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Arte Musical

Os Beatles e a música moderna

Por Anderson Nascimento
Em 05/09/03

Quando a beatlemania invadiu os EUA em 1964, os norte-americanos e o mundo conheceram um fenômeno até então inédito no meio musical. Os quatro cabeludos de Liverpool quebraram todas as regras rígidas de estilo e comportamento implantadas a partir do pós guerra. Na música então, é que a coisa mudou mesmo, a revolução começando com o emergente movimento "Rock’n’Roll", que partia do estilo técnico e atinado do blues, para algo mais informal e contagiante. Estilo esse adotado por Elvis Presley, que foi o primeiro grande fenômeno do Rock..

É fato que após a invasão britânica nos EUA, liderada pelos Beatles, a música tomaria rumos que nem mesmo as maiores autoridades da área na época seriam capazes de prever. Após a fase de admiração e clonagem do estilo que os Beatles acabavam de criar, os grupos do início dos anos 60 partiram para sua própria evolução, como fizeram os Rolling Stones, com uma pegada mais agressiva e fama de bad-boys, e os Animals, puxando mais para o R&B, e ficou claro também que quem não evoluiu, se perdeu pelo caminho, como a banda Gerry and The Pacemakers.

Assim como criaram um estilo bem singular de fazer rock’n’roll, a partir do caldeirão de influências que fervilhava na segunda metade dos anos 50, os Beatles também descartaram rápido sua criação, partindo portanto para a sua própria evolução. Essa evolução que passou a se desenhar em meados de 1965 no álbum "Rubber Soul", que contava com rocks mais trabalhados ("Drive my car"), inovações vocais ("Nowhere Man", "If I Need Someone") e incremento de novos instrumentos (como a maior presença do Órgão Hammond em suas músicas), inesperadamente transformou-se na revolução da música e serviu de base para tudo o que seria feito no Rock de lá até os dias de hoje.

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O perfeccionismo dos gênios John Lennon & Paul McCartney, aliados com a "competição" entre os próprios e os americanos Beach Boys, gerou os clássicos "Revolver", retribuído pelos Beach Boys com o maravilhoso "Pet Sounds", que teve como resposta definitiva o maior álbum de rock da história, "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band". Depois disso Brian Wilson, cabeça dos Beach Boys, acabou pirando em cima de um próximo projeto de sua banda. Até mesmo quando os Beatles tentaram serem minimalistas no famoso Álbum Branco, eles foram grandes, foram referência, e maiores que si mesmo. Cada Beatle teve o crescimento particular que precisava para se tornar grande até mesmo fora da grandiosidade que o nome Beatles oferecia.

A experiência do Álbum Branco foi de importância fundamental para que os Beatles se impusessem como artistas após o fim dos Beatles. Alguma coisa de cada disco solo de cada Beatle, acaba lembrando o álbum branco. Veja "Plastic Ono Band" (John), "McCartney" (Paul), "All Things Must Pass" (George) e "Ringo" 1973 (Ringo). Inclusive algumas músicas que ficaram de fora do Álbum Branco, acabaram entrando em álbuns da carreira solo, como "Child of Nature", que acabou virando "Jealous Guy" no álbum "Imagine" (Lennon), "Teddy Boy" e "Junk", acabaram entrando em "McCartney" (Paul), "Not Guilt" entrou no álbum "George Harrison" do próprio, isso sem contar com as músicas que estavam circulando na cabeça de cada um neste período.

A evolução do Rock pós-Beatle seguiu-se durante os anos 70 com jovens personagens até então desconhecidos da mídia, que tinham em comum a admiração pelo trabalho dos Beatles. Esses jovens, que posteriormente liderariam bandas como Black Sabbath, Electric Light Orchestra, Queen, Kiss e Mutantes, só para citar algumas das bandas que sofreram influência direta da obra dos Fab Four, trataram de criar a sua própria versão do Rock. E cada uma destas versões, foi criando outras versões derivadas de si mesmo. Por isso podemos dizer que existe um pouco de Beatles seja no Heavy Metal, Pop/Rock, Glam Rock, Folk Rock, Rock Progressivo, Punk Rock e qualquer outra vertente do que se fez após a revolução musical dos anos 60.

