Cada vez mais orgulho de ser Headbanger
Por Carlos Alberto de Carvalho
Postado em 19 de abril de 2005
Que o público de heavy metal é um dos mais fiéis, senão o mais fiel, dentro da música isso não é novidade. Mas no show do Kreator, Krisiun, Tristania e Torture Squad, que ocorreu no último dia 19 no Espaço das Américas, tivemos a oportunidade de presenciar o que realmente é ser um verdadeiro headbanger.
Tivemos uma prova de cidadania e companheirismo acima de tudo. Até mesmo nos momentos mais difíceis, onde a sede deixava todos de garganta ressecada, dividir um copo d'água era a coisa mais comum ali dentro. Todos compartilhavam juntos dos momentos bons e ruins (entendam esses como o aperto, principalmente perto da grade).
Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de terem deficientes físicos no show. Quem me conhece sabe que há pouco tempo comecei a reparar melhor nas dificuldades enfrentadas pelos deficientes físicos, tais como a falta de acessibilidade a eles e principalmente o preconceito. E se tem uma coisa que é inadmissível é uma pessoa ser desrespeitada pelo simples fato de ter uma deficiência, seja ela qual for. Mas infelizmente é isso o que acontece há muito tempo no mundo todo, e acabou acontecendo nesse show também, mas que foi superada graças à boa-vontade do público que viu a cena e também por parte dos seguranças da casa.
Todo deficiente físico tem o direito de ficar em um espaço reservado a eles, onde possam assistir a qualquer tipo de evento sem serem prejudicados pelo público geral, visto que alguns tipos de deficiência requerem uma melhor atenção, ou até mesmo porque o deficiente necessita ficar sentado. Nesse show os dois deficientes presentes, um muletante e um cadeirante, ficaram no espaço que intermedeia a platéia e o palco, a mesma área destinada aos fotógrafos e seguranças, mas injustamente, os dois foram colocados num canto onde mal dava para se ver os shows. E isso indignou a mim e a outras pessoas que estavam encostados na grade. Conversamos com um dos seguranças e o mesmo alegou que se os dois ficassem localizados em um lugar mais ao centro do local atrapalhariam a movimentação dos seguranças.
Mas todos que estavam ali viram que o espaço era suficientemente grande para que todos se movimentassem com facilidade. E nós, incansáveis headbangers, cada vez mais apertados na grade, cada vez mais sequiosos, não desistimos e conseguimos falar com outro segurança, que parecia ser um dos chefes, e o mesmo sem pestanejar permitiu que o cadeirante ficasse ao centro, em frente ao palco. Acredito que ele não tenha visto o outro rapaz com as muletas que também estava no canto, mas provando que ser headbanger também é ter consciência, um fotógrafo de algum veículo de imprensa, o qual só tive tempo de cumprimentar pela bela atitude, conversou com outro segurança e convenceu a também dar um lugar melhor a ele, que ficou localizado ao lado do primeiro.
Confesso que ver os dois bangueando à frente do palco foi emocionante, e todos que ali estavam também ficaram comovidos. A cena foi realmente interessante, pois muitos dos deficientes físicos, que no Brasil chegam a ser cerca de 25 milhões, acabam levando uma vida pouco ativa, infelizmente pelos dois principais motivos já citados aqui, a falta de acessibilidade e o preconceito. Mas provando que quando se quer de verdade uma coisa ela realmente se torna possível os dois tiveram uma noite, que com certeza ficará na memória de ambos por terem visto shows maravilhosos, mas principalmente por terem vencido mais um obstáculo na luta contra o preconceito e a injustiça.
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