Gene Simmons lamenta não ter feito intervenção por Ace Frehley no passado
Por João Renato Alves
Postado em 29 de abril de 2026
Já virou rotina: de tempos em tempos, Gene Simmons lembra de falar sobre os vícios do saudoso Ace Frehley. Durante entrevista ao podcast Inside Of You With Michael Rosenbaum, o linguarudo – em todos os sentidos – voltou a falar sobre os problemas que o Kiss teve com seu guitarrista original. Mais uma vez, sobrou até para os fãs na explanação.
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"Foram 50 anos de altos e baixos com Ace. Os fãs muitas vezes me odiavam por dizer a verdade. Quando o pai é expulso de casa, as crianças não entendem - elas amam a mãe e o pai - por que a mãe expulsou o pai de casa. Ela tenta explicar: 'Ele era um bêbado, um fracassado, sempre se atrasava, não chegava na hora, não fazia o que devia, mal estava presente na vida das crianças, mas ele é o pai de vocês.' E os fãs são como crianças. Eles não entendem."
Valendo-se do "morde e assopra", Gene prosseguiu: "Se você tivesse conhecido Ace no início do Kiss - que Deus o abençoe - teria se apaixonado pela ideia, por quem ele era e tudo mais. E então, como disse Nicolau Maquiavel, quando você tem poder, às vezes deve abusar dele. Isso afeta a todos nós de maneiras diferentes. A mim também. Ace se entregou às bebidas e às drogas. No começo, ele não aparecia para gravar suas partes de guitarra, nem mesmo em 'Destroyer'. Os fãs não gostam de ouvir isso porque ele é muito talentoso e todos, todos os novos guitarristas, foram influenciados por ele e tudo mais.
Mas quando você está junto em uma banda, passa mais tempo junto do que com seus familiares, sua esposa ou filhos. Então ele se atrasava e tudo mais. E o Peter (Criss, baterista), nós o amamos, e que Deus o abençoe, ele ainda está por aí, mas realmente desde os primeiros dias, assim que o dinheiro e a fama chegaram, foi como se uma nuvem tivesse surgido. Ambos entraram e saíram da banda três vezes. E os fãs simplesmente não conseguiam entender."
Dando um exemplo de quão pouco confiável Frehley era, Simmons contou: "Estávamos participando do Festival Eurovision e éramos a atração principal. As pessoas nos Estados Unidos não sabem o que é isso, mas 600 milhões de pessoas naquela época, hoje um bilhão, assistiam, basicamente todos os países do mundo enviam seus representantes e é um concurso musical. Ace não apareceu. Tivemos que nos apresentar como um trio. Simplesmente não acabava nunca... Se não fôssemos tão populares, teríamos pedido para ele sair.
Mas, estranhamente, na primeira vez que saiu, ele se virou para nós, e é triste, e disse - esta é uma citação; ele me disse isso duas vezes, duas vezes - 'Estou saindo da banda. Vou seguir carreira solo.' Tentamos conversar com ele - eu sei que tentei - na frente do empresário e de todo mundo: 'Fique na banda. Siga sua carreira solo. Tenha tudo o que você quer. Não queremos nada de você. Se você não está feliz, faça outras coisas, mas não acabe com a banda. Isso é loucura.' Ele simplesmente nunca tomou decisões inteligentes. Então, na saída, disse: 'Vocês vão ver. Vou vender 10 milhões de cópias do meu disco solo.' Isso é uma citação. E nós dissemos: 'Não, não faça isso. Fique na banda.' E ele disse, mais de uma vez: 'Se eu não sair da banda e fizer outra turnê, vou me matar.' Então, seja lá o que estivesse acontecendo, isso parte o coração."
Na verdade, o festival em que o Kiss participou com uma apresentação em trio foi o de San Remo, da Itália, em 1981. À época, Eric Carr já era o baterista e a banda apareceu via satélite fazendo um playback de "I", do álbum "(Music From) The Elder", lançado no mesmo ano. Ace realmente não compareceu e os músicos alegaram que ele estava doente.
Apesar dos pesares, Gene reconhece a influência de Frehley nas gerações posteriores. "Se você olhar para a obra dele, verá guitarristas como Eddie Van Halen e... quem é o garoto do Metallica? Nossa, esqueci... eles citam Ace. Tom Morello e outros dizem: 'Aprendi a tocar guitarra ouvindo Ace'. Ele ficou tão orgulhoso e feliz ao saber pela Casa Branca - não pelo presidente - que o Kiss havia ganhado o prêmio do Kennedy Center ano passado. Estava tão ansioso para ser homenageado. Como um garoto de rua que entra para uma banda e chega ao mais alto nível das premiações americanas... sei lá... E ele simplesmente não conseguiu ir, pois morreu antes."
Questionado sobre o que teria feito de diferente se tivesse a chance, Simmons disse: "Eu deveria ter feito isso, e poderia ter feito, mas deveria ter feito há muito tempo. Quando vi a doença começando a afetá-lo, décadas atrás, tê-lo chamado para um canto - isso se chama intervenção - e o forçado a entender que não estava prejudicando apenas a si mesmo com suas escolhas de estilo de vida, mas também sua família, sua filha e os fãs. Foi uma decisão estúpida e vergonhosa da nossa parte - eu sei que da minha também - pensar: 'Não vamos chatear os fãs. Vamos fingir que ele está na banda e que está tudo bem em casa.' E é difícil. É muito difícil."
Gene sabe que quando faz esse tipo de colocação, acaba magoando o público. No entanto, prefere se manter fiel ao que acredita. "Os fãs vão ouvir isso e falar: 'Que idiota, Gene nunca diz nada positivo.' Mas os jovens em casa não entendem como era quando Ace estava sob o efeito de drogas e álcool. Nunca conheceram ou conviveram com ele. Quando estava sóbrio era adorável, tudo era ótimo. Quando as coisas começaram a piorar, era como o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde. Você simplesmente não consegue tomar decisões sensatas quando está bêbado ou drogado."
Depois que o apresentador do podcast observou que era óbvio o quanto Gene amava e se importava com Ace, o Demon concluiu: "Olha, ao longo dos anos, nos bons e nos maus momentos, ele me ligava e pedia um favor: 'Você pode vir aqui e compor algumas músicas comigo?' Mesmo depois de eu ter dito a ele: 'Você é um idiota. Você está tomando decisões horríveis na sua vida' e coisas do tipo. Mas ele ligava e dizia: 'Estou gravando um novo disco. Quer compor algumas músicas comigo?' 'Claro.' Entrava no meu carro, dirigia até o deserto onde ele estava e fazíamos músicas novas."
Paul Daniel Frehley faleceu em outubro de 2025, aos 74 anos de idade. Ele havia sofrido uma queda em seu estúdio caseiro, passando as últimas semanas em coma. Após a morte cerebral ter sido constatada, a família optou pelo desligamento dos aparelhos.
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