Dream Theater: se a vida der um limão, faça uma caipirinha
Por Invisible Kid
Postado em 04 de setembro de 2011
Na certa, este foi o princípio que nos últimos 11 meses guiou John Petrucci, o mais bem-sucedido descascador de abacaxis da atualidade. Ele é o guitarrista, único produtor, principal letrista e programador oficial das linhas de bateria do Dream Theater – que o novato Mike Mangini apenas reproduziu.
Dream Theater - Mais Novidades
É demonstrando força e maturidade que Petrucci assina um novo capítulo na discografia da banda, "A Dramatic Turn of Events", com lançamento marcado para 13 de setembro e ao qual tivemos acesso em qualidade total, por fontes secretas conhecidas de todos.
A receita do novo álbum traz um tempero inédito, misturado ao estilo já exaustivamente trabalhado pelo grupo nos anos 2000. O sabor, mais agradável que o anterior, é a tradução musical do novo equilíbrio de forças na banda.
O volume da bateria é o mais contido de toda a discografia, e a guitarra está menos pomposa. O espaço é aproveitado principalmente por Jordan Rudess e seus sons alquímicos. Dá pra ver que John Myung está lá, algo difícil quando a brincadeira era parecer mais pesado que o Pantera. James Labrie maneirou definitivamente seus tons de Tia Zuleide gritando no quintal. Petrucci foi muito feliz nesta calibragem, abrindo caminho para um verdadeiro desfile em carro aberto dos talentos da banda, sem fazer de cada nota uma marretada só para parecer bad ass.
Mangini? Ele é a drum machine do Petrucci e faz isso com cara limpa e profissionalismo. Emula Mike Portnoy em muitas levadas e viradas – algo natural ao se assumir o posto de uma lenda, tendo de engolir cada batida pensada por um guitarrista. No papel de baterista programável particular, sua precisão é nanométrica. Mas ele trabalha limitado, e só em raríssimos momentos aplica sua técnica sobre-humana, que o diferencia de seu antecessor e de todos os demais bateristas.
Na Hell’s Kitchen, onde antes havia um chef, agora há apenas mais um cozinheiro – e o iniciante tem mão boa pra fritar. A complexidade nérdica do grupo atinge um exibicionismo ainda maior que o do álbum de estréia "When Dream and Day Unite" (1989). O resultado são algumas das convenções mais saborosas e oportunas da história da banda, um Kama Sutra instrumental que rivaliza com os momentos mais intrincados da Era Portnoy. Às vezes parece matemática aplicada, mas seguramente serão grandes momentos ao vivo.
O álbum é um mar de extremos, e vai do prog de liquidificador à baladinha mais aguada. Felizmente, há um vasto estoque de outros momentos, quando a banda consegue mesclar água e óleo. As cenas são deliciosamente intensas, mesmo em meio ao vocal. Uma erupção vulcânica é o cartão de visita de "Lost Not Forgotten" – como se alguém espremesse toda a carreira do Dream Theater em 20 segundos e tocasse sem tirar uma nota sequer. Trechos magníficos de "Outcry" também pulverizam os ouvidos, e poderiam ser a trilha sonora do nascimento de uma galáxia.
A voz de Labrie é o que faz o ouvinte sentir-se em casa em meio à orgia instrumental. As melodias vocais são o aspecto que mais lembra os trabalhos recentes. Contra a maré, a classuda "Breaking All Illusions" nos brinda com um vocal mais direto ao ponto. A grande performance do vocalista fica para o final, com "Beneath the Surface", que celebra a faceta mais doce de sua voz. O mesmo não se aplica a "Far from Heaven", baladinha de intervalo no estilo "Wait for Sleep", e que realmente mereceria o título de "espera pra dormir".
Outro elemento que remete ao Dream Theater anos 2000 são alguns típicos riffs petruccianos: aqueles que você nunca ouviu, mas já conhece. O receio é que uma nova continuação de "Glass Prison" tenha início a qualquer momento, o que não acontece – alívio que melhora tudo na segunda audição.
Ainda assim, o departamento de guitarra está bem suprido de criatividade, e revive um pouco do experimentalismo do álbum solo "Suspended Animation" (2005). A pegada está mais cristalina do que nunca. O cara deve esterilizar as palhetas pra tocar daquele jeito. Nos solos, é louvável o esforço de Petrucci em sair de si e surpreender.
Rudess é o destaque individual, aproveitando as mínimas oportunidades para se esbaldar como uma criança num playground de outra dimensão. É algo que se espera desde o big bang que foi "Liquid Tension Experiment" (1997). Myung raramente coloca a cara pra fora da cozinha, com um solinho pimpão aqui, outro ali. Logo volta a trabalhar nos fundos, detalhista como sempre. Ele parece satisfeito com isso.
Outra marca registrada da banda, as introduções e intervalos também estão mais inventivos, na contramão das obscuras intros recentes. O início de "Bridges in The Sky" consegue ser tão glorioso quanto o de "Octavarium", sem ceder ao mesmo suspense abstrato a la Pink Floyd.
Se tudo o que caracteriza o Dream Theater hoje pra você é bullshit, então com este lançamento não será diferente. Mas, ao contrário dos últimos 10 anos, o álbum é mais do que mera variação do anterior. Há novos ares, limites foram superados - e o que mais se pede de quem sobe ao palco no Teatro dos Sonhos?
Se a saída de Mike Portnoy foi uma merda, fertilizou o solo o suficiente para que brotasse uma floresta inteira. "A Dramatic Turn of Events" tem mais energia que os dois últimos álbuns somados. A versão 2011 da banda adquiriu os direitos de utilizar o nome Dream Theater com a moeda do mérito.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Bangers Open Air anuncia primeiras atrações nacionais para a edição 2027
Summer Breeze vende todos os ingressos para a edição 2027 em tempo recorde
A icônica banda que Regis Tadeu não recomenda nenhum álbum sequer: "Todos horrorosos"
Gene Simmons volta a atacar os ex-colegas Peter Criss e Ace Frehley
O álbum que talvez seja a definição mais perfeita do rock progressivo
Vozes eternas do Heavy Metal brasileiro
As 5 músicas mais subestimadas do Whitesnake, segundo a Loudwire
Os 59 anos de idade de Gene Hoglan, um dos maiores bateristas do heavy metal de todos os tempos
A fase do Deep Purple que Ritchie Blackmore não suporta
Irmãos Gallagher descontentes com leilão de gravações raras do Oasis
Lars Ulrich relembra como foi o primeiro encontro do Metallica com o Iron Maiden
Mamonas Assassinas: a história das fotos dos músicos mortos, feitas para tabloide
Os 83 anos de Roger Waters: gênio criativo ou o destruidor do Pink Floyd?
Michael Sweet recusa King Diamond, mas aceita tocar junto
A controversa música "pró-Israel" gravada por Scott Ian, guitarrista do Anthrax
Aerosmith e Guns N' Roses: O acordo sobre drogas em 1988
O hit do rock nacional que vendeu tanto que desbancou "Billie Jean" do Michael Jackson

As únicas 11 músicas do Dream Theater que são boas, segundo Regis Tadeu
Mike Portnoy coloca novo álbum do Mastodon como candidato a melhor disco de 2026
John Petrucci percebeu que poderia se tornar um bom guitarrista quando era adolescente
30 músicas do Dream Theater que ultrapassam 10 minutos de duração
Grunge: Restou apenas um herói



