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O verdadeiro preconceito da MPB

Por Marcelo Sanches
Em 17/10/03

Confesso que fiquei um tanto surpreso quando recentemente, no último dia 4 de julho, me deparei com o alarde feito por um jornal noturno de uma grande emissora de TV, a cerca de uma entrevista do nosso querido Caetano Veloso, na qual ele respondia ironicamente à comentários de seu colega Lobão, que segundo consta, havia declarado dias antes que a classe média só gosta de ouvir músicas bregas depois que Veloso as grava.

O compositor baiano dizia que acha ridículo o rótulo "MPB de elite" e que sempre odiou este termo, que considera preconceituoso. Ora, não vou e nem quero questionar aqui a importância de Caetano Veloso no cenário da música brasileira; sua genialidade e contribuição são imprescindíveis, e não sou eu, um mano Marcelo qualquer, que vou acrescentar algo mais à tudo o que foi dito até hoje a seu respeito. Digo o mesmo sobre Lobão, um artista com menos história, certamente, mas muito competente naquilo a que se propõe fazer na música popular, além de um articulador fundamental nas mais recentes conquistas dos artistas da música junto ao esquema de distribuição de discos e ao controle de suas vendas (a polêmica numeração de CDs). Se Lobão faz de seus comentários uma oportunidade para aparecer e ganhar espaço na mídia, certamente segue um expediente comum à esse meio, incluindo-se aí o próprio Caetano. Mas este último dizer simplesmente que ''MPB de elite" é um termo preconceituoso não comporta a complexidade dos fatos.

Não vamos nos esquecer que a Bossa Nova - a música que mais influenciou Caetano no final dos anos 50 - imprimiu a sofisticação do jazz americano ao samba carioca, enriquecendo a música popular brasileira com harmonias mais complexas e um canto mais delicado. O termo "MPB" surgiu alguns anos depois, já na década de 60, para classificar a nova música engajada que se praticava no meio estudantil dos grandes centros urbanos para combater a então recém- decretada ditadura militar. E o que era essa música? Nada mais que uma união de ritmos nordestinos (como o baião e as toadas) com o requinte harmônico e melódico da bossa, com letras combativas dirigidas às questões sociais que tanto afligiam o país, deixando de lado as narrativas açucaradas da classe média carioca, que eram as características dos temas bossa-novísticos anteriores. Esse encontro de tendências mais sofisticadas com uma música mais regional e culturalmente mais enraizada na população pobre do nordeste não resultou, como sabemos, numa produção de má qualidade, mas sim num dos períodos mais férteis da música nacional. Quando o Tropicalismo invadiu os festivais de televisão depois de 1967, uma novo sopro de criatividade assolou a MPB com as ondas elétricas do rock and roll, causando muitos protestos. Mas o que se viu (e ouviu) depois foi sua total assimilação. A jovem guarda, considerada uma influência decisiva nos trabalhos de Gil, Caetano, Mutantes, etc, era na verdade a reprodução do trabalho mais banal e vulgar do rock produzido pelos Beatles & cia até aquele momento. Os próprios ingleses transformaram sua música dançante e seus temas juvenis em peças populares mais ousadas e complexas quando imprimiram ao seu trabalho uma grande dose de música erudita e de novas técnicas de estúdio, através do maestro George Martin. E essa foi a mais notável influência roqueira no som tropicalista, até porque esse pessoal estava cercado por gente do calibre de um Júlio Medaglia e de um Rogério Duprat. Portanto, mais uma vez tivemos um notável resultado qualitativo que, misturando um número variado de influências populares, de um lado, e uma música mais rica e refinada, de outro, levou a MPB a caminhar para frente. A jovem guarda acabou desaguando numa música ainda mais pobre - harmônica e melodicamente - nos anos posteriores, quando a ditadura militar expulsou os grandes artistas e reduziu os espaços para a prática de uma música mais combativa, fazendo com que as gravadoras buscassem guarida em dois tipos de produto: na continuação desta mesma Jovem Guarda através da banalização ainda maior de seus temas, e na música internacional, que dispensava gastos com profissionais locais e traziam muito lucro. O resultado foi um crescimento significativo da indústria fonográfica.

