O gênero musical que tomou o lugar do rock, de acordo com Roger Daltrey
Por Bruce William
Postado em 17 de novembro de 2025
Quando se fala em rock britânico dos anos 1960, o nome de Roger Daltrey aparece quase automaticamente. Como frontman do The Who, ele foi a voz de discos que ajudaram a empurrar o rock além do formato básico de canção curta, com direito a óperas rock, narrativas mais ambiciosas e uma mistura de referências que ia da cultura Mod à psicodelia. Décadas depois, ele continua no palco ao lado de Pete Townshend, revisitando esse repertório em turnês que funcionam quase como uma retrospectiva ao vivo da própria história da banda.
Por trás desse movimento de celebração, porém, Daltrey não esconde que enxerga o cenário atual com menos empolgação. Em 2016, ao falar com o jornal The Times, ele comentou que aquele espírito de ruptura que marcava o The Who e tantos outros grupos parece ter se esgotado no rock mainstream. Em vez de enxergar uma nova leva de bandas com a mesma força de choque que ele via nos anos 1960 e 1970, o vocalista diz sentir que o gênero perdeu o ímpeto de avançar.

A frase que mais chamou atenção na entrevista, ressalta a Far Out foi quando ele disse: "A tristeza pra mim é que o rock chegou a um beco sem saída...". Na sequência, ele emenda a comparação com o que anda ouvindo fora desse universo, e é aí que surge o gênero que, aos olhos dele, assumiu o papel de espelho da sociedade que o rock um dia ocupou.
Em vez de apontar para guitarras distorcidas, Daltrey mira os MCs e produtores que hoje dominam as paradas. Falando sobre quem ainda trata de temas relevantes, ele disse: "As únicas pessoas que estão dizendo coisas que importam são os rappers, e a maior parte do pop é sem sentido e esquecível", em uma crítica que mira tanto o conteúdo quanto a durabilidade: para ele, muita coisa que aparece como "novidade" no pop atual some sem deixar rastro. Daltrey comentou que assiste a artistas novos se apresentando e, pouco depois, nada fica na memória: "Você assiste esses [novos astros do pop] e não consegue lembrar de porcaria nenhuma."
Ao lembrar da própria trajetória, ele associa a fase clássica do The Who a uma sensação de perigo que, na visão dele, falta hoje. As brigas internas entre ele e Pete Townshend, histórias de bastidores cheias de tensão e o volume de som no limite faziam parte de um pacote em que a música parecia sempre prestes a sair do controle. Daltrey vê essa agressividade canalizada, em grande parte, para a forma como muitos artistas de rap abordam temas sociais, políticos e pessoais - algo que, segundo ele, se perdeu na máquina de hits descartáveis do pop.
A aproximação entre rock e rap não é exatamente nova: dá para lembrar da citação ao hip hop em "Rapture", do Blondie, no começo dos anos 1980, das misturas de metal e rap que geraram o nu metal dos anos 1990, ou de parcerias pontuais entre bandas de rock e MCs. O que muda, no caso de Daltrey, é o peso do reconhecimento: vindo de um vocalista associado a uma das bandas que ajudaram a definir o rock de arena, ouvir que "quem está dizendo coisas que importam" hoje são os rappers funciona quase como uma passagem simbólica de bastão.
Para o público que cresceu com guitarras à frente de tudo, essa visão pode soar amarga. Mas, olhando para a linha de raciocínio de Daltrey, o recado não é que o rock acabou, e sim que aquele papel de gritar o que muita gente pensa - e às vezes não consegue dizer - migrou com força para outro lugar. Na leitura dele, esse lugar atende por um nome bem claro: o rap, que ele enxerga como o gênero que assumiu a tarefa de falar do que está acontecendo no mundo enquanto boa parte do pop se contenta em ser apenas ruído de fundo.
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