A música obscura que ajudou o Soundgarden a religar a química que estava perdida
Por Bruce William
Postado em 13 de junho de 2026
Quando uma banda famosa volta depois de muitos anos, o público geralmente pensa primeiro nos grandes sucessos. No caso do Soundgarden, isso significaria passar por músicas como "Black Hole Sun", "Spoonman", "Fell on Black Days" ou "Rusty Cage". Só que, para os próprios músicos, retomar uma banda não é apenas lembrar a lista de clássicos. É descobrir se quatro pessoas ainda conseguem ocupar o mesmo espaço sonoro sem parecer uma imitação delas mesmas.
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O Soundgarden havia encerrado suas atividades em 1997, depois de uma fase intensa que levou a banda dos porões de Seattle ao topo do rock dos anos noventa. Chris Cornell seguiu outro caminho com o Audioslave e também em carreira solo, Matt Cameron entrou no Pearl Jam, Kim Thayil ficou mais discreto e Ben Shepherd seguiu envolvido com outros projetos. A separação não carregava exatamente uma novela pública de brigas, mas havia o desgaste natural de uma banda que tinha vivido uma década pesada.
Por isso, a volta não poderia depender apenas de nostalgia. O Soundgarden tinha uma forma muito particular de funcionar, com riffs tortos, andamentos incomuns, peso, psicodelia, melodia e uma tensão que não vinha só da guitarra ou da voz de Cornell. Era o tipo de grupo em que cada músico parecia empurrar a música para um lado, mas de algum jeito a coisa se fechava. Depois de tantos anos, a pergunta era simples: aquilo ainda existia?
A resposta começou a aparecer de um jeito curioso. Quando a banda voltou a ensaiar, não escolheu um de seus grandes hinos para testar a engrenagem. A música que ajudou a dar o tom foi "Blind Dogs" (youtube), faixa lançada em 1995 na trilha sonora do filme The Basketball Diaries. Não era uma canção óbvia, nem uma daquelas que todo fã casual teria na ponta da língua. Justamente por isso, servia melhor como teste interno do que como aquecimento para plateia.
Chris Cornell explicou depois que a escolha teve um papel importante na forma como os ensaios começaram a andar. "Nós nunca a tocamos ao vivo. Aquilo deu o tom. A melhor forma de os ensaios funcionarem era alguém gritar o título de uma música, afinarmos as guitarras e tocarmos até a memória muscular voltar", contou ele à Rolling Stone, em fala repercutida pela Far Out.
A imagem é boa porque tira a reunião daquele terreno meio protocolar de banda ensaiando repertório para excursão. Não era apenas sentar e decidir quais músicas renderiam mais reação do público. Era quase um reaprendizado físico, com os músicos tentando reencontrar entradas, pausas, viradas e aquele peso estranho que fazia o Soundgarden soar como Soundgarden. "Blind Dogs", por não carregar o peso de um hit, dava espaço para isso acontecer sem a obrigação de soar monumental.
A escolha também fazia sentido pelo tipo de música que ela é. "Blind Dogs" tem uma atmosfera escura, arrastada e pouco radiofônica, mais próxima daquele lado menos domesticado da banda. Não é o tipo de faixa que resume a carreira do Soundgarden para quem chegou agora, mas ajuda a lembrar como o grupo podia ser denso sem precisar correr atrás de refrão fácil. Para quatro músicos voltando a se escutar depois de anos, talvez fosse melhor começar por ali do que por uma música já engessada na memória do público.
Depois disso, o Soundgarden voltaria a lançar material novo, incluindo "Live to Rise", feita para a trilha de Os Vingadores, e o álbum "King Animal", de 2012. Naturalmente, a reunião teve outro peso depois da morte de Chris Cornell em 2017, o que torna qualquer lembrança daquele retorno mais agridoce. Mas a história de "Blind Dogs" preserva um momento anterior, quando a banda ainda estava tentando entender se havia algo vivo ali.
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