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A "MPB de elite" foi uma autêntica barricada dentro de uma guerra acirrada nos anos 70, quando muito lixo passou a ser produzido e consumido pelo povão. Por aqui ficaram Milton Nascimento, Edú Lôbo, Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, entre muitos outros, e um tempo depois tivemos a volta de Caetano e Gil. O termo MPB ganhou destaque justamente porque as diferenças de qualidade dentro do cenário da música popular eram evidentes, e o mercado precisou segmenta-las. Alguém com um mínimo de informação podia facilmente discernir a produção musical de um Odair José daquela realizada por um João Bosco, por exemplo; quem haveria de discordar ser a música dos Novos Baianos muito mais rica rítmica e harmonicamente do que a de um Wanderley Cardoso? Assim, podemos afirmar ,sem complexos, que havia dentro da música popular um enorme degrau qualitativo. Esse degrau foi ganhando consistência ao longo das décadas seguintes, até chegarmos aos tristes anos 90, quando a horrenda música sertaneja (um rótulo injusto com a saudável música feita nos campos e em cidades do interior em tempos antigos) e aberrações consumistas como o axé e o falso pagode invadiram o país.

Uma afirmação preconceituosa seria dizer que o povão jamais vai ter capacidade para apreciar uma boa produção musical. O tal "povão" poderia ter sim ouvidos preparados como qualquer um de nós, "pessoas estudadas", e com isso sabemos que o grande acinte que se comete contra a música popular e contra as pessoas de uma maneira geral é entupir seus ouvidos com tanto lixo de consumo fácil e imediato, que é o trabalho da mídia nacional há muito, muito tempo, até os dias atuais. Uma grande injustiça é condicionar os ouvintes a consumirem porcarias de péssima qualidade, e limitar os espaços de uma música melhor tocada, melhor composta, realizada com mais apuro e praticada por artistas que estudaram e se prepararam com dedicação para realizar seu trabalho; hoje em dia, qualquer bunda mais redondinha e qualquer espertalhão que aprenda a tocar três acordes em um violão ou em uma guitarra, além de dançar minimamente alguns passos tortos, pode ser considerado "artista". Isso certamente não se deve ao povão, ao Zé Mané que alimenta inconscientemente esses males, mas sim aos empresários que controlam os meios de comunicação e divulgação destes produtos, e que na sua insistência demagógica, excluem riscos e ousadias que possam vir a sinalizar alguma mudança de ares.

Quando Lobão diz que a classe média só ouve canções bregas quando são gravadas por um artista considerado 'de elite', entendo que aí ocorre um movimento revelador: temos a releitura sensivel e de bom gosto musical de uma obra feita a princípio para um consumidor pouco acostumado à uma execução mais intimista, já que as características presumíveis - dentro da lógica de consumo imediato - do público que compra discos de artistas ditos "bregas" são o pieguismo e a banalização de suas emoções. Se Caetano conseguiu regravar "Debaixo Dos Caracóis De Seus Cabelos" de Roberto Carlos em 1992, para citar um exemplo, certamente o fez com ouvidos, técnica e sensibilidade de alguém que se aprimorou musicalmente e teve oportunidade de ouvir boas produções em sua juventude. Roberto Carlos é sem dúvida um artista popular de inegável importância, mas me parece óbvio que sendo um grande vendedor de discos e um ícone do consumismo fonográfico nacional, tenha sofrido pressões deste meio a ponto de gravar a sua canção de forma menos minuciosa e mais apelativa comercialmente na ocasião em que a compôs em 1972, inspirando-se no próprio Caetano, então exilado em Londres. Além do mais, acho bom lembrar que musicalmente, Roberto é muito menos informado que Caetano.

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O que entristece é constatar que a população mais pobre é vítima não apenas da má distribuição de renda, mas também da ganância e da cegueira de empresários que excluem esta população da possibilidade de assimilar uma linguagem cultural mais rica e informativa, como é a música popular brasileira. E tal ganância encontra terreno fértil numa sociedade que explode em desigualdades. Neste caso, acabamos caindo na obviedade: uma discussão verdadeiramente profunda desta banalização dos valores culturais - como a MPB, por exemplo - nos leva à uma questão bem mais abrangente, que é a precariedade da educação pública no Brasil e o acesso limitado do ensino de qualidade, que privilegia a poucos. Assim sendo, uma produção musical refinada, como tudo que possui bagagem e consistência informativa, permanece mesmo nos limites da elite.

Marcelo Sanches é pesquisador e crítico musical.

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Sobre Marcelo Sanches

Marcelo Sanches é compositor, jornalista, radialista e pesquisador musical, além de apaixonado por rock and roll.

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