Cream: Como um crítico universitário fez a banda se separar, mesmo em seu auge
Por André Garcia
Postado em 12 de abril de 2022
Em 1966, Ginger Baker, Eric Clapton e Jack Bruce se cansaram de ser coadjuvantes em bandas alheias, e resolveram ser eles mesmos os protagonistas formando o Cream. E assim, misturando blues, rock pesado e psicodelia em sua estreia com "Fresh Cream" naquele mesmo ano.
No ano seguinte, a banda entrou no top 10 das paradas de sucesso tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra com "Disraeli Gears" (1967). Em 1968, eles tinham tudo para chegar ao topo do rock, mas, para a surpresa de muitos, ao invés disso, eles se separaram.
No entanto, para entender o fim da banda, é preciso voltar a seu auge, quando todos os três membros tiveram suas vidas transformadas pelo estrelato. Especialmente Eric Clapton, cujos fãs pichavam pelos muros da Inglaterra "Clapton is God" (Clapton é Deus).
Clapton é Deus
Conforme publicado pelo site Ultimate Classic Rock, o próprio Eric Clapton posteriormente confessou que a idolatria subiu à sua cabeça na época do Cream: "Eu achava que ninguém fazia o que eu estava fazendo e estava excessivamente confiante. Eu achava que não tinha ninguém que se comparasse a mim."
Em março de 1968, o Cream partiu para uma turnê americana que percorreu os Estados Unidos. Em sua passagem por Boston, devido ao mau tempo e problemas logísticos, o trio se atrasou para o show na Universidade Brandeis. Os estudantes tiveram que esperar até duas da manhã pelo começo do show, entre eles John Landau, que era crítico musical da Rolling Stone. Foi de sua autoria, por exemplo, o comparativo entre Cream e Jimi Hendrix Experience publicado pela revista.
Pouco impressionado com a apresentação, John escreveu uma resenha negativa que pegava pesado em particular com Eric Clapton, a quem chamou de "o mestre dos clichês do blues". A resenha foi publicada no fim daquele mesmo mês no jornal da faculdade, e em maio uma versão revisada saiu na Rolling Stone.
"O problema [de Eric Clapton] é que, embora ele tenha um vasto potencial criativo, até esse momento ele ainda não começou a explorá-lo. Ele é um virtuoso apenas apresentando ideias alheias. A impressão que dá é que em todo o solo ["de N.S.U."] cada frase pode ter sua origem rastreada." Segundo Landau, o solo tinha sido retirado diretamente da cartilha de B. B. King e Albert King.
De Deus a mestre do clichê
Eventualmente, aquela crítica chegou ao conhecimento de Eric Clapton, que foi devastado por ela, como foi revelado por ele próprio posteriormente:
"Durante toda a época do Cream eu estava na crista da onda daquele mito de "Clapton é Deus" que tinha surgido. Aí então, recebemos nossa primeira crítica negativa que, curiosamente, foi publicada na Rolling Stone. A mesma revista para a qual demos uma entrevista nos vangloriando, e logo a seguir veio aquela resenha dizendo o quão monótona e repetitiva foi nossa performance. E o pior é que aquilo era verdade! Aquilo me atingiu em cheio. Eu estava num restaurante e cheguei a desmaiar. Quando acordei, eu imediatamente decidi que era o fim da banda."
A bem da verdade, o Cream já nasceu fadado a não durar muito tempo por conta da relação instável entre os integrantes. O relacionamento entre os explosivos Ginger Baker e Jack Bruce, que já se odiavam antes mesmo de formarem a banda, já havia se desgastado ao ponto de a ruptura ser iminente. No meio do fogo cruzado, Eric Clapton já estava de saco cheio de seus colegas e musicalmente insatisfeito.
Mas, por mais que o fim fosse uma questão de tempo para o Cream, a crítica negativa de John Landau foi a gota d'água, como disse em entrevista à Guitar World o baterista Ginger Baker:
"Aquele artigo teve um efeito bem prejudicial sobre Eric porque para ele a Rolling Stone tinha uma baita credibilidade. Ele era um cara sensível, estou certo que aquele artigo causou um grande estrago nele. Era a publicação preferida dele, então ter lido aquilo — e logo nela — o feriu."
Em 10 de julho de 1968, Eric Clapton anunciou a separação da banda quase simultaneamente ao lançamento de "Wheels of Fire" (1968). Assim, em 26 de novembro daquele mesmo ano, eles fizeram sua apresentação de despedida. Ao longo das décadas houve algumas breves reuniões, a principal delas foi em Londres, em maio de 2005, no Royal Albert Hall.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Rush é parado na fronteira dos Estados Unidos com o México e precisa adiar show
Por que Iron Maiden nunca será grande como Metallica, segundo Bruce Dickinson
20 bandas que nunca lançaram um disco ruim, de acordo com a Metal Hammer
Rhapsody se despedirá com formação clássica ao lado do Epica na América do Sul
Ripper Owens: "Há uma razão pro Iron Maiden tocar pra 20 mil e o Judas pra 5 mil"
Capital Inicial cancela shows nos Estados Unidos após vistos negados
O cantor de prog metal que foi cotado para substituir Bruce Dickinson no Iron Maiden em 1993
A cantora que conquistou James Hetfield com sua voz "de cheiro de cigarro"
Classic Rock ranqueia discografia do Bon Jovi do pior ao melhor álbum
Em clima de Copa do Mundo, Angra lança videoclipe da releitura de "Pra Frente Brasil"
O show em que o Iron Maiden tocou Van Halen, de acordo com Adrian Smith
Steve Harris conta o que Brian May disse sobre o show do Iron Maiden no Rock in Rio I
As únicas faixas de "Holy Diver" que Ronnie James Dio escreveu sozinho
O clássico do Angra de Andre Matos que parece com faixa do "MI'RAJ", segundo Edu Falaschi
A melhor música de rock progressivo de todos os tempos, segundo os leitores da Prog


O guitarrista que se recusou a ocupar o lugar de Eric Clapton no Cream
A música que Jimi Hendrix gostaria de ter escrito - e que foi inspirada num encontro com ele
Os 10 maiores baixistas de todos os tempos, segundo a Rolling Stone
Os 20 melhores supergrupos da história segundo a Classic Rock
O baixista que fez Geezer Butler entender o que queria fazer no Black Sabbath
A banda que não é do estilo, mas que Ian Anderson disse ser o embrião do rock progressivo


