A música ao vivo que Eddie Van Halen chamou de "uma das melhores já gravadas"
Por Bruce William
Postado em 03 de dezembro de 2025
Quando o assunto é show de rock, muita gente pensa logo em palco gigante, luz estourando, efeito especial e pose de estrela. Eddie Van Halen até participou desse tipo de espetáculo durante a carreira, mas, quando falava em gravação ao vivo de referência, ele apontava para algo bem mais enxuto: três músicos, nenhum enfeite extra e uma música levada no limite. Foi assim que ele descreveu a versão de "Crossroads" registrada pelo Cream, que para ele estava em outro patamar.
Durante conversa com a Guitar World em 1981 (via Far Out), Eddie foi só elogios para a gravação, que para ele era a prova de que um trio podia soar enorme sem depender de truque algum: "[É] uma das melhores músicas ao vivo já gravadas. É engraçado; quando eu dou entrevistas e digo que Clapton foi minha principal influência, as pessoas perguntam: 'Quem?'. Porque estão pensando no Clapton de 'Lay Down Sally', não no dos Bluesbreakers ou do Cream. O que eu amava no Cream é que todo mundo tinha que se entregar. Eram três pessoas fazendo todo aquele barulho e você conseguia ouvir cada uma delas."

A fala revela não só o tamanho da admiração por Eric Clapton, mas também o tipo de banda que Eddie tinha em mente como ideal: formação enxuta, espaço para cada instrumento respirar e uma certa pressão para que todos toquem no limite o tempo todo. Antes de virar referência para meio mundo, ele era o garoto que ficava dissecando discos do Cream e dos Bluesbreakers, tentando entender como três caras conseguiam produzir um som tão cheio, sem ninguém se esconder no fundo da mixagem.
Isso estabelece um contraste curioso com a imagem que muita gente guarda do Van Halen nos primeiros anos. Com David Lee Roth no vocal, o grupo ficou conhecido por shows quase circenses, cheios de acrobacias, gracinhas no palco e ideias mirabolantes para transformar o concerto em espetáculo. Eddie chegou a comentar que, diante de planos como simular um paraquedismo para "chegar" ao próprio show, ele começava a se perguntar se o público estava indo ali para ouvir a música ou só para assistir ao número.
A virada veio com a entrada de Sammy Hagar, quando o clima mudou um pouco. O novo vocalista trazia outro tipo de postura: voz aguda potente, foco maior em canto e menos em performance exagerada. Isso abriu espaço para músicas como "Right Now" e "Why Can't This Be Love", com arranjos mais esticados, teclados em evidência e uma sensação de banda respirando junta, algo mais próximo do que Eddie admirava em seus ídolos - ainda que o som fosse bem diferente do blues pesado do Cream.
Mesmo assim, o guitarrista nunca escondeu outras influências importantes. Ele falava abertamente sobre como pegou ideias de Jimi Hendrix e admitia que o famoso tapping surgiu depois de observar Jimmy Page ao vivo com o Led Zeppelin. A diferença é que, em "Crossroads", ele via um tipo específico de energia: a soma de três músicos se empurrando mutuamente, sem rede de proteção, tudo registrado cru numa faixa ao vivo que, para ele, continuava insuperável.
No fim, por mais que o estúdio permita experimentações, overdubs e efeitos de todo tipo, Eddie Van Halen enxergava naquela gravação do Cream um modelo difícil de superar: uma banda pequena, em tempo real, tirando o máximo de um riff e de um groove. É por isso que, quando ele fala em "uma das melhores músicas ao vivo já gravadas", está menos interessado em perfeição técnica e mais naquele tipo de registro em que dá para ouvir claramente cada músico se arriscando - exatamente como ele gostava que uma banda de rock soasse.
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