foi fácil entender que o meu tão amado blues falava das mesmas coisas em tons menos líricos – acordar de manhã, procurar pela mulher que foi embora, tomar uma garrafa de Bourbon e escrever uma letra dolorosa, sofrida.
Como todo egresso dos anos setenta, CLAPTON experimentou de tudo – e de todas, passou por períodos medíocres em termos de criatividade, se separou e perdeu um filho. Nunca foi do time dos mais simpáticos: é fato que o sucesso lhe subiu a cabeça em muitas fases de sua vida. Mas, em várias de suas declarações ele deixa claro que o que o salvou foi sua música, seu amor por tocar guitarra. De todas as lições que aprendi, essa foi a mais importante.
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