O álbum dos Titãs que Herbert Vianna achou que os Paralamas nunca superariam
Por Gustavo Maiato
Postado em 13 de novembro de 2025
Morre Phil Campbell, guitarrista que integrou o Motörhead por mais de 30 anos
Durante a efervescente cena do rock brasileiro dos anos 1980, duas bandas se destacaram não apenas pelo sucesso e pela longevidade, mas também pela rivalidade criativa e respeito mútuo: Titãs e Os Paralamas do Sucesso. Surgidos praticamente ao mesmo tempo, os grupos sempre mantiveram uma relação de amizade e admiração, mas também de provocação artística - o tipo de disputa saudável que, em muitos momentos, empurrou ambos a patamares ainda mais altos.
Essa relação chegou a um de seus pontos mais interessantes em 1989, quando os Titãs lançaram o disco "Õ Blésq Blom", produzido por Liminha e gravado no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro. A obra, que nasceu de meses intensos de experimentação sonora, seria um divisor de águas para a banda. E, segundo o relato do livro "A Vida Até Parece uma Festa - biografia oficial dos Titãs", foi justamente esse álbum que deixou Herbert Vianna, líder dos Paralamas, sem palavras. "O que a gente vai fazer depois disso, cara?"

No trecho relatado no livro, o episódio é quase cinematográfico. Certa tarde, Herbert visitava o estúdio Nas Nuvens, onde o grupo paulistano finalizava as mixagens de "Õ Blésq Blom". O produtor Liminha o convidou para ouvir as faixas prontas. Após a audição, impactado com o que escutara, Herbert reagiu com espanto e entusiasmo.
"Õ Blésq Blom" era, afinal, um álbum ousado em todos os sentidos. Misturava colagens sonoras, batidas eletrônicas, samples e influências nordestinas, em um caldeirão musical que refletia o fim dos anos 80 e a entrada definitiva da tecnologia na música popular. Os Titãs se trancaram por três meses no estúdio, experimentando texturas, ritmos e camadas de som que resultaram em um trabalho tão complexo quanto coeso.
Para um grupo que vinha do sucesso de "Cabeça Dinossauro" (1986) e "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" (1987), o novo disco representava a consolidação da maturidade artística. E, para Herbert, era um sinal claro de que os Titãs haviam ultrapassado fronteiras sonoras que até os Paralamas - uma banda igualmente inventiva - ainda não tinham explorado.
Rivalidade Titãs x Paralamas
Anos mais tarde, o próprio Nando Reis relembraria essa relação entre as duas bandas com um misto de carinho e ironia. Em vídeo publicado em seu canal no YouTube, o ex-titã afirmou que "sempre existiu uma certa rivalidade, mesmo entre bandas amigas". Segundo ele, essa competição foi crucial para decisões importantes - como a de gravar o lendário "Acústico MTV", em 1997. "Queríamos gravar o Acústico antes dos Paralamas! Isso agiu como um motivo para a decisão de fazer o projeto", contou Nando.
A provocação funcionava como estímulo criativo. "Entre as bandas da nossa geração sempre houve essa tensão boa. Éramos muito amigos - eu, o Bi, o Herbert, o Barone - mas queríamos estar um passo à frente", explicou o músico.
Herbert Vianna, por sua vez, sempre demonstrou respeito profundo pelos Titãs. Em entrevista ao programa Roda Viva, em 1995, ele exaltou o talento coletivo da banda paulista:
"É incrível pegar oito brasileiros com essa média de inteligência e senso de humor tão alta. Quebraram a estatística. Tenho muito prazer em estar com os Titãs. Eles me afetaram muito - até meu jeito de falar mudou por causa deles."
Herbert ainda admitiu sentir uma "inveja positiva" dos colegas: "Admiro muito a organização interna dos Titãs. Eles conseguem distribuir bem o trabalho entre todos, e isso é raro. Tenho uma inveja boa dessa capacidade prática deles."
Essa troca de admiração se refletia em shows e bastidores. Herbert elogiava o profissionalismo dos Titãs, que sempre faziam questão de ter bandas de abertura, mesmo com a logística complicada de palco. "Nós, Paralamas, éramos mais desleixados nesse aspecto", brincou.
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