Tiros, tempestade e motociclistas; o caos no último show de Jimi Hendrix
Por Bruce William
Postado em 13 de junho de 2026
Jimi Hendrix fez seu último show completo em 6 de setembro de 1970, no festival Love + Peace, realizado na ilha alemã de Fehmarn. O nome do evento prometia uma celebração pacífica, mas o cenário encontrado pelo guitarrista tinha pouco a ver com amor ou tranquilidade. Chuva, vento forte, cancelamentos, brigas, motociclistas armados e uma organização em colapso transformaram o local numa espécie de pesadelo hippie.
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A apresentação fazia parte de uma curta e desgastante turnê europeia, relembra a Classic Rock Hendrix não queria viajar naquele momento, mas precisava levantar dinheiro para seu recém-inaugurado estúdio Electric Lady, em Nova York. Em poucos dias, ele, o baixista Billy Cox e o baterista Mitch Mitchell passaram por Inglaterra, Suécia, Dinamarca e Alemanha, alternando shows fortes com noites em que o cansaço e os problemas pessoais já se tornavam visíveis.
O Love + Peace pretendia ser uma resposta europeia a Woodstock, mas acabou lembrando muito mais o desastre de Altamont. O mau tempo castigou a ilha, várias atrações desistiram e um grupo de motociclistas alemães tomou conta de partes do festival. Houve saques, incêndios e relatos de disparos de metralhadora. Um funcionário chegou a ser atingido na cabeça por uma tábua com pregos pouco antes da chegada de Hendrix.
A banda deveria tocar na noite anterior, mas uma tempestade tornou a apresentação impossível. Quando Hendrix finalmente apareceu, no início da tarde seguinte, parte da plateia respondeu com vaias. Ele não se intimidou. "Não estou nem aí se vocês vaiarem, desde que vaiem afinados", respondeu, antes de pedir desculpas pelo adiamento e apresentar os músicos.
O show começou com "Killing Floor", de Howlin' Wolf, mesma música usada na estreia da Jimi Hendrix Experience, em Paris, quatro anos antes. A coincidência criou uma espécie de círculo involuntário. Depois vieram "Spanish Castle Magic", "All Along the Watchtower", "Hey Joe", "Hey Baby", "Message to Love", "Foxey Lady" e "Red House".
A reação hostil desapareceu rapidamente. Mesmo com frio, chuva e equipamentos expostos, Hendrix recuperou o público tocando. Durante "Red House", quando o tempo voltou a piorar, ele improvisou versos e riu da situação. Quem estava ao lado do palco lembraria depois que o guitarrista continuou na parte da frente, correndo risco de choque, sem recuar diante da água e do vento.
Fora do palco, o ambiente continuava piorando. Billy Cox enfrentava uma crise paranóica depois de ter sua bebida adulterada com LSD dias antes, e o clima dentro da banda era de esgotamento. Hendrix também vinha dizendo em entrevistas que estava mentalmente exausto e que queria mudar de rumo, trabalhar com mais músicos e explorar outras possibilidades além da formação que o havia transformado em estrela.
As duas últimas músicas do show de Fehmarn foram "Purple Haze" e "Voodoo Child (Slight Return)". A apresentação seria a última oficial de Hendrix com sua banda, mas não sua derradeira aparição pública no palco. Dez dias depois, ele ainda participaria de uma jam com Eric Burdon e o War no Ronnie Scott's, em Londres. Depois, ele agradeceu, desejou paz e deixou o local de helicóptero. Pouco tempo mais tarde, motociclistas começaram a destruir estruturas do festival, houve confronto armado com a polícia e o palco acabou em chamas.
Menos de duas semanas depois, em 18 de setembro, Jimi Hendrix morreu em Londres, aos 27 anos. Fehmarn não foi planejado como despedida e tampouco teve clima de encerramento solene. Foi um show realizado no meio de lama, vaias, tiros e descontrole, por um músico cansado que ainda conseguiu tomar uma plateia hostil para si. O adeus aconteceu assim: sem anúncio, cercado pelo barulho de um mundo que parecia desmoronar ao redor.
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