Nos anos 80, com toda a modernidade que a nova década trazia, os anos 60 foram deixados um pouco de lado e a New Wave tomou conta das rádios e, se houve algum revival, este se remeteu aos longínquos anos 50, através da banda Strays Cats.

Mas como compensação no início da década seguinte, o que se viu foi o surgimento de várias bandas carregadas de influências dos Beatles, como Stone Roses, Blur, Radiohead, Nirvana, Guns and Roses, claro, cada um do seu jeito. Mas uma dessas bandas aparecia com a mais descarada e explícita influência desde os anos 60: o Oasis. A banda dos irmãos Gallagher copiou nome de músicas, roubou riffs, melodias, inseriu citações Beatles em suas letras e tudo mais. O resultado foi milhões de discos vendidos, milhares de fãs apaixonados, e muito dinheiro no bolso. Assim como o Oasis apareceu, deu certo e fez sucesso, muitas outras boas bandas seguiram as suas influências e fizeram bons discos que contaminaram a década de 90 com o velho frescor dos anos 60, em um movimento já intitulado de "New British Pop".

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Hoje, quarenta anos depois, continuamos a ver bandas com influências explícitas dos Beatles em seus discos e suas músicas. No Brasil isso se reflete nos trabalhos dos Los Hermanos, que lançaram "Bloco do Eu Sozinho", um disco com cara de "Sgt. Peppers", e na sua seqüência lançaram outro bom álbum, "Ventura", também abarrotado de referências da obra de John, Paul, George e Ringo. O caso mais recente desse namoro é o Skank. A banda mineira largou o reggae e os metais que já eram marcas tradicionais de sua obra, para poder renovar a sua musicalidade e fazer algo próximo daquilo que os seus ídolos fizeram nos anos 60. O Skank aliás, ganhou as principais capas de revistas, matérias especiais em jornais e televisão e, principalmente, notoriedade em torno do belo álbum "Cosmotron", afogado completamente em águas retiradas do porto de Liverpool. E as homenagens não param: recentemente o grupo Foo Fighters, do remanescente do Nirvana, Dave Grohl, declarou a uma revista estrangeira que o próximo álbum da banda, que já está sendo gravado, terá ares de "Álbum Branco" e será musicalmente inspirado pelos Beatles.

Beatles é ponto zero para qualquer discussão; quando perguntado sobre o por quê do último álbum dos Skank estar Beatles Pra Caralho, Samuel Rosa respondeu sabiamente: "Não somos nós que estamos Beatles pra caralho, o mundo está Beatles pra caralho". Precisa dizer mais alguma coisa?


REVIEW DO MÊS:

"O Circo está Armado" - RELESPÚBLICA (2000)

Classificação: 5 estrelas

Se existe um álbum que todos os amantes do rock nacional precisam conhecer, este álbum chama-se "O Circo Está Armado", gravado em 2000 pela banda curitibana Relespública. O disco, lançado pela Universal Music, teve péssima divulgação e pouquíssimo apoio da gravadora, o que de certa forma, desestruturou as pretensões da banda. Apesar de ter lançado um disco fora do mundo "indie" somente em 2000, o núcleo da banda se formou em 1990, quando batizaram o conjunto.

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A Relespública destacava-se à época por trazer uma sonoridade fortemente amarrada ao mod e ao rhythm'blues. A banda, formada por Kako Louis, Roger Gor, Fabio Elias (principal compositor), Emanuel Moon e Ricardo Bastos, conseguiu fazer um disco com uma pitada de cada ingrediente, de Rock'n'roll básico ("E o Rock'n'Roll Brasil!?") à psicoledia pura ("Capaz de Tudo") retornando como produto final um álbum redondo, completo.

