O conselho de Mick Jagger para Raul Seixas; "foi como um tapa na minha cara"
Por Bruce William
Postado em 04 de abril de 2025
O ano de 1968 começava intenso na Bahia. Era época da tradicional Festa do Senhor do Bonfim, e por ali circulava um visitante ilustre: Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones. De férias no Brasil com a então namorada Marianne Faithfull e o filho dela, Nicholas, o cantor britânico mergulhou na cultura baiana - visitou o Pelourinho, foi a terreiros de candomblé e tocou tambores com músicos locais, relatou a Folha de São Paulo. A passagem por Salvador foi tão marcante que rendeu, mais tarde, inspiração direta para uma de suas músicas mais conhecidas.
Rolling Stones - Mais Novidades

Quem também estava pela cidade na mesma época era Raulzito, ainda em começo de carreira, conta Jotabê Medeiros no livro "Não diga que a canção está perdida". Ele havia se casado com Edith Wisner em junho do ano anterior e retomado a parceria com Os Panteras, tentando profissionalizar o grupo. Foi por meio de um amigo em comum, Lalado, irmão de Eládio, guitarrista da banda, que aconteceu o encontro entre o roqueiro britânico e o jovem músico baiano.
Jotabê relata que Raul, Eládio e Mariano foram ao Hotel da Bahia, onde Jagger estava hospedado. Recebidos de forma informal, encontraram o vocalista dos Stones no saguão com um bebê no colo, descontraído como se estivesse em casa. Anos depois, Raul relataria que aquela conversa mudou sua forma de ver o mundo: "Ele me antecipou os valores morais que estavam vigentes naquela época e que não tinham chegado ao Brasil. Me antecipou o que estava acontecendo musicalmente, culturalmente, em matéria de comportamento... foi interessantíssimo. Fiquei impressionado e me valeu para modificar os meus valores - eu era baiano arraigado, aquelas coisas em que você fica meio pendurado."
O impacto daquele encontro foi tamanho que Raul chegou a registrar a experiência em seu diário: "Mick Jagger, com o qual bati um papo na Bahia, me disse tudo que estava acontecendo lá fora. 'O rock mudou', ele disse. E foi como um tapa na minha cara." Dias depois, os dois teriam se reencontrado na casa de Lalado, e conversaram novamente, dessa vez a sós.
Na época, a revista InTerValo publicou uma nota curiosa sobre o encontro. Segundo a matéria, Jagger teria ouvido composições de Raul e dito que gostava do que ouvira. Teria ainda aconselhado o baiano a explorar mais as raízes do candomblé e da chamada "música de macumba", criticando a bossa nova ao dizer que, para ele, não passava de uma farsa. Embora a frase soe polêmica, ela está em sintonia com a busca de Jagger por ritmos afro-brasileiros e experiências culturais autênticas durante sua estadia.
Essa viagem, aliás, foi igualmente transformadora para o próprio Mick. Em entrevistas posteriores, ele relatou ter ficado impressionado com o sincretismo religioso local e a força das expressões populares da Bahia. Em conversa com a revista Esquire, ele comentou: "Tocávamos tambores com os negros do candomblé. Eles têm uma mistura de Papa com vodu africano. Muito estranho." A vivência teria influenciado diretamente a criação de "Sympathy for the Devil", gravada no mesmo ano e lançada em dezembro de 1968 no álbum "Beggars Banquet."
O próprio Mick chegou a dizer que via a faixa como um samba — não no sentido tradicional, mas na levada e na construção rítmica. Em 1975, ao ser questionado por jornalistas brasileiros, ele afirmou: "Sim, é samba. Não de um jeito formal, mas pra mim, é. Não me importo se não soa como um 'samba de verdade'."
Jotabé ainda nota que, curiosamente, "Sympathy for the Devil" e uma das músicas mais conhecidas de Raul, "Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás", compartilham um certo parentesco lírico. Ambas citam passagens religiosas, figuras históricas e episódios simbólicos da humanidade. Mick canta: "I was 'round when Jesus Christ had his moment of doubt and pain". Raul responde, anos depois: "Eu vi Cristo ser crucificado / O amor nascer e ser assassinado".
Mais do que uma simples troca de ideias entre dois músicos, aquele encontro na Bahia representou um choque cultural que marcaria para sempre os dois lados. Raul foi impactado pelas ideias de Jagger. Jagger, por sua vez, levou da Bahia uma nova perspectiva rítmica que reverberaria no mundo todo.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A banda que Jack Black diz que destruiu o rock por ser grande demais
A única banda que uma criança precisa ouvir para aprender rock, segundo Dave Grohl
Black Label Society confirma shows no Brasil e apresentação exclusiva do Zakk Sabbath
Angra confirma mais um show da turnê de 30 anos de "Holy Land", agora em Belo Horizonte
Os 20 melhores discos de heavy metal lançados em 1997, segundo a Louder Sound
Ferraris, Jaguars e centenas de guitarras: quando astros do rock transformaram obsessões em estilo
3 músicas lendárias do metal nacional que são um convite à nostalgia
Saturnus confirma primeiro show no Brasil; banda tem disco inspirado em Paulo Coelho
Ela é vigária, grava com o Dragonforce e quer o Iron Maiden tocando em sua igreja
Joe Lynn Turner conta como foi se livrar da peruca aos 70 anos
Paul McCartney não entende influenciadores: "Pessoas sem talento que são muito famosas"
O guitarrista "bom demais" para ter hit, segundo Blackmore; "jeito muito especial de tocar"
Luis Mariutti detona quem chama Shamangra de banda cover e explica motivo
Geddy Lee ficou enojado com bateristas se oferecendo ao Rush após morte de Neil Peart
O álbum que quase enterrou o Black Sabbath, até que Ozzy voltou e salvou a banda
O melhor cantor de blues de todos os tempos, segundo Keith Richards
Álbuns clássicos do rock e metal que quase tiveram outros nomes, segundo a Loudwire
O momento mais surreal que Zakk Wylde vivenciou no dia do último show do Black Sabbath
Rolling Stones lança o vídeo de "In The Stars", música de seu novo disco de estúdio
Keith Richards descarta shows dos Rolling Stones ainda em 2026
A clássica música dos Rolling Stones que Keith achava que não tinha ficado legal
5 bandas de abertura que roubaram o show e deixaram artistas gigantes sem saber o que fazer
O álbum dos anos 1990 que Mick Jagger considera perfeito: "Cada faixa é um nocaute"
O músico que recusou convite para o Led Zeppelin, mas entrou em outra banda ainda maior
Rolling Stones: o dia em que Keith Richards ameaçou esfaquear Donald Trump