De cara a Reles entra com a básica crítica à cultura do Rock no país "...rock no Brasil é coisa de maluco, mas onde ele surgiu é profissão que dá lucro!...". "Carta à Amada" é uma balada recheada de lindos teclados, coros muito bem trabalhados e letra simples, porém eficiente. As guitarras que abrem "Sunflowers" remetem ao Rock dos anos 70, com vocais rasgados e citação à "Agora só falta você" de Rita Lee. "Tão Linda" é daquelas baladinhas bem retrô, açucaradas e com cara de anos 80, desculpe-me mas lembra Spandau Ballet. "Só sei um Soul" é Soul, é linda, é a marca registrada da banda, é tudo; O solo de gaita de Milton Guedes vem para acompanhar o vocal novamente brilhante de Kako. "Ele realmente era um mod" é outra música que possui bem a cara da banda, e também a cara do The Who, e do Ira!, talvez seja a música com maior explicitação da fonte na qual os Curitibanos beberam. Rita Lee é novamente lembrada, na versão cheia de metais de "Portugal de Navio" dos Mutantes, única das 14 músicas que não é composta pela Reles. "Sem você jamais" remonta o clima das nossas festinhas dos anos 80. "Sol em Estocolmo", rockzinho básico meio jovem guarda, letra caprichada de Fábio Elias. "Adeus" lembra DEMAIS os riffs de "Ando meio desligado" dos Mutantes. "Tem que ser assim" continua exibindo as referências da banda. "Pesadelos" tem a participação especial de Eduardo Dusek, dando uma canja com seu inconfundível vocal. "Magic Feeling" é a música gringa do disco, tem cara de namoro, observando a lua cheia, é bem mela-cueca. E aí então vem a fúria "Capaz de Tudo", música arrebatadora como há muito não se tem feito no Brasil, seus poucos versos são suficientes para dar aquela moral pro cara que ta ouvindo. A música é intencionalmente grandiosa, tem guitarras maravilhosas, arranjo de cordas, orquestra. É aí que a gente percebe que o que está acontecendo de melhor na música brasileira não rola nas rádios.

Com as influências explícitas ao The Who, The Jam e ao Ira!, este disco marcou pontos importantes para o convite feita à banda para literalmente abrir a Tenda Brasil no Rock In Rio 3: a Reles fez a primeira apresentação na estréia da Tenda Brasil, para uma dúzia de pessoas. Com o som ainda desregulado e horário não compatível, a banda com muito esforço conseguiu agradar às testemunhas que ali estavam. E estava encerrada aí a passagem fulminante da banda pelo grande circuito. A partir daí, a banda passou a fazer shows de menor expressão em termos de Brasil, um ano depois, a banda sofreu a saída de dois membros, Kako Louis (voz) e Roger Gor (teclados). Hoje, o agora trio Relespública, promete um novo disco já algum tempo, mas a verdade é que eles sumiram. Uma pena.

Sei que acabei de santificar este disco, mas com respeito à todas as opiniões e leitores, este álbum vale cada caractere usado para elogiar este brilhante trabalho.


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Sobre Anderson Nascimento

Anderson Nascimento é Analista de Sistema e Professor Universitário de profissão, tendo cursado Pós-Graduação em Análise, Projeto e Gerência de Sistemas na PUC-RJ. Sua grande paixão é a música, começou a colecionar discos ainda na época do vinil, em 1986, com o álbum Abbey Road dos Beatles. Esse foi o primeiro passo para esse hobby que viria a se tornar tão importante em sua vida. Entre as várias atividades no meio musical, Anderson é compositor e integrou a banda de rock Projeto:Paradoxo entre 1996 e 2004. Anderson é um ávido colecionador de discos e também escreveu sobre música em vários veículos de comunicação.

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